— Deixe que eu tire esse cisco do seu olho.

            Ora-pro-nóbis, mastigue ora-pro-nóbis para que os seus músculos continuem rijos enquanto você anda resfolegando com a fumaça que respira, pedem que tenha calma, mas você se consome com outras mesquinharias do mundo quando se interrompe. Se pudesse te faria um corpo de folhas para proteger o ar que você respira, folhas de hortelã e boldo para sua garganta e estômago, mas você não é meu filho e as plantas só servem às anciãs; e eu, que poderia ser seu irmão, sou seu amante, e se fosse possível, tornava-te meu dentro de um jardim de bétulas onde o vapor é chuva a reverdecer tudo que as mangueiras só artificialmente se prestam a. Morro com sua autodestruição, estrutura ressecada, sua vida depositada nas transitoriedades, árvore de outono cuja grande expectativa são algumas poucas folhas. Não quer nada além disso; descarta a existência palpável de flores ou frutos. Te arrumo e você rasga, qualquer trapo de estranhos parece mais instigante que as malhas que te faço a mão há anos; você me recusa o zelo e ainda me jura amor, como se esperasse receber alguma dádiva depois de incinerar minhas oferendas. Você me olha como um menino sedento que esteve no deserto e sabe aguardar. Te ofereço água e você deseja álcool destilado do arroz, pois todo o resto do corpo você me serve de volta para que eu te beba e dance contigo, para que me conheça nu e em minha carne gentilmente desfaça minhas costuras com sua brutalidade. Os tecidos rasgados que você me atira em pilhas, linhas cheirando a suor, todos os sais de seu corpo, sempre que voltava para casa após dias e eu te preparava uma nova roupa. Não vestia uma sequer, mas as destroçava e marcava com seus odores, que lembravam ruas, trilhas entre vales e maresia, vômito e gozo. Te seguia todas as vezes até a esquina, antes que suspeitasse, e praguejava por cada um de seus cheiros, tornando nossa doutrina apenas uma entre as suas.

            E você voltava, em um retorno cada vez mais angustiado ao esticar suas esperanças pelo mundo, embora eu já não te chamasse mais, minha voz riscada e entrecortada de tanto gritar contra a terra seca.

            Aquela senhora que morreu e deixou suas orquídeas amarradas às árvores aqui no bairro, você sabe, aquelas flores estão sempre púrpuras; e todos os vasos que você me deu são de violetas que murcharam em casa. Modelos aparecem aqui e as peles deles me lembram a sua, procurando pelo estilista que fui, costureiro de origem no tear de minha mãe. As tapeçarias dos filmes em Tânger eram meu sonho, mas seríamos o quê. Os chacais já me rondam há anos, mesmo entre essas paredes, e você, um filhote desgarrado de minha espécie, o único que me lambe o corpo sem me abandonar na curva seguinte ao gesto.

            Não consigo mais, oro com as contas entre os dedos por todas as perdas que você me deu ao longo desse tempo e não há mais esferas a percorrer, tomo-as em mãos repuxando os aros para que em um gesto se quebrem. Esperei que os cristais se espalhassem por todos os cantos irrecuperáveis, mas as contas estão firmemente interligadas pelos elos metálicos. Ora quero estilhaçar as pedras em golpes de marreta, ora considero lancetar qualquer parte que destrua sua forma circular.

            É impossível, porque te espero e o ar ao meu redor está saturado.

            Desisto das contas, arremesso aquele terço inútil contra a cama dos fundos da casa, o que depois reconsidero ao desmontá-lo pacientemente. Recolho os cristais e uso-os na confecção de um traje noturno; vendo-o ao primeiro que o elogia sinceramente. Sonho que garimpo turmalinas para montar outro terço, mas me satisfaço com o altar no quarto de dormir há tanto esquecido, o pano rasgado com as iniciais daquela crença anterior à sua vinda.

            Quando voltou a me ouvir, minhas preces eram outras; e você, com sua velha oração, cheirava a lavanda.

21/06/15

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).