o sol das sete ascende no horizonte
nos cegando de tanta e larga sorte

Nádia,

(esta é pelas memórias do verão)

cheguei tremendo, com sangue nos olhos, e você, de língua afiada, na prontidão para uma vida que não viria, porque você se enclausura na mediocridade para ter onde segurar-se, enquanto eu condeno tudo que há de humano no que venho cultivando ao derramar o vinagre de minha fúria prepotente: nós todas nos formamos medíocres, embora crianças estranhas que prometiam tanto, porém

você sempre fez o que quis, assim como eu nos desvios da negação, mas nunca deixamos de nos provocar: hoje a diferença é que não recortamos a relação em meses de silêncio rancoroso

mas ainda assim, sou irritante e você se virou no gesto de socar meu braço, mas então se conteve, porque mais tarde você diria que se nós nos espancássemos, inevitavelmente terminaríamos no chão uma sobre a outra; e seu sorriso ainda estava exultante pelos avanços de seu namorado no final de semana anterior. eu te cutuquei para que me esmurrasse, mas em sua lealdade me propôs que disputássemos corrida. venci porque você desistiu muito antes do final do trajeto, sabendo desde os primeiros cinco passos que não me alcançaria: o que me tornei de explosiva você amansou em paciência; invertemos os papéis ao longo dos anos

e antes de encontrar-te, enxerguei no meu irmão, gêmeo pelo reverso, nossa paixão pelo gozo narcísico através das personagens que criamos para nos esconder de nós mesmas através da linguagem; contigo, ouço-te admitir que a única pessoa para quem você mente é para si própria. agora eu, se dou voltas, é porque sinto que tudo é mentira e a verdade é o que nos transcende; enumerar ferramentas e árvores e topázios não os subtrai de maya

e no entanto nós roubamos a luz do templo que nos abraça ao anjo caído: como ele, nós também somos a estrela da aurora. choro ao me lembrar de como era minha devoção à santidade, pois hoje revejo o cenho enrugado de Lúcifer nas lágrimas que mostram o espelho, embora conheça o limite dessa vaidade. a virtude apressada resseca na estreiteza de suas raízes, e sabemos que evitar a estupidez é o que nos impele a uma perpétua queda. damos, então, alguma passagem às últimas tentações para medir o desgaste de nossa carne

e por fim, é sempre isso; nossa sede por sermos verdadeiras ao menos com nossa proposta: sua aurora grita pela independência, a de meu gêmeo mente para curar e minha manhã anuncia os banhos de sangue ocultos da noite, porque se acreditamos na Divindade, Ela não nos consola; apenas nos une em um Todo cuja força se manifesta em nosso peito, e ela cresce dobrada contra quem oponha resistência à nossa vontade

filhas da manhã, seguimos em obsessão de impetuosidade ansiosa sempre viva, silenciando a delicadeza que há muito tenta resguardar-se, em tristes olhos de avelã, em uma verdade que nos espanta conhecer quando nos encontramos ausentes no reflexo do olhar uma da outra, caindo chamuscadas com as ambições que já não podemos sustentar: exaustas dos ecos de nossas vozes, procuramos pela visão que nos faça saltar sobre o vácuo de nossas faltas

dragadas de uma profunda, densa nostalgia por aquela inocência que ambas conhecíamos; e hoje sua sombra nos retorna, com um apelo, para que a procuremos como leito ao nosso desamparo

e estamos no inverno. onde se perdeu nosso lirismo?

sua (mas nunca somente),

Hazel

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).