06/05/2013

Sonhos de outono. A mulher sem rosto que reúne em si todas as outras.

Em nosso abraço, não havia mais roupa, mas a textura de sua pele mediterrânea. As palavras quiseram cair, como minha língua sobre seu corpo, qual amor em mornas e morenas costas, o encontro das mulheres que incorporamos.

Seus sussurros não se comunicavam pelos lábios, pois ela os mantinha cerrados junto ao meu pescoço: as frases se inscreviam no ar, feixes laranjas luminosos, acompanhando o ritmo de sua respiração. Sempre presente e acima de nós, ainda que seus pés fossem as raízes do mundo, uma senhora nos acompanhava, mas então nos esquecemos dela, porque o desejo resgata e corta o fluxo da memória, tanto aquela que adensa o agora com as manchas passadas quanto a que reconhece o que nos salvaria das repetições. Não consigo evitar nenhuma delas ao mesmo tempo que as ignoro todas. Não me lembro de uma sílaba sequer, mas ainda sinto aquela mulher contra meu peito, amena como o calor nos arredores do forno, corpo por onde o fogo se espalha.

Anciã, invoque as salamandras
porque o mar se agita e precisamos
de espelhos para nossas irmãs.

E quando os ombros se refletiam, encontravam-se em dança, éramos amantes mantidas em nossas trocas correspondentes de ritmo. E ela fluía, sem contar os passos, e eu, em minhas medidas, frente às suas irregularidades me perdia. Os sonhos não fingem nossa dissonância, porque o inconsciente sabe que é perda de tempo estender a ilusão da vida diurna. Sei que eles nos protegem sem nos enganar.

A cena se retomou como o presente, pois aprendo com sua boca o gosto da espontaneidade, bebo a vontade que escorre de suas pernas. Engulo nela a mulher que vou me tornar.

Porém, três amantes se condensam no olhar interrogador que ela me dirigiu em sonho ao interromper a dança e abaixar as pálpebras de seu rosto indefinido: não sei mais se ela é a força da natureza que me complementa, a ordinária que também sou ou minha gêmea viciada. Todas são amadas, mas cada uma dá de ombros ao seu modo.
Qual delas é você?

Caem grãos de areia do cocar da senhora como gomos de romã, enquanto se evadem os sais de nossos seios como vasos de água parada. Buscamos em nossa sede recíproca alguma purificação ao desprezo e à melancolia.

A anciã me observa e ajoelha-se, tocando a grama, onde deixa cair sua lágrima. E ela entra, como eu venho, porque é preciso água: tudo ao meu redor dorme incendiado, e não existe escapatória.

Desperto, mas o sonho continua: levantarei somente quando as romãs que andam comigo tornarem-se doces, com os lábios abertos de quem não mais tem medo.

Mas ainda que acorde, resta tudo que oprime a vista.

E, no fundo, tudo é profecia.

 

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).