Deixo a companheira no quarto do hotel. A janela, enorme, abre vista para o mar ainda maior. Ontem li um novo livro de poemas que escrevi, e sempre me reparo nesta ideia: janelas, portas, estradas, imagens que, vez sim e outra também, aparecem nas palavras. Mar, gata, avó, buda, pássaro. A companheira faz que acorda-não-acorda, sorri e diz que depois desce. Desço. Tomo um café cheio de açúcar na padaria do vilarejo. O reggae ainda come solto desde a noite anterior. É manhã. Volto pouco a pouco para o quarto, ouvindo o despertar dos sons na rua, no mato, na praia. Ainda na cama, a companheira está nua. E a alma.

Escrito por Leandro Durazzo

Antropólogo, tradutor e escritor. Autor de Tripitaka (poesia, 2014), Histórias do Córrego Grande (prosa, 2015) e Cantos de Natal (poesia, 2017), costuma viver na praia, quando não na estrada. Possui poemas espalhados em coletâneas e revistas literárias, tanto seus quanto de outros, que traduz. Trabalha com povos indígenas e religiões orientais, nem sempre ao mesmo tempo.