Hazel,

“Sua maldade raramente está onde você se orgulha de que ela esteja”, você ouviu de um gigante em sonho, e me contou, não na manhã seguinte, como costumávamos fazer, mas depois de meses, quando eu te fiz rastejar pela mulher patética que você havia se tornado, e você admitiu para si mesma que guardaria esta frase em segredo até que ela se tornasse inevitável.

Queria que você sofresse, porque era a sua vez de cair, tendo eu já me levantado tantas vezes: o que nos unia era um visceral desejo e a cumplicidade de acusações alternadas.

Antes, meu vício era seguir sempre no encalço de seu desleixo, que, ferindo-me, alimentava meu ímpeto de vingança, inconsciente de que, perseguindo minha assassina, eu continuava no mesmo caminho que o dela.

Foi isso que me fez tombar por dentro, frente às inscrições da sinagoga de Córdoba, porque em minha fé de hoje entrevi a redenção pelos horrores de meus gestos anteriores. Lamentando a extinção dos minaretes em sua reconstrução como campanários, desejei a queda de todas as torres, afirmando-me, no entanto, como sua vaidosa executora. Vaguei pelas ruas repassando cenas que não me pertenciam nesta vida, mas que se colavam à minha memória pelo que reverberavam de velhos rancores. Foram-se horas a esmo, visitando imagens que me satisfaziam por seu poder, e logo depois me envergonhavam por contradizerem aquilo que nós duas havíamos superado através do lento e cotidiano fortalecimento. Não se tratava de nada específico, era apenas o deleite do mais fácil sobre o que quer que fosse, escolha cuja manutenção nos intoxicava, mas cuja ausência era nossa atrofia.

Aquela havia sido a minha vez, ocasião do colapso em que me deixei perder pelas ruas do bairro judeu, labirinto cujo único perigo era a sinuosidade constante que fazia a noite avançar sem saída, mas sentindo medo algum por minha vida, porque ela nada significava mais. Porém, mal nenhum se passou, e se hoje tenho gosto por atravessar as avenidas em plena noite, é porque a última vez na qual quase morri foi debaixo de meu próprio teto.

Ao fim e ao todo, meu recurso era o abandono, e agora o seu se mostra como um martírio rouco.

Perceba, então, que vim aqui traçar a desmesura de minhas falhas, para então deixá-la frente ao abismo das suas. Porque nós temos que mergulhar juntas, para somente assim conseguirmos subir, sabendo de nossa vocação à alquimia e ao milagre.

A diferença, agora sabemos, é que talvez não consigamos, e sabe-se lá se as duas o farão ao mesmo tempo.

Evitar esse risco, no entanto, é o que nos aparta enquanto habitamos a mesma planície, a mesma casa; e à medida que a corrosão dos anos avança, menos temos a que nos apegar. Todo o brilho das amizades e conquistas já se embaçou de saudade, ao mesmo tempo que carregamos afetos por consideração e o receio do silêncio como ausência de sentido. Apenas nos resta essa chama dentro, lanterna cuja vida depende dessas últimas imersões.

As outras portas estão fechadas, e a paciência é tudo que temos.

Não mais pelo amor entre nós, não mais por nossa capacidade de amar quem seja, mas, saiba, eu lhe escrevo isso por quem somos. Não é isso que você tanto preza com as mulheres em sua vida?

                                                                                                                       Sua (mas nem sempre),

Evelyn

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).