À minha frente vão dois índios. Eu, no banco de trás, como amendoins quando o carro para. Há um carro adiante, e em sua frente uma ambulância parada, no meio da pista, com outro carro parado a seu lado. Pessoas falam coisas que não entendemos, mas parecem preocupadas. “Acidente”, diz meu amigo que dirige. “Deve ser”, responde o passageiro. “Vou lá ver”, arremata o motorista, e abre a porta para sair. Penso em corpos caídos no meio da estrada, no acostamento, sangue, tristeza, lamento, em alguma imprudência no meio da noite. Demoro para abrir minha porta, mas abro, e quando meu pé toca o solo minha mão se apronta em mudra: Salve, Senhor do Reino dos Mortos, abençoado seja, abençoados sejam todos, atenuado seja o acidente. O ar do sertão me envolve de pronto, o perfume das árvores rasteiras da caatinga. Lá da frente, o motorista informa: “Não é acidente”. “Não é acidente? Apois…” Não foi. O carro ao lado da ambulância estava quebrado, e os paramédicos tinham parado apenas para ajudar. “Agora, olha, esse outro idiota que vê dois carros parados e para! Sem nem saber por quê!”

“E não é? Ainda é capaz de causar um acidente…”

Escrito por Leandro Durazzo

Antropólogo, tradutor e escritor. Autor de Tripitaka (poesia, 2014), Histórias do Córrego Grande (prosa, 2015) e Cantos de Natal (poesia, 2017), costuma viver na praia, quando não na estrada. Possui poemas espalhados em coletâneas e revistas literárias, tanto seus quanto de outros, que traduz. Trabalha com povos indígenas e religiões orientais, nem sempre ao mesmo tempo.