Peço que escute quando repousa a terra, pois que eu me deito com ela.

É assim que compenso minha ignorância dela, que redimo minhas mãos delicadas, em poucas horas ardendo pelo efeito de bolhas estouradas no manuseio da enxada. Não houve tempo para que calejassem nesse esforço oportuno que jamais retomei, obediente à ideia de uma vocação mental que conhece os campos apenas em travessia.

E aqui estou agora, nessa rotina escolhida de objetos mortos que tentam se afirmar enquanto vida. Não adianta a amplidão das janelas, porque elas ainda estreitam meus olhos contra as prateleiras. Imagino que posso continuar vivendo na órbita dos livros, mas a vertigem me prostra à necessidade do sol, ainda que me pretenda enquanto meu próprio.

Encontro no feixe de luz no canto do quarto ao meio-dia o substituto para minha ânsia por algo vivo, deixando talheres e anotações interrompidas ao sentar-me no chão sob seu abraço morno. Fecho os olhos, encostada contra o armário, a lembrar-me das andorinhas sobre os ipês amarelos de setembro, divagando sobre a leveza de seus ossos arejados em meio à densidade árida do interior paulista.

O corpo humano é despropositadamente pesado e não conheço alívio que possa poupá-lo disso sem o entregar à fragilidade. A porosidade que torna os ossos quebradiços. Não me surpreendo que tenha crescido sonhando com salões alagados, em cuja água poderia respirar tomando as narinas por guelras qual criatura marinha; e que hoje sempre busque as altitudes onde o vento siga a extensão da vista.

No entanto, o som dos alertas dispara o coração, o brilho das telas desregula o sono, a comunicação relapsa amarga no meio da garganta. A vida urbana sugere que nos enfurnemos em dissonância e torpor.

Não a suporto; peço que resgatemos ao menos o esforço da vigilância, a disciplina de agir conforme as estações, o aprendizado gradual das construções de adobe.

Saber viver os ritmos é o que nos salva da angústia dos solavancos.

É por isso que de olhos cerrados sob o sol busco algum sinal que me traga de volta à pulsação; e é porque faço isso que nada me vem à mente. Volto meu rosto à parede e descubro inúmeros riscos, observo sua forma em conjunto por vários minutos como que diante de um oráculo. Novamente nada, porque muito não se presta à interpretação: o vício da análise. Porém, ao divagar os olhos em desistência, deslumbro mais à frente da parede uma forma viva, somente concebível no ângulo de minha perspectiva: o busto de uma rainha de perfil, jovem que nada vê devido à sua própria coroa.

Enxerga-se facilmente que a coroa encaixa sobre seu nariz, atrás apoiada na nuca, porque é muito maior do que deveria ser. Suas pontas são afiadas, e com igual predisposição se entende que aquela rainha é capaz de servir-se do adorno como galhada de defesa. Para isso, entretanto, ela arrisca a integridade de seu crânio, pelo tanto que a coroa se encontra abaixo de onde o uso pede que esteja. Consigo ouvir o estalo surdo de sua quebra, a saliva pingando de sua boca, e logo me afasto do horror dessa suposição. Quero proteger sua cabeça com um travesseiro de folhas de bananeira, trocar sua coroa por uma guirlanda de flores, gotejar óleo de alecrim para que seus punhos se abram; que descanse sobre um leito borrifado de alfazema.

Ela não me permite, pois teria que abdicar da coroa: o metal que a cinge é a causa de toda insônia. Não mostraria a testa nua exceto diante de outra majestade despida, e assim ela se condenava à corrosão até que eu me afirmasse digna. E, de alguma forma, sinto como se minha vida toda tivesse se votado à essa provação, uma vez que não me pertencia a satisfação ou inquietude de uma colheita.

A visão é interrompida pela vinda das nuvens bloqueando o sol. Acordo daquela imagem condensando-se como um emblema gravado nas costas de uma moeda. O pavor de enxergar-me como a rainha, sabendo de minha necessidade indizível de ser protegida, me repeliu de qualquer derivação sobre o que havia visto. Empurrada a imaginar-me sob seu julgamento, não encontro melhor reconforto. Mas é preciso seguir adiante, então invento um espelho à frente para esbofetear o rosto melado de lágrimas, tomando consciência daquele prenúncio, a hora e a vez da rainha da coroa larga, porque nenhum domínio se faz sobre o ar, muito menos entre os oceanos.

Assim, volto-me ao resto da louça, aos trabalhos contínuos, à exaustão que busca dar sentido a uma existência de articulações mentais, distante da terra.

Mas eu a reencontro, na justa medida da vontade e do repouso, ainda que sempre torne a perdê-la.

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).