Recorte de manuscrito de Infância, livro de memórias de Graciliano Ramos

 

Luciana Araujo Marques
araujo.lu@gmail.com

Principal, social, promoções e spans. Por um tempo, a divisão que o gmail faz do que nos chega via correio eletrônico me parecia ilustrativa de nosso tempo, digo, o tempo dos que se comunicam via internet, sempre muito apressados e a ignorar as temporalidades diferenciais de quem ainda diz via fumaça, desde que, claro, alguém se lembre que é preciso olhar para o alto ou para um horizonte além para se dar o contato.

Por vezes, apesar das aproximações que a tecnologia proporciona, como, por exemplo, a leitura deste amontoado de palavras de uma brasileira que mora em São Paulo, numa revista que abarca escritos de gente de diferentes países, me parece que o que temos a trocar se dá ainda mais no âmbito da percepção da fumaça. Há algo que queima, há um sinal no céu, mas ele se dissipa se não visto por alguém, ou, para usar o verbo mais apropriado para o tema “visualizado”.

De qualquer forma, as cinzas, o que resta de uma fogueira acesa numa clareira, marca no chão um lugar mais escuro. Deixa um rasto do que foi calor e luz. Diferente de um incêndio que, ateado ao que é fechado, devasta todo um território, arruína o que é vivo pelas raízes.

O que estou a dizer de fogueiras na era do que tanto funciona até mesmo sem fio?

Mudam as tecnologias, mas há sempre o humano a criá-las e operá-las. Há uma digital diferente em cada tecla. O que se dá nesses trânsitos de imagens e palavras em nossa corporeidade por elas afetada? O que nos uniria ainda aos que na caverna contemplaram a própria sombra projetada? Não, eu não pretendo responder. Sou uma devota das perguntas.

Claro que, com as mensagens trocadas via what’s app, isso tudo de dizer sobre o e-mail, por exemplo, já soa obsoleto. Talvez eu só possa formular a pergunta porque comungo do que é obsoleto. Isso seria o distanciamento? Não sei, se pergunto está em mim, não importa a contagem de calendário.

Por um tempo, talvez num romantismo bobo, ficava com saudades das cartas de papel e escritas à tinta que nunca recebi via correios. Nostalgia que, confesso, foi quebrada quando comecei a ler textos de alunos escritos à mão. Sofrido! Mas, lendo recentemente um belo trabalho com manuscritos de Graciliano Ramos, me dei conta de outro modo do que diz a caligrafia, o papel escolhido, o cheiro que ali se impregna. Nenhuma novidade, mas porque soa velho é que é novo. Veja “velho” não vintage! E reascendeu em mim a questão dos tais afetos que nos atingem no que é carne e osso e sangue que corre, derrama, não registrado por câmeras ou ressonâncias, e que só a palavra é capaz de dar um sinal de existência. Mesmo que palavra em estado de fumaça. Nem que seja aquela palavra que fica entalada na garganta quando diante do que é visual, audível, aceso pelo toque, e ainda não tem nome até que alguém nos diz baixinho ou num grito.

Às vezes, nessas mensagens instantâneas de hoje, a gente enxerga em “tempo real”, o outro digitando digitando, gravando gravando, texto e áudio que nunca chegam. Quando vem, é uma linha. Ué!? O que escrevia ou dizia tanto? Este intervalo do que não veio é uma rasura que, na folha, não se apagaria?

Eu não sei vocês, mas eu sempre preferi o traço no lugar do liquid paper. Num certo impulso arqueológico, quando via aquela grossa camada branca sob uma palavra, tinha vontade de escavar, saber o que ficou por baixo, renegado e não dito.  Curiosa: estaria ali na linha borrada uma mera correção ortográfica ou o caminho de uma decisão de outra ordem?

Graciliano, nos manuscritos de suas memórias de menino, cortou “minha mãe” e trocou por “a patroa”. Cortou “meu pai”, e firmou “o algoz”, porque a partir de suas memórias pessoais, escritas entre 1938 e 1945, não à toa, depois da saída do cárcere por questões políticas, queria denunciar algo que afetava muitos outros. Foi muito importante para mim, no entanto, entender que, para chegar à escolha do substantivo mais apropriado para o que queria construir como artista engajado, a escolha precisa, reforçando a tal da secura tão já repisada de seu estilo (todo brasileiro leitor ao menos ouviu falar em Vidas secas), passou antes por um afeto incrustado em seu corpo.

Fiquei pensando nisso e no que estaria obsoleto no tal do e-mail. É curioso que, a gente diz em português do Brasil que escreve algo “no corpo do e-mail” (não sei se é o mesmo nas outras línguas). O que não cabe no corpo é chamado de anexo. Muitas vezes, o anexo é o principal, um documento, uma imagem importante, um livro inteiro em pdf. O tal do corpo do e-mail tantas vezes chega à caixa de entrada em branco. O campo chamado de assunto não é definido em palavra qualquer pelo remetente. O que importa está num arquivo que precisará ser baixado. Salvo ou não na máquina.

Na fragmentação das mensagens que se cruzam e se sobrepõe, não calculamos o peso do que é escrito. (Quando vou ao correio – uma vez por ano, talvez? – me hipnotiza o gesto do atendente colocando o pacote ou envelope sobre a balança, para calcular o preço da postagem).

A urgência e os assuntos que nos são caros são o tempo todo interrompidos pela não resposta do interlocutor, pelo outro assunto que é mais fácil de ser debatido. Eu já cortei o fluxo do que o outro dizia para bravejar qualquer noção de lugar de fala. Só depois me dei conta. Você já fez isso hoje?

Me consolam as figurinhas, gifs e emojis nas mensagens trocadas. Teria sido menos duro do que lidar com o silêncio? Uma carinha que sorri ou se lamenta, um coração que pulsa na tela e que pode ser vermelho, verde e até azul, cor que sempre me pareceu tão exterior ao meu corpo, cor do céu, cor do mar, dos olhos de alguém com origem outra, até que repassei as folhas dos meus cadernos e vi que há uma predominância da tinta em marinho.  Em cada rascunho nunca retomado ou no que não foi dito no calor da hora ou no que retorna em memória, percebo rasuras que, não expressas, decantam em algum lugar em nós. Resta saber se há corpo para tanto.