Hazel,

sei que no vértice de sua leveza e sedução evasiva há o receio de comprometer-se ao ponto de ser levada a perceber a mesquinhez nas pessoas ao seu redor, aquelas por quem você tanto virou o rosto para enxergar algum traço de benevolência. Dizia que era uma questão de perspectiva. E você não insistiu por elas, mas por sua sede de acreditar em alguém que não fosse a própria Divindade, pois Ela não te basta para vencer a melancolia das madrugadas sobre o muro na subida do morro, as mil luzes tremeluzindo atravessadas pelo canto das andorinhas no jardim da sra. Yutani. Você se retorcia em sua própria falta de fé porque não conseguia abdicar de querê-la, mas também não a fortalecia ao igualmente curvar-se ao apego. Seu peito está esgarçado, Hazel, e é preciso ter postura.

Matrizes entreabertas, sejamos assertivas como quem respira o fluxo sem o fragmentar além do imperativo da mudança.

Lembre-se, Hazel, de que as melhores pessoas que conhecemos foram dispersadas umas das outras pelas circunstâncias e escutam em si uma constante e silenciosa tristeza. Sabem que de nada adianta buscar esquecê-la, mas que é preciso encontrar as ametistas em seu reverso. Crescemos ouvindo “esteja no mundo sem pertencer a ele”, mas nós todas ainda assim tentamos e é isso que tanto nos violenta. Reviramos em amargura ainda maior quando reconhecemos em nós mesmas a capacidade de agredir na já irreversível visão das unhas sujas.

Dormimos chorando entre espinhos, sem colo no qual nos aninharmos, mas nós sabemos que, do outro lado, outra de nós também chora pela mesma razão.

Nós nos protegemos à distância.

Uma vez você disse que éramos missionárias no aprendizado da força. Firmamos teto ou vamos para onde precisamos estar, mas não onde encontramos reconforto, oferecendo como alento a gaze que entretece nossos músculos e espírito porque não sabemos negar socorro. E por isso também nos recolhemos em pendular necessidade de resguardo.

Resistamos ao desamparo compreendendo que nada mais nos resta senão continuar, rumo ao tempo em que retorno algum será desejado, pois tudo terá sido exatamente como a luz através dos trincos dos citrinos.

 Jamais se esqueça do tanto que eu te amo,

Nádia

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).