A fala que falha (que fraqueja. A fala que falha) também fertiliza o fôlego — manuseando alguma memória: entre furos (entre furtos), outros fulgores: a fala; a fala — essa que acompanha
os
desaparecimentos mais densos — produz outro corpo com o que corrói o que interroga com o que raspa o que rompe aquilo que irriga o corpo: produz outro corpo — angústia após angústia (amnésia atrás de amnésia) — filtrando os chiados e cheiros e chagas que aprendem
cedo
a proliferar. Até que um sopro (isto é: uma trincheira;
isto
é: um
gozo
) se infiltra na areia da carne — sem aviso ou avesso, sem arrimo ou alarme: maré? maré imantada (pelo despreparo) (pelo descuido) (pelo descalabro
de
uma sede que
às vezes esmo-
rece
mas não se amordaça)
.
Sua coragem amplia a minha experiência do rosto,
amplifica
e implode e poliniza o meu
convívio com a linguagem, com o rosto que
retiro,
não, que recolho
da
linguagem, gesto ou ato ou intento que nos aproxima e nos afasta do tempo, deste nosso tempo, que é o tempo todo que temos e ao mesmo
tempo
é tempo nenhum. — Trapo
à
toa? — A voz, as vozes. Os sons
,
outros contatos. Tantas sintaxes. Ritmos. Ou
táticas
ou recursos ou processos.
Tantos
silêncios. Circuitos descontínuos e muitas vezes inexatos tensos desconexos e talvez por isso tão sinuosos tão sedentos. Ra
-nhuras. Ruídos. Radares
.
Radiadores que rondam que ruminam. Incansavelmente. Quer
dizer. Emergencialmente. Novos espaços
propostos.
Ou transfigurados. Espaços dispostos debaixo da pele da língua da voracidade. E dentro dos lapsos dos olhos dos dias. Entre as vértebras. Os
tendões
. Entre as fuselagens frestas frutos. Fiações. Ou cabos ou barragens. Veios dutos vielas úteros. Vasos
vários.
Onde tudo é tímpano. Retina. Osso. Papila.
Trepidar
de labirintos. (Ou paisagens. — Paisagens de uma
leveza
aterradora. — Paisagens em
meio
a uma leveza aterradora
:
a materialidade/a flexibilidade/a brutalidade
da alegria
; prática de subsistência
.
) Fritamos a afasia em fogo farto. Manipulando a aplicação
de chuvas nos campos indefinidos
do fôlego. Fritamos
a afasia
em fogo farto. Mobilizando a perpetuação
de lutas
nos cantos irrestritos
do
fôlego. Fritamos a afasia
em fogo farto
— nada adia nossa lida:
com
as veias cheias/as artérias repletas
de palavras:
a
coragem acolhe o cotidiano
na carne é na carne
que
o cotidiano acontece.

Escrito por Casé Lontra Marques

Casé Lontra Marques é um poeta brasileiro nascido em 1985, em Volta Redonda (Rio de Janeiro). Mora em Vitória (Espírito Santo). Publicou "O que se cala não nos cura", "Saber o sol do esquecimento" e "Mares inacabados", entre outros. Reúne o que escreve em caselontramarques.blogspot.com.br.