Eu tinha acabado de chegar
de São Paulo e, por não saber o que
fazer, liguei o computador. A primeira
notícia que apareceu, num site
que abri sem perceber, falava da Síndrome
Japonesa ou Parisiense. Parece que ainda
não há uma unanimidade em relação
ao nome, mas o que importa é que essa
síndrome existe e muitos turistas japoneses
precisam de tratamento psicológico depois
de visitar Paris. De acordo com o médico
entrevistado, um terço dos pacientes se recupera
imediatamente, outro terço sofre recaídas
e o restante desenvolve psicoses, apresentando
episódios de alucinações, taquicardia,
desilusão, ansiedade, frustração e mania
de perseguição. A embaixada do Japão
em Paris tem até uma linha telefônica
criada especialmente para atender os
japoneses que surtam durante sua estada.
Mas como assim alguém pode se tornar
psicótico só por visitar uma cidade? Parece
que o confronto entre expectativa e realidade e
a decepção de não encontrar exatamente
o que se esperava provocam uma espécie
de choque, e essas pessoas passam dias trancadas
em seus quartos de hotel, torcendo para que chegue
logo o dia de retornar (isso quando os delírios não
são tão fortes a ponto de exigirem intervenção
psiquiátrica imediata). Enfim: eu voltei de
São Paulo sem maiores sequelas, nada
que pudesse ser diagnosticado, tratado
ou removido cirurgicamente, assim
como já voltei de vários outros lugares
sem apresentar nenhum quadro psicopatológico
ou transtorno mental aparente. Mas fiquei
pensando: como deve ser sentir uma cidade
te destruir? O incômodo começa por dentro
ou por fora? Você pega o metrô
e mesmo assim dor te alcança? A realidade
se despede antes ou depois da última
esquina? Os primeiros sintomas
aparecem ainda no avião ou estrada?
Não sei. Por enquanto minha
única recaída tem sido voltar para casa.

Escrito por Laura Assis

Laura Assis nasceu em Juiz de Fora (MG) em 1985 e é doutora em Literatura pela PUC-Rio. Participou das antologias Plástico Bolha (Organograma, 2014) e Naquela língua (Elsinore, 2017), lançada em Portugal. É autora do livro Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014) e da plaquete Todo poema é a história de uma perda (Edições Macondo, 2016).