“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste,
terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes:
e não haverá nela nada de novo …”
 Friedrich Nietzsche

 

Primeiro vou falar dos pés: o direito contém cinco dedos como deve ser e o esquerdo possui seis por causa de uma malformação congênita – nos anos setenta muitas crianças nasceram com problemas físicos e eu não fugi da regra. Decorrente de causas diversas, a malformação congênita pode comprometer músculos, esqueleto, órgãos sensoriais, sistema nervoso e no meu caso esse mal só me ofereceu um dedo a mais. Acreditem um dedo a mais significou um empecilho enorme, um dedo a mais, por muitas vezes, foi um detalhe imperdoável – tão irredimível quanto às milionésimas vidas dizimadas pelo nazismo ou mesmo quanto à engenharia socialkiller do Khmer Vermelho. Em contrapartida fui considerada boa parte da vida uma mulher muito formosa e esse detalhe propiciava minha mãe me arrastar ao longo dos anos para diversas agências de modelos. Sempre éramos muito bem recepcionadas – no primeiro minuto os profissionais da área ficavam estupefatos com a minha beleza “Nossa, uma turca à brasileira!”, contudo, depois de verem meus pés improvisavam pretextos sobre as exigências dos clientes, sobre a imagem da agência e repetidas vezes voltávamos para o lar envergonhadas.

Minha mãe murmurava uma historíola sobre “Deus e o Castigo” transmitido pela nossa família desde o dia em que o meu bisavô saiu da Turquia e deu de cara no Brasil com a Bisa (uma índia da tribo dos Macuxis) e a capturou no laço. Contavam que nesse dia o pai da Bisa (meu tataravô), o cacique Upiara, amaldiçoou até a sétima geração do meu bisavô e minha mãe passou a vida inteira relacionando os meus seis dedos do pé esquerdo com a maldição. A carreira de modelo não me interessava, mas era uma das poucas promessas de vida que minha mãe aspirava cumprir. Assim você apanha menos! – assegurava.  Fazíamos poucas coisas juntas, na verdade quase não compartilhávamos o mesmo tempo. Caçar uma agência de modelos para a filha era uma maneira de reparar um antigo sonho pessoal dela – um sonho dilapidado no aterrorizante dia em que os militares despejaram ácido em seu rosto e a prenderam por quase meia década. Meu pai às vezes transmitia as verdadeiras intenções maternas – falava sobre me desviar da política, das ideologias perigosas e evitar a força fatal da natureza presente na união dos Hikmets com os Macuxis.

Diziam na vizinhança que minha mãe era apática, doente, fraca do coração, tresloucada da cabeça e de certa forma eu reconhecia alguma sombra de realidade naquelas falações. Rememoro uma cena aos nove anos de idade: eu e minha avó no encalço de mamãe pela vizinhança – ela havia saído para resolver a hipoteca da casa e simplesmente desapareceu. Vovó caminhava e rezava para Santo Antônio ajudar a encontrá-la; meu pai seguia em direção as saídas da cidade; a vizinha assegurava tê-la visto na praça sentada em posição de lótus; meu amigo Josué reclamava que ela passou por ele e quase o derrubou. Eu gritei por mamãe durante três dias e algumas horas – até que ela ressurgiu suja e catatônica narrando uma história sem sentido. Estava completamente confusa e jurava que os três dias de sumiço não passaram de míseras seis horas. Passei a compreender, desde então, que os movimentos do universo não eram absolutos.

Papai não ligava mais – compreendia que se casara com uma vítima de sessenta e quatro e a apoiaria na condução de todas aquelas sequelas (incluindo as futuras). Durante os três dias fui amparada por todas mães sensibilizadas pelo meu esforço em encontrá-la.  Porém, eu não era a cria delas – era apenas a “coitadinha-filha-da-mãe-louca” e no futuro me transformaram na “louca-filha-da-coitadinha-louca” o que resultou em uma pessoa decidida a não ser mãe para evitar passar para frente o gene da loucura carimbada.

Naquela mesma época eu vivia mais nas ruas do que em casa – gostava de peregrinar, contemplar as casas do bairro, os jardins, os becos e as pequenas florestas que coexistiam com a cidade. Quando descobria um lugar diferente passava horas no local e concebia diversas biografias não autorizadas: era a história do velho amarrado pela nora na casa onze da rua Ibitinga; o caso do ladrão de tijolos; o sumiço das gêmeas; o assassino da Analice e tantos outros casos que com o tempo tornaram-se uma materialidade provável. As histórias surgiam como um cinema em quatro dimensões; e transitavam no interior de tudo que abrigasse vida: casas, igrejas, escolas, coberturas, viadutos e afins. Não era bom – eu me sentia uma invasora. A vida íntima das pessoas atravessava meus olhos. Eu via o outro lado – o lado encoberto pelas maquiagens e não era capaz de compreender certos gestos e desacordos de mãos. Nove anos de vida não me permitiam entender malícias e muito menos alguns níveis de violência. Eu só era capaz de sentir o peso daquela tristeza e daqueles delitos “entre quatro paredes” – delitos que mais tarde revisitam as pessoas através do rancor, do remorso ou das doenças psíquicas. Nem todas as famílias são análogas – a felicidade vendida pela publicidade e telenovelas era tão desleal e distante que desde então passei a respeitar mais as escolhas de minha mãe (incluindo o fato de não almoçarmos no mesmo horário ou sentarmos em frente à TV conjuntamente).  Em casa cada um tinha o seu espaço e devido ao problema cognitivo de mamãe cada um passou a viver em seu próprio tempo: mamãe não saía do quarto; papai adorava a TV e de vez em quando abria a biblioteca para dar oficinas de poesia; vovó permanecia na horta, nos fundos da casa, cuidando das plantas medicinais; e eu assistia a infelicidade anônima do universo dominar a vida íntima da maioria das pessoas daquela cidade.

           A vida foi passando

            (mil vezes mais lenta do que aqui narrado) e eu cresci interessada em assuntos da cosmologia; em matérias da física “invisível” e mal pisquei da adolescência à fase adulta e já estava em uma sala de aula ensinando o espaço de Hilbert, a regra de Born, a Teoria das Cordas,  Newton, Maxwell e Einstein – e todas as equações convencionais que abordavam o tempo. Lecionar era terrível – era preciso seguir o programa da escola. Minhas aulas estavam condicionadas a uma espécie de neotecnicismo.

“Esqueça as teorias, senhorita Anna!”

“Não estamos aqui para formar gênios, esqueceu!?”

Não demorou muito para eu abandonar tudo aquilo – rejeitei o sistema de ensino e passei a lecionar na biblioteca lá de casa.  As vezes tinha que dividir o cômodo com as oficinas de poesia do meu pai – o que resultou em um fenômeno interessante: futuros poetas interessados pela física e futuros físicos atraídos pela poesia. Foi em uma manhã chuvosa de novembro que rabisquei meus primeiros versos:

E disfarça a chaga
e silencia a alma
e se faz outra
da face indesejada.

Naquele dia escrevi sobre sobreposições de vida e meu pai se atreveu a dar o primeiro laudo: “É poesia!”, “Como assim?”, “É poesia, minha filha!” E me apresentou uma aula que perdurou mais do que eu poderia imaginar e menos do que ele havia planejado. Fui apresentada às místicas obras dos vedas indianos, aos Gathas de Zoroastro, à Ilíada, à Odisseia, à Epopeia de Gilgamesh e à Eneida de Virgílio.  Papai afirmava que a poesia era a arte suprema da narrativa humana – além de um auxílio na memorização da história de um povo.  E recomendava caso eu atrevesse a voltar a compor um poema que pelo menos não o tornasse tão particular. Infelizmente meu pai sofria de transtorno dissociativo de identidade e quando preparava a próxima aula em referência a poesia japonesa do séc. VIII regressou sem nenhuma explicação para a frente da TV e esqueceu completamente de nossas aulas – já não sabia mais o que era a tal da poesia.

Porém, a tal da poesia permaneceu – assim como permaneceu uma desconfiança secreta da falta de originalidade dos acontecimentos que sucediam nos meus dias, até chegar o tempo que batizei de “Idade da Interferência”. Esse ponto da minha biografia estragou definitivamente minha vida social – qualquer ato ou ação de alguém próximo se tornava um filme repetido e muitas vezes eu não conseguia controlar meu impulso de interferência. Eu previa quedas, perdas e homicídios.

              A vida continuou passando

             e uma fila de pessoas ornamentava a entrada lá de casa. A desculpa era a pomada de argila da Vó Antônia, todavia, era só chegar o momento de irem embora que começavam os questionamentos:

“Cadê a Anna?”

“E a Anninha está?”

“A Anna saiu?”

“Será que dá para falar um minuto com ela, Vó Antônia?”

 

Queriam saber de mim: ansiavam por orientações pérfidas a respeito de suas vidas íntimas; exigiam os seis números da sorte; a data de suas mortes; e educadamente eu me trancava no quarto e fingia a “não existência”. Mais tarde comecei a escrever sobre aquelas experiências e codificá-las por julgar o tema perigoso – se caíssem em mãos desonestas o universo seria todo controlado pelas agências de turismo:

“Mude seu Destino!”,

 “Reviva os melhores momentos.”,

 “Lembra da primeira vez na neve? Podemos oferecer um flashback.”

Aquelas experiências poderiam mudar a forma de qualquer pessoa ver o mundo. Além de servirem como ferramenta de controle mundial. O universo presente não passava de um holograma. Minhas análises indicavam que o mundo atual não passava de uma projeção: um arquivo de tempo e matéria soltos em um estado de reverberação infinita. Éramos reverberação?  Reexistência?  Ecos ? Um cosmo holográfico? As visões passaram a ser constantes e não havia nada de novo, apenas o eco de um eco do eco de um eco do eco de um eco…

Primeiro vou falar dos pés: o direito contém cinco dedos como deve ser e o esquerdo possui seis por causa de uma malformação congênita – nos anos setenta muitas crianças nasceram com problemas físicos e eu não fugi da regra. Decorrente de causas diversas, a malformação congênita pode comprometer músculos, esqueleto, órgãos sensoriais, sistema nervoso e no meu caso esse mal só…

 

ad infinitum

Escrito por Lisa Alves

Lisa Alves (1981) é brasileira, radicada na capital federal do Brasil. É curadora da revista de poesia e arte contemporânea Mallarmargens. Tem textos publicados em diversas revistas, jornais e páginas literárias no Brasil, Portugal e Estados Unidos. Tem poemas publicados em nove antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Participa da Antologia de contos "Novena para Pecar em Paz" (Penalux, 2017). Lançou em 2015 seu primeiro livro de poesia intitulado Arame Farpado (Lug Editora, RJ). site | lisaallves.wixsite.com/lisaalves email | lisaallves@gmail.com