Nádia,

          Lembra que nós acordávamos com o sino da igrejinha? O galo já teria cantado.

       A primeira coisa que eu fazia todas as manhãs era abrir o vitrô da cozinha. Você sabia que era dia de sol se eu voltasse sorrindo.

          Tomávamos leite de aveia com flocos de milho e uvas passas. Você me dizia que já não se lembrava mais do gosto da manteiga. Tínhamos torradas, nunca se esqueça, e geleia de frutas vermelhas. Você gosta de morder algo doce engolindo o salgado. Foi sua ideia, então, que à noite comêssemos pão com tahine bebendo suco de laranja com hortelã. Amassávamos banana com aveia. Nas semanas em que as costas suportavam, eu trazia melões da feira para refrescar o café da manhã e maçãs para o fim do dia. Os ovos de galinha caipira permaneciam intocados de segunda a sexta, exceto pelas tortas e panquecas que ainda não havíamos acertado a mão com substitutos. Vivíamos assim desde que havíamos ido para lá. Sabíamos que ainda poderia ser diferente.

            Uma rosa é uma rosa é uma rosa e em Florianópolis não há quase nenhuma à venda. Os espinhos das primaveras, no entanto, garantiam um barato isolamento de cerca-viva e contra elas acabávamos nos empurrando ainda que andássemos de braços apartados. Você me dizia que o problema eram as calçadas, eu retrucava que nossos sapatos nunca nos serviram, e pretensamente furiosas nos encarávamos sabendo que nada disso era a resposta. Queríamos um quintal.

            Nossa horta, seu jardim de dálias, meu solo para dançar descalça, cuidando de jamais pisar sobre as fileiras de formigas. As teias de aranha entre os arbustos. Naquela casa, não sentiríamos o medo que vergonhosamente nos fazia matá-las quando se aproximavam de nossa cama.

            Porém, antes mesmo de termos condições de respirar com tranquilidade sobre o aluguel, já era hora de novamente ir embora. No começo dessa vida, sustentamos alguns quadros e roupas, vendendo outros pertences para bancar as mudanças, mas até o que era querido passou a minguar. Minhas ferramentas velhas, seus livros de literatura. Muito pouco do que não pudesse seguir em nossos corpos estava garantido. Acostumadas às compras e vendas de usados, aos escambos. O que faltava às trocas era bancado por nosso trabalho.

            Ainda assim, havia meu velho quarto na casa de meus avós, o porão de sua tia. Nesses espaços ficava tudo aquilo que não carregávamos conosco porque sempre soubemos que teríamos que deixar. E, no entanto, gostávamos mais de conversar na varanda com nossos parentes, comendo bolo de fubá com erva-doce e café preto sem açúcar, do que remexer naquelas gavetas que sua tia e meu avô cuidavam para que não embolorassem.

          Tínhamos que repor constantemente o necessário e guardávamos aquilo que não mais fazia falta. Talvez fosse pela promessa de um espaço seguro que de alguma forma não queríamos deixar de habitar, povoando-o de nossos antigos objetos. Tínhamos criado o hábito da passagem, Nádia, mas ainda haveríamos de aprender sobre as exigências de uma fundação.

             Você sempre soube, não é?, que isso inclusive demandaria que não morássemos mais na mesma cidade. Comeríamos outras frutas, adequadas às estações das latitudes. Depois que sua tia se foi, você passaria a viver onde poderia fabricar sua própria geleia de framboesa. Hoje tenho uma estante de livros aos quais sempre recorro. Volto à terra dos meus avós apenas pelo cafezinho na varanda, feliz de saber que meu quarto se tornou o ateliê de minha avó. Ela sempre me pergunta de você, comenta sobre como simpatiza com seu gosto por cores vivas.

              Agradeço por receber notícias suas com frequência, ainda bem que existem os celulares, mas me ressinto de te ver e não poder te tocar. Prefiro te ouvir, ou ler o que escreve. Nunca discutimos sobre isso, justamente por sentirmos o mesmo. Esta carta, de alguma forma, é minha forma de aceitar, ainda que sinta saudades.

                  Continue brilhando, garota. Eu ainda sorrio nos dias de sol.

Amor,

Hazel

 

 

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).