• ser pássaro
    pois este não conhece a ilusão do espelho
    nem a precariedade das palavras.

  • as bases do meu coração não possuem datas
    miro no exemplo dos pássaros que não sabem medir o tempo de seu voo.

                                                                       *

  • passo muito tempo olhando a rachadura que há no quarto
    nela vejo todo o meu reflexo
    pois nasci fissurada, partida por um pássaro cego.

  • porque há um pássaro aleijado que habita minha boca
    bica minha língua sangra minhas palavras estanca teu nome
    faz do meu escuro o seu ninho
    e da minha garganta
    um canteiro de voos estraçalhados.

  • passo muito tempo desaparecida de mim
    não me acho em nenhuma fresta
    ou vão do meu corpo
    mas na corcova de um pássaro
    que muito amorosamente
    come mastiga
    tritura a minha linguagem

                                                                   *

  • todo voo é uma espécie de dança intransponível.

 imagem : “o pássaro semimorto”

autorretrato, Raquel Gaio.

Escrito por raquelgaio

Raquel Gaio nasceu e reside na cidade do Rio de Janeiro. Licenciada em Letras - Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRJ, atua nas áreas da poesia e artes visuais.Foi publicada em algumas revistas e portais como Alagunas, Enfermaria 6, Poesia Primata, Garupa, Literatura BR, Revista Saúva, entre outras. Leva uma vida anfíbia, embora escreva sobre pássaros.