João

Há sempre um que mata, um que morre e um que esquece. Todo dia. Hoje não, porque o café fumega na máquina e o Rio de Janeiro ferve lá fora. O ar-condicionado estabelece uma temperatura amena, o que torna o ambiente ainda mais convidativo, nesta abafada manhã de janeiro. Os que trafegam pela calçada perdem os olhos na vitrine. mesas desocupadas; nas outras, talheres matraqueiam e bocas falam e comem. Duas garçonetes correm entre umas e outras, no intuito de servir a todos sem demora. Teto e paredes são cobertos por madeira e gravuras. Há algumas lâmpadas e luminárias dependuradas um pouco acima das cabeças, uma lousa imensa com preços, informações e rabiscos decorativos. Em cima do balcão estão expostas à venda canecas com a imagem-símbolo da cafeteria: um grão de café envolto por uma corrente. Cinquenta reais cada uma. Setenta e cinco, se grafadas com um nome próprio. Trinta e oito, se com a imagem do Cristo de pedra. Do outro lado da larguíssima avenida, o mar, que em dias de semana atrai menos. Hoje, quarta-feira, ninguém morre, porque há cheiro de café e o Rio de Janeiro passeia pelas calçadas.

São nove e cinquenta e cinco. Há uma hora, João batalha com um trecho do livro que está escrevendo. Lê e relê o capítulo em que aborda a violência urbana. Há uma trave naquelas linhas, mas ele não sabe exatamente onde, nem o que mudar para fazê-la desaparecer. O trecho em questão narra o sequestro de um ônibus, em Manila, Filipinas, por um ex-policial que exigia sua readmissão na corporação. Após mais de dez horas de negociação, um atirador de elite acertou a cabeça do homem, que morreu na hora. Antes dessa hora, tinha matado oito pessoas. A televisão filmou tudo e transmitiu ao vivo. João se pergunta o que Rolando Mendoza tinha na cabeça antes da bala. Não faz sentido voltar a ser policial após se tornar sequestrador em rede nacional. Não que as corporações, de sequestradores e de policiais, não mantenham intersecções. Mas a ordem precisa ser respeitada. Enquanto pensa em uma alternativa, olha para fora do lugar e vê que o sol queima a pele bronzeada da muita gente que se exercita no calçadão e também da outra gente que caminha do lado de cá da rua, vestida em uniformes ou em roupas simples, dirigindo-se ao trabalho. Este calor, o café que bebe, a brisa que sopra na sua varanda, o mormaço que lhe embaça os óculos, a lembrança da primeira vez que se deitou com uma mulher. Quase vinte anos depois, está de volta ao Rio.

Um jovem homem e uma mulher mais velha atravessam a avenida em direção ao café. O homem está à paisana, mas João reconhece um jovem militar quando o vê. A certeza é ainda maior ao vê-lo entrar no recinto. O corte de cabelo, a postura ereta, o passo firme, o olhar agudo. Não sabe se se trata de um soldado raso ou de alguém de maior patente. O século vinte trouxe a possibilidade de negros ascenderem às altas patentes. Poucos, mas alguns. De todo modo, a falta de barriga sugere uma patente baixa, mas pode enganar. A mulher é sua mãe. Os mesmos olhos. Ela toma uma água com gás, enquanto ele suga uma lata de Coca-Cola. O calor esturrica as pessoas, nesta manhã de janeiro.

Militares se parecem, em Caracas ou Nova Deli. João fora correspondente de guerra e fotógrafo durante vinte anos. Conhecia-os. Cobriu guerras nos Bálcãs e na Chechênia, além de ataques do ETA e do IRA. Porém, nesses lugares, tinha conhecido a guerra dos manuais, o terrorismo do século dezenove, as transgressões aos tratados que os tratadistas já previam quando de suas escritas, a crueldade que se destina aos pobres, porém cidadãos. O horror da guerra do século vinte e um é diferente. Só o conheceu fora da Europa. Primeiro na República Centro-Africana, por três anos, e, após um mês de descanso, na Síria, onde esteve por quase dois. Os horrores que viu assombram suas noites.

Ao voltar à França, bebia durante os dias e dormia em transe semicomatoso. Logo passou a se atrasar para compromissos, adiar a entrega de textos importantes, faltar ao trabalho. Seu editor-chefe, à época, sugeriu um descanso: dois meses de férias no sul da Itália.

João preferiu uma ilha da Grécia. Um erro.

Em uma noite de verão, espreguiçava-se na varanda de seu quarto à beira-mar, quando viu bruxulear uma luz no mediterrâneo, bem perto da praia. Pesca noturna não era, logo constatou pela pouca iluminação da barcaça. Pendurou uma câmera em seu pescoço e enlaçou outra com a sua mão esquerda. Nem bem estava de volta à sacada, pôde ver a nítida face de borracha de um bote enorme e azul-marinho, metade submerso, porque apinhado de gente. Eram duzentos somalis. Tinham vencido as distâncias sudanesas e líbias e se lançado ao mar. A estatística, naquele instante, os chamava de milagre. Em terra, avistou outro grupo. Jovens trabalhadores das docas, desempregados e estudantes, reuniam-se na areia da praia. Portavam paus e pedaços de ferro. Um deles segurava o que parecia ser um rifle de caça. Corriam em direção ao mar. Urravam. João desceu em desabalada carreira os muitos degraus que o separavam do chão, com as câmeras a tiracolo; a tempo de ver o início do confronto. Apesar da longa viagem, os somalis não se deixaram agredir facilmente. Muniram-se do que tinham no bote e entraram em confronto feroz com aqueles ilhéus, que recuaram ante a surpresa. Esperavam medo, não luta. Gritavam pela defesa de suas famílias, de seu modo de vida; em língua diversa, os somalis gritavam pelas suas famílias, pelas suas vidas. O rifle disparou. Uma criança somali caiu do outro lado. Os berros de sua mãe – que tinha conseguido atravessar o filho com vida por três países e um mar – diminuíram o ímpeto dos ilhéus. Alguns apenas queriam devolver os negros ao mar. Que morressem longe dali, não tinham poder de impedir. Mas um cadáver na areia da praia é um cadáver na areia da praia. E uma criança morta pesa muito para algumas pessoas. Por isso se horrorizam, mas não a carregam na memória por muito tempo, esquecendo-a logo. Após renhida luta, os somalis se espalharam pela pequena cidade e seguiram caminho para dentro do continente.

As fotos de João correram o mundo. A fama internacional se fez acompanhar de mais dinheiro. Ganhou um prêmio na Rússia por uma foto em que um somali mordia a mão de um grego; ganhou outro na França por uma foto em que um grego afundava, com um grosso porrete, a testa de uma somali que protegia a filha em suas costas. Essa última foi também a foto mais compartilhada de dois mil e dezesseis, no Facebook. Sua página ganhou, então, mais de quinhentos mil seguidores em setenta e duas horas.

De volta à França, de volta aos pesadelos. Uma garrafa de uísque já não era suficiente para amainá-los. Um dia, andando pela Champs-Élysées, saindo de um café com uma amiga, viu cerca de mil crianças somalis, em multidão compacta, no centro da avenida. Famélicas, raquíticas, algumas com o rosto em carne viva, com chagas espalhadas pelo corpo, vinham em sua direção, chamando em coro por seu nome. Sua amiga o impediu de correr até elas. Se interpôs entre ele e a avenida, onde os carros aceleravam, atropelando as crianças, arremessando-as ao ar, despedaçando-as. Os gritos só aumentavam ante o massacre: ônibus, carros de passeio, motos, bicicletas. As crianças se desfaziam como as cinzas de um papel queimado. João, sentado na calçada, berrava Esse exército não é meu, não tenho nada a ver com isso, não conheço essas pessoas.

Encara o soldado e o soldado o encara de volta. Disfarça. Pega um maço de cigarros e acena para a garçonete, enquanto dirige-se à calçada. Trêmulo, tenta acender um cigarro. Uma mão muito lisa e branca o ajuda a isolar a chama do isqueiro. Agradece. Um ruivo, em um terno justo e reto, responde De nada e entra na cafeteria. João o conhece. Aquele sujeito tem vindo aqui nas últimas três semanas, todos os dias. Em geral, toma um cappuccino, come algum doce, manda lembranças ao dono do local e segue em rumo desconhecido. João aposta: advogado. Pelo terno e pela carteira delgada, operações financeiras, mas pela convicção da voz, penalista.

Emenda o segundo cigarro no primeiro e olha para o céu. O tempo vira, um bloco compacto de nuvens assoma no horizonte, da praia para o continente, escondendo o sol e trazendo consigo uma brisa fresca. Aos primeiros pingos, ele retorna ao café, esbarrando na entrada com um homem cujo rosto está enterrado em um boné. Sente algo estranho, mas balança a cabeça e passa. Senta-se à sua mesa e abre novamente o iMac. Passeia pela sua linha do tempo e deita os olhos em uma publicação sobre estresse pós-traumático. Uma atriz estadunidense publicou, na noite anterior, um relato sobre o irmão, que serviu no Iraque. O rapaz, vinte anos, suicidou-se há alguns meses. A publicação viralizou e, agora, chega a ele.

Esse foi o diagnóstico, quando de sua alucinação na Champs-Élysées. Ficara dois meses de licença, mas ao acabar do prazo, não conseguira retornar à redação. Trancava-se no quarto o dia inteiro, entupindo-se de ansiolíticos. Comprava receitas e tomava um comprimido a cada par de horas. Em pouco tempo, foi demitido. Antes, seu editor tentou reverter a situação com uma visita. Conversaram por longas horas. O editor sentado do lado de fora do apartamento, olhando para a maçaneta da porta, que não girou em momento algum. Foram longos e doloridos meses, até conseguir algum resultado nas sessões de análise. Um dia conseguiu sair de casa sem ficar em pânico, procurou um advogado amigo e entrou na justiça contra o jornal para o qual trabalhara. Foi a sexta maior indenização trabalhista da história da França. Foi quando decidiu escrever um livro sobre o que tinha visto e vivido como correspondente de guerra, apesar do medo de reviver aquelas monstruosidades e entrar, de novo, em parafuso.

Decidira, então, vir ao Brasil. Aqui morou entre os onze e os dezenove anos, quando o pai servira à Embaixada Francesa, no Consulado do Rio de Janeiro.

Há seis meses trabalha em seu livro, sempre nesse café, que em sua época de estudante era uma padaria. Desta mesma mesa, à última para quem entra pela porta e a primeira para quem sai da cozinha, acompanha a repercussão das reformas trabalhista e previdenciária, pela televisão e pelas redes sociais. O governo, mergulhado em denúncias de compra de parlamentares, de compra sentenças judiciais e de desvio de verbas públicas, equilibra-se em um governismo às avessas, sustentado em uma oposição a um governo que não mais existe. Nesta mesma manhã, o âncora de jornal está dividido entre noticiar que o processo de impeachment da presidenta Dilma foi comprado por um ex-deputado preso e anunciar que apesar do aumento da gasolina, do gás de cozinha, do feijão, da carne e do óleo de macadâmia, a inflação está em queda e sob controle.

O céu não dará trégua tão cedo. Desaba sobre o Leblon como quisesse inundá-lo. Por isso o Café está abarrotado e o ar-condicionado começa a não fazer o efeito que dele se espera. Àquela hora não é comum que as mesas estejam todas ocupadas. Há algumas pessoas em pé, como os dois homens que cochicham no balcão. Um deles carrega uma pasta de executivo e está vestido em camisas de botão e sapatos de couro; o outro, de bermuda e alpercatas, carrega uma sacola de plástico com algo pesado dentro. João pensa que se o livro-reportagem vender muito, qualquer dia escreverá um romance sobre este lugar.

Lembra-se de que esse era o seu desejo de garoto: ser escritor. Aos dezessete anos tinha a seu favor o fato de ler em inglês, francês, português e espanhol, além de já ter ganhado alguns concursos de redação e um concurso de contos do Liceu franco-brasileiro. Seu pai, à época, dissera-lhe para se matricular no curso de jornalismo, pois a maioria dos escritores eram jornalistas ou professores. Mas quando estava cursando o primeiro ano, o pai foi requisitado pelo governo da França e a família retornou à Europa.

Aos dezenove anos, viu-se sem nada para fazer, em Paris, no começo do segundo milênio depois de Cristo. Naquele mesmo ano, tinha ganhado do pai uma câmera fotográfica e, da mãe, o seu primeiro notebook. Mandara-se para a Barcelona, onde morava uma prima, sob pretexto de conhecer outras culturas antes de conseguir uma vaga em uma universidade de Paris. Passeava com a prima em Sant Adrià de Besòs, cidade litorânea da província de Barcelona, quando presenciou o assassinato de José Luís Ruiz Casado, vereador da localidade, por dois militantes do ETA, que fugiram em um Renaut 19 branco. Até hoje, João não sabe como teve sangue frio para disparar o gatilho da câmera, mas o fato é que ele registrou o assassinato. O enquadramento do corpo de José estendido no asfalto e a captura, em desfoque, do cabeludo atirador entrando no Renaut 19, além de capa do El País, ganharam muitos prêmios, o que transformou a situação de João. De estudante à procura de um curso de jornalismo, passou a fotógrafo e colaborador de um dos maiores grupo de comunicação da Europa.

Mas isso foi no século passado. Com a cabeça fervilhando em lembranças, não consegue se concentrar na reescrita do trecho com o qual está brigando desde o início da manhã. Por isso observa o entorno e percebe quando os homens que conversavam de pé, próximos ao balcão, despedem-se com um aperto de mãos. Nota que agora o homem de alpercatas carrega a pasta executiva e o outro leva a sacola. No Facebook, escreve sobre mudanças repentinas no clima, comparando-as com o humor das pessoas. Clica no botão para fazer check-in e segue com o cursor até o botão publicar, mas vê o homem com a sacola ser jogado no chão por três outros que, armados, anunciam um assalto. Aproveita o check-in, deleta a publicação e escreve Estamos sendo assaltados agora! Aperta o botão publicar.

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).

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