Com a tradução de “Par cœur”, inicio a Série Québec na Liberoamérica. Nosso primeiro escritor é Roland Giguère (1929-2003), um “poeta natural”, nas palavras de Gaston Miron. Lido, premiado e celebrado no seu país natal, Giguère também foi mestre nas artes da tipografia, litografia e gravura. Talvez por isso, escrevesse tão espontaneamente, com poucos retoques e grande fluidez. No poema abaixo, vemos um exemplar dos prazeres da língua obtidos com uma ideia primordial simples (“eu sei de cor”), posteriormente alargada e aprofundada à medida que é combinada com uma ampla gama de imagens e cores.

De cor

Eu sei de cor mil canções antiquadas
E versos sublimes de poetas desconhecidos
Eu sei de cor nomes de cidades perdidas
Nomes de mulheres amadas nomes incomuns
Nomes próprios com grandes iniciais bordadas
E cantos de amor que marejam os olhos

Eu sei de cor palavras raras esquecidas
Nas páginas amareladas de um dicionário
Palavras que sofrem de solidão e de abandono
Eu sei de cor coisas que não servem para nada
Frases inúteis na porta
Como folhas mortas que o vento arrasta

Eu sei de cor as horas de pura alegria
E dos momentos de aflição que apagamos
Com a chegada do lírio-do-vale do mês de maio
Eu sei de cor minhas faltas e minhas dores
Eu sei tudo que me assombra e me arruína

Eu também sei de cor os percursos luminosos
Os caminhos encantados que levam ao êxtase

Eu sei de cor todas as curvas do teu corpo
Suas falhas seus brilhos suas sombras e suas doces aquarelas
Eu te conheço de cor e mesmo sem memória
Eu te amo agora e sempre
Para finalizar com beleza esta última ladainha


Par cœur 

Je sais par cœur mille chansons vieillottes
Et de vers sublimes de poètes inconnus
Je sais par cœur des noms de villes perdues
Des noms de femmes aimées des noms peu communs
Des noms propres avec de grandes initiales brodées
Et des chants d’amour qui mouillent les yeux

Je sais par cœur des mots rares oubliés
Dans les pages jaunies d’un dictionnaire
Des mots qui souffrent de solitude et d’abandon
Je sais par cœur des choses qui ne servent à rien
Des phrases inutiles à la porte
Comme des feuilles mortes que le vent emporte

Je sais par cœur des heures de joie pure
Et des moments de détresse que l’on efface
Quand vient le muguet du mois de mai
Je sais par cœur mes absences et mes douleurs
Je sais tout ce qui me hante et me ruine

Je sais par cœur aussi de lumineux parcours
Des chemins enchantés qui mènent à l’extase

Je sais par cœur toutes les courbes de ton corps
Ses failles ses clartés ses ombres et ses doux lavis
Je te connais par cœur et même sans mémoire
Je t’aime encore et toujours
Pour finir en beauté cette dernière rengaine

 

Roland Giguère, « Cœur par cœur», l’Hexagone, 2004
Tradução original do francês  por Lidia Rogatto