the-therapist
Rene Magritte:  The Therapist, 1937

NINHO NOS OSSOS
Antonio Di Benedetto, in: Mundo Animal, 1953. Tradução para o português: Nina Rizzi

Eu não sou o macaco. Tenho ideias distintas, ainda que não as tenha pronunciado, pelo menos a princípio, na mesma situação.

Meu pai o trouxe junto com a palmeira. Sobra-lhe terra, sobra-lhe dinheiro. Plantou a palmeira e pareceu tudo muito bem enquanto permaneceu jovem e primorosa. Mas quando foi se estirando, estirando, se cansou dela, por sua deselegância e pelos, por ser inadaptável, ele disse. Porque a perdeu de vista, creio eu, pois não estava acostumado a olhar para o céu, pelo menos do lado onde se erguia a palmeira. Olhava a boca do rio, onde se formavam as tormentas, já que depende das chuvas, para o bem ou para o mal, a colheita.

Tampouco se deu conta de que o macaquinho não se adaptaria, não só por questões climáticas, antes porque seria impossível se adaptar à família, e ele queria que fosse como um membro da família. Talvez não estivesse de todo enganado, pois, favorecido por certas considerações, às quais meu pai ocasionalmente se mostrava intuitivo, o pequeno símio fazia algo para o lugar que lhe foi prometido. Mas seu lugar, definitivamente, foi a palmeira. Nem sempre meu pai lhe dava diversão, alimento e carinho; sobretudo o privava de comida e não tratou de educá-lo verdadeiramente. O macaco fugiu, se refugiando na palmeira, como o filho que volta à mãe. Descia só para furtar ou pegar a comida que a compaixão de alguém houvesse deixado ao pé de sua habitação. Vivia só, tal como se via à copa raquítica da árvore em sua altura. Ficou tímido e pensativo, desajeitado para tudo que não fosse procurar seu sustento. Talvez por mau-humor – porque a estufa anunciada nunca foi construída – meu pai fez limpo de vegetais todo o setor onde se estirava lentamente, como um suspiro nostálgico, a palmeira. Caíram palmeira e macaco, e o macaco se escondeu entre alguns caixotes e baús até que os cachorros, inflamados pelo sangue de um frango degolado que deu uns passos agônicos, se lançaram sobre ele, sem que ninguém os impedisse.

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Eu não sou o macaco, mas também, por ordem de meu pai, por causa de infrações leves, muitas vezes tive acesso proibido à mesa durante a infância. Não tenho palmeira, muito embora fizesse de minha casa uma palmeira, melhor dizendo, das porções e quartos de terra que podiam sê-lo, de algum passeio, de algum livro e de algum amigo. Minha palmeira possuía na verdade muitos ramos, e por isso talvez tive a possibilidade de pensar que eu não deveria ser como o macaco. Talvez tudo dependesse, como no caso do símio e da palmeira, do lugar de nascimento e do ulterior destino adequado. Não sei. Talvez devesse ter nascido em outras terras e talvez não seja assim.

É possível que eu não devesse ter nascido nesse tempo. Não quero dizer com isso que meu alumbramento tinha que acontecer na Idade Média, nem no mesmo ano que Dostoievsky. Não. Talvez eu devesse nascer no século XXI ou no XXII. Nem tampouco porque creia que então será mais fácil mais viver, embora seja possível que sim. Para que seja possível, já que é impossível que eu nasça transcorrido um século, eu quis, na medida de minhas forças, ser de alguma utilidade.

Quando compreendi a inutilidade do macaco pude me aproximar do que me pareceu ser um destino útil, mesmo que seja para os outros. Sua cabeça oca me sugeriu o aproveitamento da minha. Quis fazer dela, e foi simples fazê-lo, um ninho de pássaros. Minha cabeça foi preenchida de pássaros, voluntaria e gozosamente, de minha parte e da deles. Gozava, sim, pela felicidade do ninho firme, seguro e abrigado que podia lhes dar, e gozava de outras maneiras distintas. Quando, por exemplo, daquela vez fiz minha aparição, fisicamente sombria, em semialvoroço, com urdidura de cálculo e inquietude transfigurados, do cesto de-chá de minha mãe, e ela teve que me dizer, desafiadora e perdendo aprumo, como fazia isso de me pôr a assoviar no meio da reunião de senhoras. E eu dizia, com minha boca de lábios desunidos nada mais que por um sorriso de lástima por sua ignorância, que não era eu mesmo que assoviava, e naquela moça suscitei o assombro sincero de quem presencia o trânsito sincero de um deus musical, tangível e perecível.

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Não foi sempre assim, mas apenas há uns anos, talvez uns meses. Com a mudança eu duvidei um pouco de que fazendo a felicidade de um pássaro faria a felicidade de todas as famílias dos séculos vindouros. Se todos colocássemos nossas cabeças a serviço da felicidade geral, talvez poderia ser. Mas nossa cabeça, não só o sentimento.

Eu coloquei a minha e tive pardais, canários e perdizes prazerosos. Também o são os abutres que se aninharam nela. Mas já não podem sê-lo. São incansavelmente vorazes e vão afiando seu bico para comer até o último pedacinho de meu cérebro. Já em puro osso ainda me bicam, não direi com fúria, mas como que cumprindo sua obrigação. E embora suas bicadas sejam afetuosas e de brincadeira, nunca poderiam ser ternas. Doem ferozmente, fazem doer o osso e fazem expandir minha dor e minha tortura em um pranto histérico e dilacerado de fluir constante. Nada posso contra eles e ninguém pode, pois ninguém pode vê-los, como ninguém via os pássaros que assoviavam. E aqui estou eu, com meu ninho transbordante de abutres que, explorados e insidiosos e perenes, fazem triturar com cada bicada de cada um de seus mil bicos, cada osso de cada parte de meu esqueleto. Aqui estou, escondido entre os baús, à espera que algum dos que outrora deram comida ao macaco se compadeça desse encurralado e atice os cachorros.

Mas, por favor, que ninguém, por conhecer minha história, se deixe vencer pelo horror; que o supere e que não desista, se encoraje algum bom propósito de povoar sua cabeça de pássaros.

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NIDO EN LOS HUESOS

Yo no soy el mono. Tengo ideas distintas, aunque se nos haya puesto, por lo menos al principio, en la misma situación.

Mi padre lo trajo como a la palmera. Le sobra tierra, le sobra dinero. Puso la palmenta y le pareció muy bien mientras permaneció joven y primorosa. Pero cuando se fue estirando, estirando, se fastidió de ella, por desgarbada y barbuda, por inadaptada, dice él. Porque la perdió de vista, creo yo, pues no acostumbra llevar la mirada al cielo, al menos, hacia el lado donde se erguía la palma. Mira hacia la boca del río, donde se forman las tormentas, ya que de las lluvias depende, para bien o para mal, la cosecha.

Tampoco cayó en la cuenta de que el monito no se adaptaría, no sólo por cuestiones de clima, sino porque le sería imposible adaptarse a la familia, y él quería que fuese como un miembro de la familia. Quizás no andaba del todo desacertado, pues, favorecido por ciertas consideraciones, en las que mi padre ocasionalmente se mostraba intuitivo, el pequeño simio hacía algo por ganarse el lugar que se le prometiera. Pero su sitio, en definitiva, fue la palmera. No siempre empleaba mi padre la fiesta, el alimento y la caricia; por sobre todo, lo privaba de comida y no se cuidó de educarlo verdaderamente. El mono huyó, refugiándose en la palmera, como el hijo vuelve a la madre. Bajaba sólo para hurtar o para tomar la comida que la compasión de alguien le hubiese dejado al pie de su vivienda. Vivió solo, tal como se veía la copa raquítica del árbol en su altura. Se puso huraño y meditabundo, torpe para todo lo que no fuera procurarse el sustento. Quizás por malhumor -porque el invernáculo anunciado nunca se construyó- mi padre hizo limpiar de vegetales todo el sector donde se estiraba lentamente, como un suspiro nostálgico, la palmera. Cayeron palmera y mono, y el mono se escondió entre algunos cajones y baúles hasta que los perros, enardecidos por la sangre de un pollo que dio degollado unos pasos agónicos, se le echaron encima sin que nadie se los impidiera.

* * *

Yo no soy el mono, pero también, por orden de mi padre, a causa de infracciones leves, en la niñez muchas veces tuve prohibido el acceso a la mesa. No tengo palmera, sin embargo hice de mi casa una palmera, mejor dicho, de los cuartos y de los cuadros de tierra que podían serlo, de algún paseo, de algún libro y de algún amigo. Mi palmera poseía, en verdad, muchas ramas, y por eso, quizás, tuve la posibilidad de pensar que yo no debía ser como el mono. Tal vez todo dependiese, como en el caso del simio y de la palma, del lugar de nacimiento y del ulterior destino inadecuado. No sé. Tal vez debí nacer en otras tierras y tal vez no sea así.

Es posible que yo no debiese haber nacido en este tiempo. No quiero decir con ello que mi alumbramiento hubo de producirse en la Edad Media ni en el mismo año que el de Dostoyevski. No. Tal vez yo debí nacer en el siglo xxi o en el XXII. No tampoco porque crea que entonces será más fácil vivir, aunque es posible que lo sea. Para que sea posible, ya que es imposible que yo nazca transcurrida una centuria, he querido, en la medida de mis fuerzas, ser de alguna utilidad.

Cuando comprendí la inutilidad del mono pude acercarme a lo que me pareció hacerse un destino útil, siquiera sea para los demás. Su cabeza hueca me sugirió el aprovechamiento de la mía. Quise hacer de ella, y fue sencillo hacerlo, un nido de pájaros. Mi cabeza se colmó de pájaros, voluntaria y gozosamente, de mi parte y la de ellos. Gozaba, sí, por la felicidad del nido firme, seguro y abrigado que podía darles, y gozaba de otras maneras distintas. Cuando, por ejemplo, aquella vez hice mi aparición, físicamente sombría, en el semialborozo, con urdimbre de cálculo e inquietud transfigurados, del té-canasta de mi madre, y ella tuvo que decirme, retadora y perdiendo aplomo, que cómo hacía eso de ponerme a silbar en medio de la reunión de señoras. Y yo decía, con mi boca de labios desunidos nada más que por una sonrisa de lástima de su ignorancia, que no era yo mismo quien silbaba, y en aquella muchacha suscité el asombro candoroso de quien presencia el tránsito de un-dios musical, tangible y perecedero.

* * *

No fue siempre así, sino apenas unos años, quizás unos meses. Con el cambio he dudado un tanto de que haciendo la felicidad de un pájaro haré la felicidad de todas las familias de los siglos venideros. Si todos pusiéramos nuestra cabeza al servicio de la felicidad general, tal vez podría ser. Pero nuestra cabeza, no sólo el sentimiento.

Yo puse la mía y tuvo gorriones, canarios y perdices dichosos. También lo son ahora los buitres que han anidado en ella. Pero ya no puedo serlo. Son inacabablemente voraces y han afinado su pico para comerse hasta el último trocito de mi cerebro. Ya en hueso mondo, aún me picotean, no diré con saña, pero como cumpliendo una obligación. Y aunque sus picotazos fueran afectuosos y juguetones, nunca podrían ser tiernos. Duelen ferozmente, hacen doler el hueso y hacen expandir mi dolor y mi tortura en un llanto histérico y desgarrado de fluir constante. Nada puedo contra ellos y nadie puede, pues nadie puede verlos, como nadie veía a los pájaros que silbaban. Y aquí estoy yo, con mi nido rebosante de buitres que, aprovechados, insidiosos y perennes, hacen crujir, con cada picotazo de cada uno de sus mil picos, cada hueso de cada parte de todo mi esqueleto. Aquí estoy, escondido entre los baúles, a la espera de que alguno de los que antaño dieron de comer al mono se compadezca de este acorralado y azuce los perros.

Pero, por favor, que nadie, por conocer mi historia, se deje ganar por el horror; que lo supere y que no desista, si alienta algún buen propósito de poblar su cabeza de pájaros.

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Antonio Di Benedetto (02/11/1922, Mendoza – † 10/10/1986, Buenos Aires) foi um jornalista e escritor argentino. Sua obra foi traduzida para o inglês, alemão, francês, italiano, polonés, entre outros idiomas.

Mundo animal, publicado em 1953 (e reeditado em 1971) foi seu primeiro trabalho, o qual recebeu numerosos prêmios. Publicou ainda:

Novelas

El pentágono (1955, reeditado como Anabella en 1974);

Zama (1956), traduzida para o inglês em 2016 por Esther Allen, publicada pela The New York Review of Books;

El silenciero (1964), traduzida para o alemão en 1968 pela Suhrkamp de Fráncfort do Meno;

Los suicidas (1969);

Sombras, nada más (1985);

Trilogía de la espera (2011, El Aleph), com os volumes: Zama, El silenciero e Los suicidas.

Cuentos

Mundo animal (1953, com quinze contos: Mariposas de Koch, Amigo enemigo, Nido en los huesos, Es superable, Reducido, Trueques con muerte, Hombre-perro, En rojo de culpa, Las poderosas improbabilidades, Volamos, Sospechas de perfección, Algo del misterio, Bizcocho para polillas, La comida de los cerdos e Salvada pureza);

Grot (1957, reeditado como Cuentos claros en 1969);

Declinación y ángel (1958), ilustrado por Enrique Sobisch;

El cariño de los tontos (1961, com os contos: Caballo en el salitral, El puma blanco e El cariño de los tontos);

Two stories (1965);

El juicio de Dios (Orión, 1975, antologia);

Absurdos (1978);

Caballo en el salitral (Bruguera, 1981, antología)

Cuentos del exilio (1983);

Mundo Animal. El cariño de los tontos (2000, Adriana Hidalgo Editora; com os contos dos dois libros);

Cuentos completos (2006, Adriana Hidalgo Editora).

Sua obra jornalística antes dispersada, foi lançada no volume Escritos Periodísticos, 1943-1986 (2017, Adriana Hidalgo).

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Nina Rizzi
Brasil, 2017

Escrito por ninarizzi

poeta, escritora, tradutora, pesquisadora. em vias de não-ser