O dramaturgo, diretor e professor de teatro chileno Roberto Merino, 65 anos, mora em Portugal há cerca de quarenta anos e há quinze adquiriu a cidadania portuguesa. Após fugir da violência do golpe militar chileno, que levou toda a sua família a se tornar exilada em diferentes países, mudou sua carreira de professor universitário de matemática para o teatro, do qual desde a infância era próximo, tendo pisado no palco pela primeira vez aos cinco anos de idade. “Mas sempre fui auto-didata, pois não havia curso de teatro em Concepción, província onde nasci, a cerca de 500 quilômetros da capital”, rememora.

Tendo chegado a Portugal menos de um ano após a Revolução dos Cravos, encontrou o país em plena euforia pelo final de uma ditadura que durou 48 anos e foi mais longeva da Europa. “Era um momento do nascimento de muitos projetos de arte e educação”, afirma. Merino foi um dos fundadores da ESAP, Escola Superior de Artes do Porto, depois de ministrar aulas em diferentes escolas e universidades e de rodar os quatro cantos do país levando teatro e educação. Para falar dessa trajetória incomum e profícua, ele me concedeu a seguinte entrevista na sede da ESAP, no belo centro histórico da cidade do Porto, em uma tarde ensolarada de primavera.

Como um professor universitário chileno de matemática acabou se tornando um professor e diretor teatral, além de dramaturgo, com cidadania portuguesa?

São quarenta anos de Portugal. Vivi mais aqui do que no meu país natal, o Chile. Saí de lá em 1974, porque se não saísse, muito provavelmente não teria sobrevivido. Todos sabem que a ditadura lá foi muito violenta, mas para algumas famílias como a minha, ela foi particularmente perversa, minha família inteira teve que sair do país. E dos amigos e conhecidos muitos foram presos e muito foram mortos. Uma vida inteira modificada por esse momento político. Meu pai, que era presidente local do Partido Socialista Chileno morou por seis meses dentro da embaixada da Alemanha, no Chile. Era uma situação muito estranha. Fui o primeiro da minha família a sair do país. Fui para a Alemanha e lá, um professor meu de alemão, que por incrível que pareça, era português, mandou meu currículo para a Fundação Calouste Gulbenkian. E eles decidiram subsidiar minha vinda para cá e nunca mais quis sair. Pedi a cidadania, pois facilita o trato com algo que eu não sei lidar: a burocracia.

E como o teatro acabou se tornando a sua principal atividade, em Portugal?

O teatro sempre esteve presente em minha vida. A primeira vez em que eu lembro de ter pisado em um palco devia ter uns cinco anos. Já fiz de tudo: direção, atuação, escrita. Mesmo fazendo graduação e ministrando aulas de matemática eu já fazia teatro com grupos estudantis no Chile e depois na Alemanha, também. A Fundação subsidiou minha vinda direto para o Teatro Experimental do Porto (TPE). E me envolvi ativamente ali, criando cursos, divulgando o teatro em escolas, fábricas, por todo o país. E foi a época em seguida à Revolução dos Cravos e se vivia muito intensamente a liberdade, com grandes conquistas na área das artes, da educação e dos direitos individuais e coletivos.

De que modo esses ideais se transformaram em projetos concretos que uniam a arte à educação?

Naquela época surgiram muitos projetos que enxergavam a arte de uma maneira não compartimentada. Uma das nossas grandes inspirações eram os brasileiros Paulo Freire na pedagogia e Augusto Boal, nas artes, com a Pedagogia e o Teatro do Oprimido. Conheci Boal quando ele veio para Portugal ministrar uma oficina de teatro para vários grupos teatrais, não hesitei em ir e aquilo me marcou profundamente, pela figura cativante que Boal era. Logo depois do TPE ingressei na Cooperativa de Atividades Artísticas Árvore, que como o nome já deixa claro funcionava como um organismo vivo, integrado, em que todas as áreas e as pessoas trabalhavam unidas, como uma grande coletividade. Fui chamado em 1982, para auxiliar na criação do Curso Superior de Teatro. Foi a partir daí que posteriormente foi fundada a ESAP, Escola Superior de Artes do Porto, que também se organizou em formato de cooperativa.

Qual o diferencial de uma escola que é resultado desse processo?

A gente pensa muito na formação integral dos alunos, em que eles possam se desenvolver como indivíduos que trabalham com arte e não com essa ideia corrente de criar artistas, pessoas que vão ser famosas e que são brilhantes e diferentes das outras. Aqui, somos uma cooperativa, e dessa forma tentamos passar para os alunos que o aprendizado é esse, aprender a trabalhar em conjunto, levando em conta as diferentes áreas do conhecimento artístico. Para te dar um exemplo de como isso funciona na prática, aqui a área de teatro é unida à de arquitetura, afinal, não há teatro sem espaço. Assim como esse, os demais projetos são pensados levando em conta sempre mais do que uma área artística. Somos uma escola de proximidade.

O que isso quer dizer, exatamente?

Achamos que para que o estudo em artes seja efetivo, ele tem que fazer o caminho de chegar até o aluno e também inserir esse aluno dentro do que acontece no entorno artístico da cidade, do estado, do país e no limite, no mundo. Os alunos fazem estágios com grupos e artistas da cidade e muitos de nossos professores são artistas que estão na ativa e que podem fazer essa ponte com os alunos e a área teatral, cinematográfica, etc. Aqui as matérias não são estanques, pelo contrário, temos grandes linhas que vão se intercambiando ao longo do curso e o aluno já é imediatamente encaminhado para o mestrado em seguida ao seu curso, não é uma obrigação, claro, mas caso ele tenha interesse pode ser um desdobramento natural da sua graduação. Nossa ideia é que o aluno seja um pesquisador constante, se será um artista ou não, já não nos cabe decidir.

Se a escola de arte não cria necessariamente artistas, qual seria a função dela exatamente?

Acho que a velha questão:  dá para formar um artista? não se coloca mais. Acredito que o que podemos ensinar é que o artista, ou o pesquisador ou o profissional de qualquer área vai ter que estudar muito, praticar muito e batalhar muito. Ponto. A escrita é um exercício diário, ao meu ver. Esse é o básico, como você quer ser um dramaturgo sem escrever? Ou sem ler? Já começa aí. Aqui acho que fazemos um certo desencantamento do grande mito da inspiração. Não acreditamos mesmo nisso, o que importa é trabalhar duro e buscar sua voz dentro disso. Se ela existir, se o aluno persistir, pode ser que ele se torne um artista. Pode se tornar um professor, um acadêmico ou ir fazer coisas que nem imaginamos, mas o valor do trabalho e da persistência, certamente pode ser ensinado, além dos caminhos pelos quais o conhecimento artístico passa.

Escrito por paula Autran

Mestre e doutoranda em artes cênicas pela USP. Jornalista, dramaturga, poeta. Como dá para ver, escrevo em formatos diversos. E também sou mãe do Arthur, de sete anos, o que resume todo o resto.