Luca

É ele. Luca tem certeza. Dos três homens que entram aos berros de Assalto e Todo mundo no chão, ele é o primeiro. Esses olhos cansados, a voz aguda e anasalada. Cresceu muito, agora tem quase um metro e oitenta, mas não deixa dúvidas. É ele.

Lembra-se muito bem do menino mofino e arisco que a pediu em namoro, aos gritos, na escadaria da escola. Jamais esqueceria aqueles olhos fujões, meio envergonhados, meio decididos. Sempre cansados. As lágrimas pingando no tecido grosso do uniforme azul e branco eram uma lembrança nítida daquele dia. Por que chorava, se a ele é que se tinha negado algo? Talvez, no fundo, gostasse do menino, mas não da ideia de ser vista com ele de mãos dadas. Todos sabiam quem era a sua mãe. Por isso o tratavam bem. Por isso, também, se mantinham à distância. Após a morte do pai, sua mãe arranjou-se com outro homem. Três ou quatro vezes por semana, um carro preto – vidros fumê, motorista uniformizado, placa especial – subia o morro para buscá-la. Para onde a levava é coisa de que não se sabe, mas o certo é que o veículo subia e descia o morro sem ser incomodado, nem pelos traficantes, nem pela polícia. Algo havia naquele carro que a todos deixava ressabiados.

A curiosidade, a proximidade do perigo ou os olhos cansados. Ela, enfim, cedeu às primeiras investidas dele. Depois trocaram uns beijos. Namorar era demais.

Será que ele a reconhece? Deixa de encará-lo e abaixa-se atrás de uma mesa. Bora, bora, porra, todo mundo no chão, grita um dos assaltantes. Porra, tu não tá escutando, não, maluco?, berra outro deles para o escritor, cliente assíduo das manhãs, que ainda fecha o computador. Em poucos minutos, todos estão deitados ou sentados no chão, olhando para os assaltantes com o pescoço esticado.

Criança, ficara presa em casa por dois dias inteiros, porque incendiaram um ônibus com os passageiros dentro. Quarenta e cinco pessoas cujas vidas estiveram ameaçadas, naquele dia. Treze ficaram feridas, quatro gravemente. Não se sabe se algum dos feridos morreu, porque a imprensa se esqueceu do incidente alguns dias depois. Estabeleceu-se, então, toque de recolher, pois corria o boato de que a polícia invadiria o morro a qualquer momento. Foram dois dias de tensão. O nó se desfez quando, finalmente, a polícia veio. Naquela noite, morreram trinta e dois. Alguns traficantes, outros não traficantes. O pai de Dimas, o assaltante que Luca agora reconhece, era um desses mortos.

Milícia, tráfico, polícia, exército. Homens armados subindo ou descendo o morro, chutando portas e invadindo casas. Um tapa na cara dói e humilha, sem exceção, independentemente do braço que carrega a mão. Braço da lei, braço fora da lei, braço forte, braço covarde; quem apanha ensaca ódio e se arma ou se curva e rasteja. Mas a cobra também rasteja, e fere.

Naqueles dias, as coisas voltaram à normalidade: contaram os corpos, lavaram as ruas, enterraram alguns cadáveres e os que sobraram puderam sair de casa. O caso foi noticiado por jornais e canais de televisão. Naquele tempo, começava-se a narrar os fatos pelo Facebook. Luca tinha um perfil na rede azul. Acompanhou a repercussão do fato, as matérias dos jornais, os comentários espalhados pelos portais, os debates organizados por canais de televisão – com especialistas em violência urbana, sem nenhum morador do Vidigal.

Ela conhecia algumas das pessoas assassinadas. Um, particularmente. Era seu vizinho Vitorino. Sapateiro, seu Vino descia todos os dias para a entrada do morro com seu material nas costas. Aos sessenta e oito anos, todos vividos no Vidigal, julgava-se acima dos toques de recolher, tinha a certeza de que ninguém mexeria com ele. Foi o primeiro. Alvejado por uma rajada de carabina ponto quarenta, caiu na calçada de uma Assembleia de Deus. O sangue lavando a calçada, tingindo seus cabelos encanecidos. Ao pânico gerado pela ação policial, seguiu-se a revolta pelo que foi dito sobre os mortos. Havia quem os chamasse de bandidos, exaltando a chacina. Se estivesse rezando, não morria, dizia-se. Luca só conseguia pensar em seu Vino, quase sessenta anos gastos em consertar sapatos e sandálias dos cariocas da Zona Sul que iam até a entrada do morro para conseguir um remendo mais barato. Recauchutado aquele sapato que custara vinte vezes mais do que pagavam a seu Vino, retornavam aos condomínios, enquanto ele retornava ao Vidigal. Seu Vino estava rezando. Só Jesus dá o conforto, ele dizia. Naquele dia, não deu.

O mais velho dos assaltantes limpa a caixa registradora, que lhe cospe um dinheiro muito pouco. Com a profusão dos cartões de crédito e débito, poucos pagam cafezinho com dinheiro. O escritor da última mesa, por exemplo, paga tudo no crédito. No final do mês, acerto, põe na conta, ele diz. Todo mundo com celular e carteira em cima da mesa, bora, berra Dimas. A gente não quer machucar ninguém, continua, enquanto recolhe a sacola do homem jogado no chão pela entrada deles e a mochila do advogado. É, se todo mundo colaborar, vai ficar tudo certo, diz o outro. A mochila do advogado agora está nas costas de Dimas.

As pessoas começam a colocar seus pertences em cima das mesas, enquanto o terceiro dos assaltantes os recolhe. O homem acompanhado da mãe coloca a mão no cabo da pistola que traz à cintura. Luca vê. Mas ele recua e a esconde às costas, no cós da calça. Ei, você, grita Dimas para o escritor, Como é teu nome? João, responde o escritor. João, senta aqui. Dimas aponta para o banco acolchoado que fica de frente para o Café e de costas para a rua. Pela vidraça, os ombros e a cabeça de João ficam visíveis da rua. Juntam-se a ele duas mulheres, uma à esquerda e outra à direita. Um dos assaltantes puxa um dos bancos altos que ficam no balcão e o coloca à porta. Luca é obrigada a se sentar nele, de modo que, de onde está neste momento, vê todo o ambiente. Os ombros, o pescoço e a cabeça dela também estão visíveis à rua, como os de João, que olha para trás e percebe que há duas viaturas da polícia trancando a avenida. Estão todos cercados. Dimas fixa o olhar em Luca. Ela percebe e estremece. Ele baixa a cabeça.

A árvore se conhece pelo fruto, dizia-lhe o pai, Nunca vi figo dar entre os espinhos. Luca, que então era uma menina, aborrecia-se com os sermões paternos. Aos quinze anos, muitas restrições pesavam sobre si, todas nascidas de uma sociedade que não a tinha alcançado e que, evidentemente, ela não entendia. Todos os jovens que conhecia podiam ir às festas e aos bailes, menos ela. Toda a gente ao seu redor divertia-se de alguma forma, menos ela. A mãe até que tentava acobertar-lhe algumas saídas, mas a vigilância paterna era incansável. , minha filha, eu lhe dou cobertura, dizia-lhe a mãe.

Num dia de sábado, alguns anos antes de ela querer ir aos bailes, o pai aplicava-lhe um desses sermões durante o almoço. A menina passara a manhã inteira na casa de uma prima, enquanto a sua mãe se revesava entre o fogão e a arrumação da casa. Em geral, Luca dividia com a mãe essas tarefas, mas naquele dia estava triste, menstruara pela primeira vez. Não se esquecera das tarefas domésticas; não quis voltar para casa e não voltou. No entanto, ao chegar em casa, encontrou a mãe soturna e o pai enfurecido. Onde você estava?, perguntou. Estava na casa da Isa, ela respondeu. Filha, por que você não vai tomar um banho antes de almoçar?, perguntou-lhe a mãe, como quem ordena. Não, ordenou o pai, Ela vai comer do jeito que está, não estou esperando ela há meia hora para, agora que ela chegou, continuar com fome. A mesa ia sendo posta pela mãe, o pai olhava fixamente para Luca, que apenas engolia em seco para não chorar. Você acha certo deixar a sua mãe cuidando da casa e fazendo o almoço sozinha?, perguntou-lhe o pai. Não, respondeu Luca. E por que fez? Não precisa disso, apaziguou a mãe, Eu não me cansei nem nada, está tudo aí feito, para quê o aperreio? Não defenda ela!, disse o pai, Você sabe muito bem como são os jovens daqui, mas Luca não vai ser assim, eu não vou deixar, porque ela tem pai e mãe e não vai ficar perambulando e arranjando barriga por aí. Meu Deus, homem, espantou-se a mãe, Você não vê o que está dizendo? Luca é uma menina. Menina!?, ironizou o pai, Eu bem sei o que é que as amigas dela andam fazendo por aí, é só no que os homens falam no bar. Luca, cabisbaixa, trincava os dentes, segurando as lágrimas. E tem mais, continuou o pai, Eu estou com os dois olhos em você, Luca, os dois! Vagabundo não vai largar você de barriga para eu tomar conta de menino que eu não fiz. Nesse momento, a menina esmurrou a mesa duas vezes, fazendo voar no chão, e em cima da mãe, talheres, prato e pedaços de comida. Chega! Chega! Você é que é vagabundo, disse Luca, O dia inteiro ficou em casa vendo televisão enquanto minha mãe fazia tudo sozinha; aliás, o dia inteiro não, a vida inteira, e eu tenho que ajudar porque você nunca ajudou em nada. Quem você pensa que é?, perguntou o pai, levantando-se e derrubando coisas no chão também, Quem é que bota comida na porra dessa mesa? A mãe chorava tentando segurar os dois. Você é um velho escroto, Luca ainda conseguiu dizer antes de ser esmurrada pelo pai. Porque a boca diz aquilo que no coração abunda, mas a mão diz muito mais. Ela perdeu alguns dentes, naquele dia.

Aquele sábado pesou em sua decisão de sair de casa e ir morar com a tia, anos depois. Não era a primeira vez que apanhava do pai, mas decidira, então, que escaparia dele assim que fosse capaz. A mãe sofre até hoje, mas permanece ao lado do marido. Visita a filha, na casa da irmã, sempre que pode.

O que é que a gente faz? Sei lá, resmungou Dimas, A gente não ficou nem um minuto aqui. Merda! Nesse minuto, a publicação de João já tem mais de mil curtidas, quinhentos e oitenta e dois compartilhamentos e um sem número de comentários. O celular de Luca não para de vibrar em seu bolso. Ela sua, tem medo de que alguém perceba, dá graças aos céus por tê-lo no silencioso. Um amigo viu a publicação e liga sem parar.

Os assaltantes, preocupados com as viaturas que se acumulam na avenida, não percebem que uma outra garçonete faz um vídeo ao vivo de quinze segundos, no qual clientes e funcionários do café, deitados no chão, e os três assaltantes agachados à porta, são vistos – ficam visíveis apenas suas pernas e torsos, nenhum rosto. A garçonete que filma está deitada. O som do vídeo é confuso: pedaços de orações ao pai nosso, um ou outro cochicho entre clientes e as vozes abafadas dos assaltantes. Assustada pelo militar que se move para falar com a mãe, corta o vídeo focando no rosto dele, que pelo ângulo parece ter se abaixado. É o único rosto que aparece com nitidez no vídeo. A cor, o cabelo raspado, o não estar deitado como os outros, o rosto no foco. É ele.

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).

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