Morrerei no Dia das Bruxas. Quem me disse isso foi uma vidente que não costuma errar. Ela é adepta da iridomancia, que eu não sabia o que era até a Júlia me explicar:

– É um método de adivinhação pela íris.

O cliente arregala o olho, e ela diz quais são os caminhos que devem se abrir nos próximos dias. É hábito da Júlia marcar uma consulta com ela sempre que a vida fica embaraçada. Mas dessa vez, ela cismou que me queria junto.

– Mas eu nem acredito nessas coisas!

– Ora, Fábio! Vamos, pelo menos para me fazer companhia.

Bobo que sou pela Júlia, aceitei e fui. Minha intenção era assumir a função de batata-frita e ficar somente de acompanhante, ouvindo a senhora descrever que minha amiga arrumaria um estágio, que ganharia um presente inesquecível, que adotaria um cachorro encontrado na rua.

Mantive o olhar estático, cético que demonstrava ser, até a senhora frisar nas minhas íris e falar:

– Filho, o que é que você tem feito da vida?

A apelação não iria me corromper, eu já havia me preparado para isso. Respondi com uma chacoalhada de ombros. Ela colocou as mãos sob meu queixo, puxou meu rosto para mais próximo do dela e me encarou profundamente, falando em desespero:

– Mas você é tão jovem… Como pode? Pobrezinho!

Confesso que o tom de voz que ela utilizava passou a me preocupar, mas mantive minha decisão de não me render à curiosidade. Júlia, no entanto, não tinha feito promessas para si própria e perguntou:

– O que você vê no futuro dele?

– Nada! – a senhora respondeu, como um tapa na cara bem dolorido.

Cheguei a esboçar um sorriso, considerando que meu ceticismo era tão grande que havia bloqueado os dons da vidente. Entretanto, ela prosseguiu com sua fala:

– Parece não existir futuro para esse garoto. É como se uma barreira de vidro impedisse minha leitura. É como se…

– Se…? – abri a boca, já sem controle da ansiedade.

– Como se você fosse morrer na virada do mês.

Estávamos em outubro e, pela obviedade impressa, minha vida chegaria ao fim às 23h59 do dia 31. Morrerei no Dia das Bruxas, aos 15 anos, 75 quilos e nenhum beijo na boca. Fazia tempo que um Halloween não parecia tão assustador para mim.

Procurei não acreditar muito nisso e julgar que tudo não passou de uma maneira de me provocar. Mas então vi Júlia se tornando estagiária de um escritório de contabilidade, vi o smartphone novo que ela ganhou dos pais e vi quando Pulga saiu da sarjeta para morar com ela.

É 30 de outubro e já não sei mais a quem recorrer. Devo voltar à mulher das adivinhações e dizer: “Velha, me salva!”? Devo contar à minha família e virar motivo de risos para uns e de preocupação para outros? Devo arrancar os olhos com as próprias mãos para que eles não definam mais nada dos meus dias? Abraço-me à Júlia.

– Calma, Fábio! Ela pode ter errado.

– Mas não foi você mesma que disse que ela nunca erra?

– Sempre há uma primeira vez.

Sempre há uma primeira vez para morrer. Primeira e única. Nenhuma gostosura. A maior das travessuras. Sinto as lágrimas embaçarem minha visão.

– Por favor, Fábio, não chora senão eu choro junto.

– Não tô chorando – eu me resguardo. – É só minha lente que está coçando.

– Lente?

Desde que os óculos passaram a marcar demais a ponte do nariz, resolvi usar lentes de contato: são mais práticas, mais leves e ninguém percebe que sou míope. Mas Júlia percebeu o imbróglio:

– Por acaso você tirou as lentes quando ela leu sua íris?

Resgato, na memória, as palavras da senhora: “É como se uma barreira de vidro impedisse minha leitura”. Suspiro e sorrio aliviado. O acrílico oftalmológico havia salvado minha vida.

Escrito por João Paulo Hergesel

Nascido em 25 de julho de 1992, João Paulo Hergesel é um escritor brasileiro residente em Alumínio (SP). É doutorando em Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi (UAM), mestre em Comunicação e Cultura e licenciado em Letras pela Universidade de Sorocaba (Uniso). Dedica-se à produção literária, com foco na literatura infantojuvenil, e à pesquisa na área da Narrativas Midiáticas com foco no estudo do estilo. Autor de livros com temáticas diversas e com participações em várias antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais – entre eles: Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), Cancioneiro Poético (Instituto Piaget Portugal), Concurso Monteiro Lobato de Contos Infantis (SESC-DF) e Prêmio Ganymedes José de Literatura Infantil e Juvenil (União Brasileira dos Escritores).

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