Como quem invoca as portas e os quadrantes

Sondagem

Qual a tua paz
qual a tua guerra
qual o teu exemplo
já experimentou teu corpo
já encarou barragens
até onde a corda bamba
que seivas e que florações
fluem ao nível da perversidade
já aprendeu a ver se
através das tuas imagens
há o imensurável?

*

Curva

Falo abismo
falo céu

cavo poço
cavo pulsão

monastérios não redimem
chapadas

quem ingressa à natureza
não volta.

*

Porque atravessavam portas comprometidas com outra espécie de lógica

não eram seus corpos matéria suficiente para

atravessavam pela insuficiência, portanto, com o mesmo conhecimento de um recém-nascido

a mesma fragilidade, portanto

não eram ornamentais nem rosas de pedra, eram outra coisa

surgiam ao alcance da voz; extinguiam-se num mesmo ponto, sujeitas à deterioração e ao abandono

saltavam como pulgas, campos imensos, centenas de milhas; demarcação pertinente aos aviões, pensavam

no que pensavam, perdiam-se dos destinos desenhados no dorso dos dedos cansados da operação

isto de fiar ruínas como quem invoca as portas e os quadrantes

como quem salta lógicas desaforadamente

feito quem fotografa coisas possíveis e as consagra

na calha que escorre a água da chuva ou o sangue do abatedouro.

*

Sociologia

Prolonga-se desde o mastro
marxista, o tombadilho

condição de morte do movimento
sem a qual, porém, não há condução

superestrutura pungente da história
de avanços escravistas
ultramaresia cheirando a extermínio

onde o abissal não foi o canto das sereias
mas o monstro com a cara do progresso

retornando da anterioridade do homem
impossível, o rosto mais valente dos dinossauros

valia ter se perpetuado sobre nós
ele no seu próprio navio

carcaça imanente contra o asteroide.

Imagem|Roberta Tostes Daniel
Recoleta, Buenos Aires

Escrito por Roberta Tostes Daniel

Roberta Tostes Daniel, carioca. Autora de "Uma casa perto de um vulcão" (Patuá, 2018) e "Ainda ancora o infinito" (Moinhos, 2019). Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Gueto, Caliban, Poesia Primata, Agulha, Polichinello, Incomunidade, Liberoamérica, Musa Rara, Mallarmargens, Zunái, Literatura & Fechadura, Estrago, Diversos Afins, Germina, Minotauro, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: "Um girassol nos teus cabelos - poemas para Marielle Franco" (Quintal e Mulherio das Letras), "Sob a pele da língua - breviário poético brasileiro" (Arc Edições), “Desvio para o Vermelho” (CCSP), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco), "Crônicas de um amor crônico" (Penalux) e “história íntima da leitura” (Ed. Vagamundo). Email: robertatostes@gmail.com Instagram: @robertatostesdaniel e @danielrobertatostes Blog: http://robertatostes.wordpress.com “Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra” (António Ramos Rosa)

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión /  Cambiar )

Google photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google. Cerrar sesión /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión /  Cambiar )

Conectando a %s

A %d blogueros les gusta esto: