Sondagem

Qual a tua paz
qual a tua guerra
qual o teu exemplo
já experimentou teu corpo
já encarou barragens
até onde a corda bamba
que seivas e que florações
fluem ao nível da perversidade
já aprendeu a ver se
através das tuas imagens
há o imensurável?

*

Curva

Falo abismo
falo céu

cavo poço
cavo pulsão

monastérios não redimem
chapadas

quem ingressa à natureza
não volta.

*

Porque atravessavam portas comprometidas com outra espécie de lógica

não eram seus corpos matéria suficiente para

atravessavam pela insuficiência, portanto, com o mesmo conhecimento de um recém-nascido

a mesma fragilidade, portanto

não eram ornamentais nem rosas de pedra, eram outra coisa

surgiam ao alcance da voz; extinguiam-se num mesmo ponto, sujeitas à deterioração e ao abandono

saltavam como pulgas, campos imensos, centenas de milhas; demarcação pertinente aos aviões, pensavam

no que pensavam, perdiam-se dos destinos desenhados no dorso dos dedos cansados da operação

isto de fiar ruínas como quem invoca as portas e os quadrantes

como quem salta lógicas desaforadamente

feito quem fotografa coisas possíveis e as consagra

na calha que escorre a água da chuva ou o sangue do abatedouro.

*

Sociologia

Prolonga-se desde o mastro
marxista, o tombadilho

condição de morte do movimento
sem a qual, porém, não há condução

superestrutura pungente da história
de avanços escravistas
ultramaresia cheirando a extermínio

onde o abissal não foi o canto das sereias
mas o monstro com a cara do progresso

retornando da anterioridade do homem
impossível, o rosto mais valente dos dinossauros

valia ter se perpetuado sobre nós
ele no seu próprio navio

carcaça imanente contra o asteroide.

Imagem|Roberta Tostes Daniel
Recoleta, Buenos Aires

Escrito por Roberta Tostes Daniel

Roberta Tostes Daniel, carioca. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Zunái, Musa Rara, Diversos Afins, Estrago, Incomunidade, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: “Desvio para o Vermelho” (CCSP), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco) e “história íntima da leitura” (Ed. Vagamundo). Email: robertatostes@gmail.com “Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra” (António Ramos Rosa)