16/06/2016

É assim, esse rememorar na espera de aeroporto que traz à tona a última ida e sua história. Girando entre os dedos uma moeda vermelha, suerte y salud, toda sem valor de troca, apenas para não roer as unhas nem despedaçar rótulos.

Gosto que comece em rios.

Naquela tarde, sou a única que se senta sobre a balaustrada da ponte e dela observa os galeirões cruzando o Guadalquivir de uma margem à outra, até que a água se revolte. A malícia dos meninos que não enxergam nas pedras a possibilidade de muros de arrimo, mas que elas e tudo tomam por arma. A maldade das meninas que elegem para si aqueles que lançam os maiores pedregulhos à mais longa distância. A força quase nunca se presta à dignidade, exceto quando se limita à sobrevivência. Desejo sua desgraça como quem prefere o fim da humanidade ao grasnar dolorido de mais outra ave. Hazel sabe que temos o poder de acabar com tudo isso, mas o que nos cabe?

Salto do parapeito rumo ao templo mais próximo que me lembre do sagrado e sua lei, em ignorância cega de tudo ao meu redor que o expressaria ainda melhor. Contra a raiva meço meus passos como aprendiz de artesã que teme o corte, tendo refeito inúmeras vezes um padrão impossível de cerzir, e estaca nervosa diante do ponto em que não mais dispõe de matéria sobrando. Não mais há margem para erro. Preciso me ajoelhar para recolher com as mãos as lágrimas de minha recusa à revanche, domadora de bestas a lamber o suor que escorre de seu esforço, jamais ambicionando o controle, porém sem abdicar de sua pretensão a ele. Aos pilares e arcos junto ao teto, levanto minhas orações.

Basta uma queda, a vertigem de um dia ao subir uma montanha ou olhar de uma alta janela, para temer as alturas por toda uma vida. O pavor de cair faz eco ao nosso medo de chegar ao precipício de nosso interior: na borda onde nossos arrependimentos nos empurram ao abismo. E vêm como uma avalanche descendente, que despenca arrastando-nos, despertada por um sorriso amargo frente ao caminho que escolhemos contra nossa própria vontade. Cair em nosso abismo significa ser levada por tudo que se deixou para trás de si e, frente a tal violência, não resta nada senão sucumbir, cessar a existência sob a força opressora da gravidade, no silêncio final de quem se tem sido, rumo ao porvir.

E eu oro, oro porque meu ímpeto é repousar do outro lado do espelho por onde os galeirões nadam. Porque aqui, na dimensão da balaustrada, eu me agarro a uma fúria contra aqueles meninos e meninas e o que seus gestos representam, ilegítima pois que não me pertence julgar, e eu não consigo deixá-la, justamente por ter consciência de meu poder de destruir e aterrorizar.

E eu me curvo, quando, das janelas entreabertas, ecoa o estalo das castanholas. De pé, pelas frestas as entrevejo, novas nas mãos de uma tímida adolescente, que nelas descobre a reverberação a qual seu corpo nunca se permite. Não demorará muito para que encontre gosto por bater solados e fortes os pés contra o chão. Eu a quero porque ela, como eu, talvez precise das violências para relembrar-se de sua vocação.

Descendo à costa, despeço-me daquela que fora ao marcar o ritmo de meu novo passo batendo palmas frente às falésias.

Desde então, volvendo a Florianópolis, restituída, torno-me a mulher que aos domingos toca castanholas enquanto anda ao longo da rodovia SC-406. Ao lado, a suave altura dos muros delimitando a Lagoa, a falsa vertigem que exercita o equilíbrio. Ainda tenho como trilhas os recantos que conduzem aos templos, mas trago nos dedos o ardor musicado de quem se dispõe a consertar os caixilhos das vidraças como se disso dependesse sua vida. E sorrio agradecida, porque não é preciso, ao vê-las ajustadas em seu lugar. Quando seco no brim das calças minhas mãos suadas pela madeira, recordo-me da moeda vermelha ao senti-la no bolso. Assim, sorrio, mais ainda.

De canto de olho, reconheço divindades. Dizem: tudo passa.

Escrito por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e bacharela em Estudos Literários na UNICAMP. Atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).