Neste segundo instante da Série Québec na Liberoamérica, trago versos do primeiro poeta do modernismo canadense: Alain Grandbois (1900-1975). Autor de livros premiados e reverenciados nos anos 1950 por jovens poetas, Grandbois foi um grande exponente do uso de formas experimentais e metáforas abstratas, versos simples e ritmados, trágicos e repletos de idealismo. A trajetória literária de Grandbois é significativa para a história da literatura québécoise – seu lirismo e escrita simbólica, presentes nos volumes “Poèmes” (1934) e “Les Îles de la Nuit” (1944), tiveram grande repercussão para as gerações seguintes.

Mãos estendidas

Esta bela paz tão provisória
Sob os sois dos equinócios
Calma espantosa
Encanto dos olhos
Atrás da luz
A cidade velha entorpecida
Como o lagarto no coração quente dos verões

E toda esta beleza
Parcela de um instante abençoado
Se transformará em noite e frio
Diante do desespero dos homens
Farejando o odor da morte

Mas nossas mãos não se estenderão em vão
Um fragmento de felicidade
Vale todo o drama de uma vida
Assim como o lampejo ofuscante do diamante
Nas profundezas tenebrosas da terra


Les main tendues

Cette belle paix si provisoire
Sous les soleils des équinoxes
Calme étonnant
Ravissement des yeux
Derrière la lumière
La vieille ville engourdie
Comme le lézard au cœur chaud des étés

Et toute cette beauté
Parcelle d’un instant béni
Se feront nuit et froid
Devant le désespoir des hommes
Flairant l’odeur de la mort

Mais nos mains ne se seront pas tendues en vain
Un fragment de bonheur
Vaut tout le drame d’une vie
Ainsi que l’éblouissant éclat du diamant
Aux ténébreuses profondeurs de la terre

 

Alain Grandbois, « Poèmes », l’Hexagone, 2003
Tradução original do francês  por Lidia Rogatto

— Veja o post anterior da Série Québec aqui. —