Laura Makabresk
qual é o gosto
que tu trazes no peito?
qual é o gesto
que tu trazes na alma?
.
entre máscaras máculas
e monstros almáticos
qual é a beleza
que tu ilustras o rosto?
.
qual é a névoa
que enturva teus olhos?
qual é o peso
que enfarta teus ombros?
.
entre o cais o caos e
o holocausto almáticos
qual é a morte
que te mata [lentamente] vivo?
.
qual é o amargo
que nunca te revelou
a doçura da vida?
qual é a sede
que nunca te satisfez
a abundância da água?
.
entre o verbo o vício [vil danisco]
e o vestígio intrínsecos
qual é a fome sem cara
que nunca te saciou o pão sagrado?
.
tudo certo
emoção à flor da pele
ombros largos
sorriso aberto
abraço abrigo
.
tudo lindo
porém, o que tu dizes
nas entrelinhas [das lágrimas]?
o que te falta
nas entre linhas [das tuas lutas]?
.
qual é o teu limite?
até onde tu aguentas?
.
reza a lenda que de anteontem
em diante não tardaria
os agoras os instantes seriam
o eu eternizando segundos
.
ternurando doçuras
que eventualmente
azedam
enjoam
abusam
perdem o gosto
.
o gozo
a saliva
o solado
a planta do pé
que dessabem o passo
se desencaixa
.
reza a lenda que de anteontem
em diante os instantes seriam agoras
ontem hoje e amanhã a mesma coisa
casa de cômodos mutáveis
cômodo de coisas mutantes
.
sem moinhos de vento
sem mumunhos de tempo
sem temperança nas escolhas
nem antes
nem depois
infames
.
reza a lenda que de anteontem
os hojes seriam vésperas dos riscos
solúvel riso tomando flores
soluçadas na garganta do peito seco
.
infértil aos sonhos
invertebrado aos sabores
aquecendo as delícias dorsais da vida
entre dias e noites e esperanças remotas
 .
nossa sina
é se ensinar
desvendando caminho
certo ao nos desencontrar
.
um desencontro exato:
na hora e
na vida e
no tempo
que nos cabe
.
a sina nossa
é se arriscar
ousando errar
ao nos lançar
.
lançando o risco
de nos ferir e
de nos sangrar e
nos derramar sem reservas
.
nossa sina
é ser e viver
para nos admitir incompletos
na completude que transborda-nos
.
rogando cuidado
que nos aqueça
querer que nos sustente
despir que nos vista inteiros
despindo-nos de nós
.
para sermos outros
entre tanto amor
entre tanta dúvida
abrigo.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.