Círculos finitos:  ‘A repetição dos pães’, de Caio Augusto Leite

A realidade se vê. Vive-se. Utilizam-se tantas formas de ignorá-la, mas não adianta: está ali. Dessa forma, escrever sobre o Homem e sua relação com a realidade pode soar a repetição improdutiva: por que transcrever o real se ele é tudo o que aqui temos? Se aqui nos utilizamos do fantástico, a realidade ganhará contornos mais ou menos mágicos e poderá ou não deixar de soar real. Quando o autor de ‘A repetição dos pães’ (7Letras, 2017) força a realidade até ao fantástico, não é para conseguir um desfecho fácil em seus contos de severa humanidade: faz isso para nos dar algum alento, leitores – e humanos – que somos.

Caio Augusto Leite estreia na prosa com este livro curto e denso em cujos contos encontramos a vida, seca e duramente. São dez narrativas que se estendem pelas profundas 58 páginas deste volume que encara nos olhos o Homem contemporâneo no que ele mais entende e vive, diariamente: o desequilíbrio entre a certeza e o quanto de incerto nela há. Ora pessoais, aforísticas; ora descritivas, procurando o outro, as narrativas de Caio nos procuram e nos alcançam através de uma linguagem dominada por seu autor, com técnica e precisão. Seu texto é enxuto e sóbrio. Suas linhas são calculadamente precisas.

Ana Naná, terceiro conto do livro, demonstra o domínio do autor em relatar a vida. Conta a história de personagem homônima ao título, mulher simples e religiosa, acostumada a pecar somente os pecados que sabia que o eram. Peregrinava à igreja aos sábados, todos os sábados, religiosamente. Padre Rodrigo, acostumado às visitas de Ana Naná, põe-se a ouvi-la e a recomendar, religiosamente, a penitência. A rotina não deveria ser rompida, não poderia ser, mas é. E quando o repetitivo a que estamos acostumados sofre uma (qualquer) ruptura, o desfecho não pode ser outro que não o desespero, o desengano diante do trágico. Nada mais humano que finais infelizes.

Da intimidade do confessionário ao tecido social, Caio nos leva não pela mão, com carinho, mas aos empurrões. É assim em Os incondenáveis. Ambientando num reino distante (ou aqui mesmo?), o conto narra a situação em que se encontra um rei após não perceber temor nos olhos do condenado à morte. A coragem arrogante do homem prestes a ser guilhotinado desperta no soberano a insegurança que circula em volta de quem tem poder. E daí, a loucura. A repetição: o trivial e rotineiro é novamente posto em xeque: acostumado a emitir decretos à sua maneira e gosto, acostumado a ser temido, o rei não consegue enfrentar o diferente, o novo, a ruptura da realidade cíclica, circular.

Para além das narrativas em terceira pessoa, ‘A repetição dos pães’ tem um trunfo: as reflexões de narradores que percebem que a circularidade da vida (e por conseguinte da realidade onde a vida se insere) não pode ser percebida apenas com a insegurança dos sentidos. A escadaria, conto que fecha o volume, traz um narrador seguro de sua insegurança diante de uma escada: minha vitória é não ter entendido jamais uma escada. (…) Diante do infinito eu me confundo e de subir e descer já não sei mais qual faço. Entre escrever e ser escrito, já não sei mais onde começa a fábula, onde termina a vida.

É este narrador confidente que abre este belíssimo livro, no conto que dá nome à obra. Como se tudo existisse a partir da linguagem, o monólogo inicial exalta: “Repito não por falta do que dizer, mas para que o que foi dito continue dito”. É da linguagem que surge Deus, criado pelo homem e sua língua, e é pela linguagem que passa a realidade: impossível fugir deste fato. Apresentando-se, o autor-narrador determina o que dali pra frente encontraremos na sua busca pelo Homem e sua continuidade acidentada; círculos, espirais e suas decorrentes fugas, seus escapes: a realidade é inevitável. Enquanto isso, o narrador-autor se expande e expande a linguagem através de sua escrita: “Repito para que dure”.

E não se trata a Literatura de buscar fazer da realidade de fato, passageira, uma outra realidade, duradoura?

Caio Augusto Leite faz durar sua escrita, sua realidade, e inaugura uma literatura que desperta interesse e merece atenção. E nós, leitores, alcançamos nossa própria eternidade enquanto acompanhamos sua criação tão bem realizada.

Escrito por marceloLABES

Poeta e trapaceiro. Autor de "Falações", "Porque sim não é resposta", "O Filho da empregada" e "Trapaça" (Oito e Meio, 2016). Edita o blog O poema do poeta, onde publica manuscritos de autores vivos & mortos.