Marcos

É a segunda vez que o mais baixo passa perto do subtenente João Marcos. Basta agarrá-lo, exigindo dos outros que abaixem as suas armas. Difícil é saber quanto os outros dois gostam dele. É o mais nervoso e anda de um lado para outro com o revólver abaixado. É fácil rendê-lo, pensa Marcos. As três armas são velhas e gastas, apenas uma pistola e dois trinta e oito. Ele sabe que é capaz do primeiro passo, mas sua mãe está apavorada.

Não era um iludido, ao decolar do Galeão para o Toussaint Louverture. Conhecia as condições precárias da tropa, só melhores do que as condições gerais da população haitiana. Esperava encontrar um país em reconstrução, assolado por problemas de segurança pública, multiplicados por uma crise humanitária sem precedentes. O que encontrou foi ainda pior: fome crônica, obras paradas ou em estado de letargia, uma população de rua maior que a população abrigada em albergues. Nos becos e vielas haitianos, de bebês a armas de fogo, tudo era mercadoria.

Na semana em que ele chegou, uma rede de contrabando de recém-nascidos tinha sido desmontada. Casais europeus, estadunidenses e canadenses, iam a Porto Príncipe para comprar crianças saudáveis cujas famílias miseráveis já tinham muitas bocas para alimentar. Uma forma de ajudar o país, essas pessoas, tinha dito um canadense ao ser preso em flagrante de compra. Mas nem sempre era esse o perfil dos compradores. Havia também os que agenciavam redes internacionais de exploração sexual de crianças. François Bournier, empresário que perdera sua fortuna durante a crise, que viu ruir a sua mansão durante o terremoto que atingiu o país em dois mil e dez, comandava esse comércio em Cité Soleil – bairro mais pobre de Porto Príncipe – estabelecendo contato com prostíbulos em todo o mundo, para onde iam as meninas haitianas sequestradas. Pagavam-lhe em Euro e Dólar. Marcos viu François em um canto de cela. Fedia e fungava freneticamente, como se estivesse permanentemente gripado. Logo nutriu um ódio especial por gente como François, Que se aproveita da situação para explorar os outros, dizia.

É possível escutar helicópteros sobrevoando o local. Um da polícia e um da Globo, quer apostar?, pergunta uma mulher que está à esquerda de João. Não duvido, responde João. Cala a boca aí, porra, grita um dos sequestradores. Eles estão nervosos, cochicha Marcos. Logo percebe que um deles o observa com atenção. É Gérson, que desconfia de Marcos desde o momento em que entrou no Café. Ele também reconhece um soldado quando o vê. Já muitos viu, desde a mais pouca idade. Crescido no Vidigal, viu homens fardados em batidas, ocupações, blitz, ações de reconhecimento. Reconhece um soldado quando o vê. E logo desconfia de Marcos.

A invasão de Cité Soleil foi um sucesso. As tropas brasileiras eram suporte à polícia haitiana. A Minustah, missão da ONU que ocupa o Haiti desde dois mil e quatro, já tinha expulsado uma gangue e um grupo guerrilheiro, prendendo lideranças. Mas houve uma imensa fuga do principal presídio do país, o que causou a retomada da comuna pelos grupos que a disputavam desde a derrubada do presidente Jean-Bertrand Aristide. Daquela vez, invadiam-na com o objetivo de edificar postos avançados de vigilância, a partir dos quais estabeleceriam zonas de livre trânsito para a polícia. Uma coincidência fez com que a gangue atacasse os guerrilheiros exatamente na hora em que a tropa da ONU chegava à comuna. O tiroteio durou muitos minutos, ferindo um homem que protegia a filha com o corpo, em uma viela. Uma mulher que estendia roupas no quintal de seu barraco, caiu fulminada por um tiro. E logo os dois grupos rivais passaram a atirar em direção ao inimigo comum: os estrangeiros.

O comandante das tropas orientou a retirada, pois estavam em menor número e os adversários estavam muito bem protegidos pelas folhas de zinco e de madeira que serviam de parede para barracos. Durante a retirada, Marcos percebeu vários olhos esgueirando-se por janelas, cobogós, em becos estreitos. Era a gente da capital, moradores de Ti Haiti, a porção de miséria mais profunda de Cité Soleil. Olhando ao redor, viu o esgoto a céu aberto, os barracos tortos e precários, não raro com buracos de bala, o lixo pútrido que se amontoava pelos cantos e nos córregos. Lembrou-se de sua infância. Na saída da comuna, dois blindados da ONU encurralaram um carro com três homens. Eles abriram fogo contra os blindados. Dois mortos e um, gravemente ferido, logo imobilizado e enfiado dentro de uma ambulância militar. Subtenente Marcos, acompanhe ele na ambulância, abra fogo contra qualquer um que não seja médico ou militar da ONU e que tentar se aproximar do elemento, dissera o comandante daquela operação. Sim, senhor, respondera Marcos.

Ao ficar sozinho com o homem na maca, dentro da ambulância que corria para o hospital montado do outro lado da cidade, tremia bastante. Seriam quinze minutos. O homem estava acordado e matinha o olhar fixo em Marcos. Encararam-se por um tempo.

Atire na minha cabeça, por favor, pediu o homem. Era um guerrilheiro da Frente Revolucionária Nacional e estava com um ferimento muito grave na barriga. Não sobreviveria a um furo daqueles. Bem que eu queria, mas não posso, respondeu Marcos em crioulo. Não adianta, eu vou morrer e não abro a boca. Vamos dar um jeito de você falar ou, pelo menos, de sofrer bastante. O que eu tenho para dizer vocês já sabem, murmurou o homem, Vocês é que têm que me responder por que expulsaram minha família das nossas terras, vocês têm que dizer por que a Eurasian e a VCS estão extraindo o nosso ouro, por que estão estuprando as crianças, vocês que têm que responder o porquê de tudo isso. Estamos aqui pra ajudar, porra, respondeu Marcos. E por que não ajudam às pessoas do seu país?, perguntou o homem. Porque não estamos tão desgraçados! Você não está vendo a merda em que se meteram?. O que eu estou vendo são exércitos estrangeiros marchando no nosso chão. Eu conheço todo esse discurso que vocês inventam para convencer jovens estúpidos, tudo isso existe no meu país também, e lá também há quem se aproveite dos problemas para fazer discurso. Se tudo isso existe no seu país, o que é que você faz no meu?, questionou o homem, momentos antes de o retirarem da ambulância direto para a sala de cirurgia.

Trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro; trinta e quatro pessoas, contando com a gente, disse Dimas para os outros dois. Porra, trinta e quatro pessoas aqui dentro, o que é que a gente vai fazer?

Os três homens andam de um lado para o outro. O vídeo da garçonete já conta mais de quinhentas mil visualizações, a partir de doze mil e vinte compartilhamentos. Doze mil e vinte e um. Além das dez viaturas da polícia militar, há ainda uma multidão formada entre a outra pista da avenida, que está toda interditada, e a areia da praia. Toda a cidade se ajunta àquela porta. Centenas e centenas de selfies e vídeos são publicadas no Facebook e no Twitter, a partir da multidão. As hashtags se multiplicam. Acompanha-se tudo em tempo real agora.

De relance, Marcos tenta chamar a atenção de Luca piscando os olhos. Consegue. Com as mãos, tenta perguntar se há alguém atrás do balcão. Ela não entende. Ei, você, diz Gérson para Marcos, Vem cá.

Por um instante o subtenente pensa em puxar a pistola que carrega. O braço se move, mas o movimento é interrompido pela prudência, e logo ele se levanta e vai em direção aos sequestradores. Atrás do balcão, em voz baixa, Gérson faz uma pergunta para Marcos. Mesmo os que têm ouvidos para ouvir, não ouviram aquela conversa.

Houve um alvoroço no quartel. Capacetes azuis estupravam meninas e mulheres em troca de água e comida, denunciava a BBC, em reportagem especial. Circulavam, nos grupos de Whatsapp, fotos de soldados uruguaios, canadenses, franceses e brasileiros nus com meninas de doze, treze, quatorze anos no colo. O sorriso e a branquidão dos corpos contrastavam com a negritude dos corpos de nenhum sorriso. Havia três não brancos, todos brasileiros. O subtenente Marcos reportara a seus superiores quando as fotos chegaram até ele. Não crie caso por tão pouco, os homens estão sob forte tensão, Marcos, dissera-lhe o capitão, dispensando o tratamento formal, Não seja moralista, esse é um mau caminho. E logo o excluíram do grupo de Whatsapp. Passara a almoçar e jantar sozinho. Ninguém lhe dirigia a palavra, a não ser para dar ordens.

O caso já estava mais ou menos abafado quando vazou um vídeo em que quatro soldados uruguaios estupravam um menino. Este vídeo viralizou e repercutiu nas manchetes dos jornais mais lidos do mundo. O governo uruguaio e a ONU foram obrigados a dar justificativas no mesmo dia. Reportagens especiais foram ao ar com o histórico de abusos e violência que seguia o rastro dos exércitos pelo mundo. Crescia a indignação contra as tropas nas ruas de Porto Príncipe e, principalmente, nos interiores do país. E logo, dentro da Minustah, alastrava-se um descontentamento com o comando, e toda a gente sabe que se uma casa se divide contra si mesma, tal casa não pode subsistir.

Angustiado, Dimas anda de um lado para outro com a arma em punho. Há meia hora estão cercados pela polícia, por câmeras de tevê e por milhares de curiosos. Tu vai amarrar as mãos de todo mundo com isso daqui, diz Gérson a Marcos, apontando para lacres de nylon usados para fechar sacolas. Por quê?, pergunta Marcos, Está todo mundo no chão, ninguém fez nada até agora. Porra, alguém te disse pra perguntar alguma coisa, caralho?, grita o mais baixo. Marcos baixa a cabeça. As mãos vibram, está pronto. Sua mãe chora.

Senhor, a multidão não vai dispersar, senhor, avisara Marcos ao capitão responsável pela operação. Faça com que eles recuem, Cabo, ordenou o capitão. Mas eles não estão cometendo crime, senhor, estão reclamando da falta de água na comunidade deles. Nós estamos aqui para manter a ordem, Cabo Marcos, não se esqueça. Mas são semanas, capitão, eles estão sem água há semanas! Avançar!, gritou o capitão, e logo um grupo começou a atirar para cima, abrindo espaço para a polícia haitiana, que distribuía bombas de efeito moral em todas as direções. Um deputado, vestido em um terno surrado, berrava e brandia seus documentos. Queria falar com o comandante da operação. Senhor, disse Marcos, ele é deputado, é uma autoridade. Autoridade? Você está vendo alguma arma nas mãos dele?, respondera o comandante da operação, um francês de quarenta e cinco anos, Ele tem que dispersar também, todo mundo daqui para lá tem que dispersar, merda!

A gente tem que negociar, cacete, argumenta o sequestrador mais baixo, enquanto Marcos ata as mãos das pessoas, Se a gente não for lá, uma hora ou outra eles estouram isso aqui. Se algum de nós colocar a cara lá fora, vai levar tiro, tu tá pensando que isso aqui é Hollywood, maluco?, questiona Gérson. O que é que a gente vai fazer, porra, grita o mais baixo. Já sei, diz Dimas.

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).