Descobri as respostas do ENEM. Do Exame Nacional do Ensino Médio mesmo. O teste com 190 perguntas mais a produção de texto. Consegui até acesso ao tema da redação e a um modelo de nota mil. Com todo aquele gabarito em mãos, alguns dias antes da prova, seria fácil conquistar uma nota capaz de me colocar em uma faculdade de Medicina Veterinária e me tornar a garota pela qual a família se orgulharia.

Minha mãe, no entanto, não ajudou em nada, entrando no meu quarto e me fazendo despertar desse sonho tão cremoso. Já eram 6 da manhã, hora do banho para a escola. E de ouvir mamãe falar: “Você já tem 17 anos, Nívia! Deveria ser mais responsável, ativar o despertador, acordar sozinha”, seguido do clássico “porque no meu tempo…”, que já se tornou atemporal.

Antes da primeira aula, enquanto tentava encontrar uma chave mental que mantivesse minhas pálpebras abertas, comentei o sonho com as amigas. Foi o suficiente para Gabriela gaguejar:

– E se a ge-gente procura-rasse uma fo-forma de hackear o site do gove-verno?

Mesmo com o problema na fala, geralmente era fácil compreender o que Gabi dizia. Nesse caso, no entanto, a ideia foi tão fora da realidade que pensei ter entendido errado. Mas Flávia rebateu:

– Nem se a gente fosse a versão feminina e adolescente do Mark Zuckerberg.

– O professor de informática disse que sou boa – Alessandra se gabou.

– O Geraldo só disse isso porque você dá em cima dele – Taciana ironizou.

A partir de então, a conversa se tornou um festival de teses e contra-argumentações que, se fossem transcritas em prosa, seriam uma excelente dissertação. Gabi mandou um “e se a gente tentasse?”, ao que Flá replicou com “nem sabemos se o gabarito está na nuvem”. Alê soltou um “mas eu poderia tentar alguns códigos” e foi driblada pelo “seríamos pegas e punidas por crime virtual” de Taci.

Eu até cheguei a falar de camuflar IP, usar navegador anônimo, bloquear os comandos de upload…, mesmo sem saber muito bem o que isso tudo significava. Quem ficou sem dizer nada, ouvindo tudo desde o início foi o Felipe.

Há uma cláusula no regulamento das amizades femininas que garante que para cada grupo formado por cinco meninas, um menino pode estar presente para fazer companhia. Mas também há o parágrafo único: se ele for heterossexual, não poderá ficar com nenhuma das meninas, para evitar abalos na amizade.

Felipe era o menino do nosso grupo e, mesmo que já tenha arrancado alguns suspiros de mim e me feito imaginar a frase “Nívia e Felipe” inscrita em uma aliança de compromisso, se mantém sem trocar saliva com nós cinco. Ele, então, abriu a boca para falar de gráficas, assunto que dominava porque o pai era dono de uma.

– Por que vocês estão pensando só no arquivo digital se a prova do ENEM também está no papel? Sabiam que o governo faz licitações periodicamente para selecionar a gráfica que ficará responsável pelas impressões?

Nenhuma de nós estava interessada em saber do processo licitatório e da burocracia governamental que havia por trás do exame. Mas Taci era a única com coragem de interromper:

– Tá louco, Felipe? O que é que isso tem a ver com o que estamos querendo?

– Tem a ver que vocês nem imaginam qual foi a gráfica que ganhou a cotação.

Quando ele contou que o pai dele tinha assinado contrato com o Ministério da Educação, a gente arregalou os olhos e eu até quebrei nosso acordo de irmandade, dando um selinho que ele não recusou. Entretanto, ele foi claro: ouviu que as provas já haviam sido encaminhadas para a distribuição, mas que o protótipo deveria estar em algum lugar da empresa, possivelmente trancado em cofre.

– A ordem foi segurança máxima, para que não houvesse furto ou extravio, como em anos anteriores.

Gabi até se decepcionou:

– Então fu-fu-fu…

– Não “fu-fu-fu” nada! – Flá se intrometeu. – Agora até me animei. Vamos armar um esquema para entrar lá. Você é filho do dono, ninguém vai desconfiar.

– Não é bem assim, meninas… – Felipe se resguardou. – Eu nem devia ter contado isso. Aliás, eu nem devia estar sabendo disso. É assunto confidencial, entre meu pai e poucos funcionários. Escutei porque sou bisbilhoteiro.

Estávamos a poucos dias da primeira parte da prova, a pressão simplesmente nos fazia ter pesadelos e, se havia alguma chance de garantir a nota máxima, lutaríamos por ela. Cabulamos a aula de matemática para esquematizar o processo de invasão à gráfica, durante a noite.

O plano era o seguinte: durante a tarde, eu iria com o Fê conversar com o pai dele na gráfica e supostamente esqueceria meu celular em algum canto da sala. À noite, quando o homem já estivesse indo dormir, o Fê falaria que liguei desesperada na casa dele por causa do celular. Para que o pai não precisasse ir até a empresa, o Fê pediria a chave e diria que não teria perigo porque o vigia estava lá. Ele, então, sairia de casa, encontraria a Alê no meio do caminho e iriam juntos para a gráfica. Lá, ela se encarregaria de distrair o vigia, para que ele não acompanhasse o Fê, que vasculharia os arquivos do setor de produção até achar o protótipo da prova.

Taci pensou em tudo praticamente sozinha. Quando Fê perguntou o que aconteceria se ele não topasse, ela apresentou a consequência com ênclise: “Meto-lhe um chute no saco!”. Para evitar a dor real – que deveria ser mais intensa do que imaginou – ele consentiu.

Fiz tudo como combinado e já era quase meia-noite quando recebi uma mensagem da Alê: “Em mãos”. Senti até um frio quente na espinha, contradição formada pela alegria de termos realizado uma façanha épica e pelo peso na consciência de estarmos sabotando a maior prova do Brasil. Mal consegui dormir e, quando minha mãe apareceu para me acordar, eu já estava pronta.

Cheguei à escola bem antes da primeira aula e me deparei com a Taci e com a Gabi já presentes, tão ansiosas como eu. Logo a Flá e o Fê chegaram. E então a Alê, com um sorriso torto da orelha direita à metade da bochecha esquerda. Fomos para um canto mais reservado e ela tirou da mochila a pasta, com a capa escrita em caneta piloto: ENEM.

– Você já abriu? – perguntei.

– Não – ela respondeu. – Quero compartilhar a emoção com vocês. Todas juntas.

E então ela tirou de dentro o protótipo, a folha original que serviu como molde para a impressão das demais. A figura de Santo Expedito, ao lado da oração para as causas urgentes. No cabeçalho, a discriminação do material: “Expedito (Núcleo Eclesiástico) – Milheiro”. ENEM. Lemos a oração em voz alta e ficamos absolvidos do pecado.

Escrito por João Paulo Hergesel

Nascido em 25 de julho de 1992, João Paulo Hergesel é um escritor brasileiro residente em Alumínio (SP). É doutorando em Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi (UAM), mestre em Comunicação e Cultura e licenciado em Letras pela Universidade de Sorocaba (Uniso). Dedica-se à produção literária, com foco na literatura infantojuvenil, e à pesquisa na área da Narrativas Midiáticas com foco no estudo do estilo. Autor de livros com temáticas diversas e com participações em várias antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais – entre eles: Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), Cancioneiro Poético (Instituto Piaget Portugal), Concurso Monteiro Lobato de Contos Infantis (SESC-DF) e Prêmio Ganymedes José de Literatura Infantil e Juvenil (União Brasileira dos Escritores).

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