Mateus

Estamos aqui há quase uma hora e isto não parece estar próximo do fim. Cada passo dado pelos nossos sequestradores adiciona tensão ao ambiente. Como na vida, por mais incômoda que seja a situação, aos poucos as pessoas se resignam e o desespero dá lugar à impaciência que antecede a definição. As chances de tudo acabar bem são remotas. Ainda mais com o governador que temos. Lembro-me muito bem das vezes que esteve com meu pai, tomando uísque na varanda do nosso apartamento. Bastava que alguém aludisse a críticas, feitas por qualquer jornaleco ou parlamentar da oposição, para que se transtornasse. Ele perde a cabeça por qualquer coisa, certamente não faz a mais pálida ideia do que fazer.

Era uma manhã de janeiro e eu tinha acabado de ser acordado por meu pai e pela minha mãe que, ao pé da cama, sorriam para mim. Apesar de ter passado no vestibular da USP, na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, não entendi o motivo daqueles sorrisos em um primeiro momento. Fui entender apenas mais tarde.

Arrume-se para passar quatro dias fora, disse-me minha mãe. Eu ainda não sabia, mas iríamos a São Paulo. Meu tio tinha escolhido um apartamento para mim na Oscar Freire, e meu pai o alugara. Foi um feriado muito agradável, em companhia de meus tios, meus primos e meus pais. Eu já tinha ido a São Paulo muitas vezes. De férias, em feriados, em festividades familiares, aniversários. De modo que eu conheço a cidade desde muito novo. Mas a partir daquele mês, eu iria morar sozinho na metrópole. O Rio é a minha casa, mas aqui tinha sempre sido tutorado por meus pais. Lá seria diferente, era o que eu pensava. Apesar de estar a duas quadras de meus tios, o apartamento era meu, as chaves as teria eu, e, ademais, tio Bernardo sempre foi muito mais liberal que papai, um catolicão conservador. Ledo engano, descobriria depois. Minha mãe passou a me visitar de quinze em quinze dias. No começo, até avisava, mas depois passou a chegar como se não precisasse dizê-lo. Em seis meses já tinha a chave do apartamento e o porteiro já nem a anunciava. Era de novo o apartamento de meus pais, apesar da ausência dos dois durante a semana.

Aquela morena podia ter algo a ver com isso. Já é a segunda vez que troca olhares com aquele marginal. Caso típico. Garçonete, cheia de problemas com o patrão – apesar de nunca tê-lo dito a ele diretamente –, provavelmente mora no Vidigal, assim como esses três. Não seria a primeira vez, não seria a última. Esse é um problema tipicamente brasileiro: ninguém quer subir pelos meios legítimos. Tem a ver com a nossa colonização, pois foram enviados para cá apenas a baixa vagabundagem portuguesa. É o garçom que desvia dinheiro do caixa, é o cobrador de ônibus que recebe um por fora para deixar as pessoas descerem pela frente, é o pedreiro que superfatura no cimento para ganhar a mais, é o prefeito que cobra propina para favorecer este ou aquele na licitação. Tudo igual. É mesmo como diz o professor Karnal, não há governo corrupto em país de povo honesto. Por isso podia muito bem ser aquela garçonete. Apenas um quarto do que eles poderiam levar daqui e ela já não precisaria mais trabalhar. A conta é simples.

Quando me formei, logo voltei para o Rio em definitivo. No último ano de graduação, estive aqui todo final de semana, me ambientando ao lugar em que trabalharia assim que pegasse o diploma. Moreira e Garboni, escritório de advocacia renomado. O segundo nome é o do meu pai. No começo foi muito difícil, porque os maiores clientes ficavam com o velho Garboni e com o seu sócio minoritário. Digo minoritário não porque queira diminuir o velho Moreira, mas porque isso explica o motivo pelo qual o filho dele, Alberto Moreira, em vez de seguir no escritório – ele também formado em Direito, mas na Estácio –, comprou a franquia dessa cafeteria em que agora estamos todos sequestrados.

Veja Damião, por exemplo, disse-me meu tio, certa vez, Ótima pessoa, está conosco há uns três anos. Antes dele tinha o seu Fernando, que ficou na família quantos anos?, sei lá, uns trinta, pelo menos, e sempre foi tratado muito bem por papai, participou da criação dos meninos, dormia aqui nos dias que precisava, enfim, conviveu diariamente com a gente. Damião é mais novo, faz muito mais coisas e é mais esperto. É, interrompeu-lhe Duda, meu primo que cursava arquitetura no Mackenzie, Mas o irmão dele já foi pego com droga, duas vezes. Pois é, retomou meu tio, Era disso mesmo que eu ia falar: a índole dessa gente é mole, sempre chega contando histórias de que trocou isso por aquilo, fez não sei qual serviço para um e outro fora do expediente, levou não sei o quê para não sei onde, mesmo tendo emprego com carteira assinada, que é assinada há muito tempo, diga-se, muito antes dessa leizinha aí. Mas isso não está fora da lei, né?, questionei, na ocasião. E o que está fora da lei no Brasil, meu filho?, respondeu-me meu tio, Pode tudo nesse país! O que estou dizendo é que ninguém sabe o que é que ele leva e para onde leva e para quem, e a gente sabe que, infelizmente, quem domina essas favelas é o tráfico e o PCC, então, dá o que pensar, não é direito. E mesmo assim ninguém quer sair de lá, viu?, complementou Duda, Os barracos caindo aos pedaços, semana passada eu fui em uma dessas favelas com a facul, tipo os caras nem têm teto direito, tudo caindo aos pedaços, mas a televisão é duzentas polegadas, tem foto na parede de viagem para o Nordeste, bebem todo dia.

Aquele negro até podia ter algo a ver com esse assalto também. Apesar de parecer policial e de estar com a sua mãe, ele acabou de atar as mãos de todos, menos as dele. Agora, apenas ele e os três assaltantes estão com as mãos livres, apesar de ele ter atado muito mal as minhas mãos e eu sentir que posso, com algum dano, me livrar desse nó. Por que os sequestradores permitem? Não perceberam? Acho difícil. É certo que estão nervosos, como já era esperado, mas esse não é qualquer detalhe. A mãe pode ser um álibi muito seguro, apesar dessa manobra exigir bastante sangue frio, pois numa situação dessas, a qualquer momento, algo pode dar errado. Aliás, pensando melhor, o fato de ser policial apenas joga mais suspeita sobre ele. Não parece ter uma alta patente. Deve receber mal. Certamente, com um quarto do que podia ser apurado aqui, já não precisaria se preocupar com nada.

O primeiro cliente que peguei, herdei de Alberto, que estava de saída do escritório quando eu entrei. Uma causa quase perdida de um comerciante que empregara três haitianos para carregar caixas em seu supermercado. Pagava menos que o mínimo, os homens moravam num quartinho nos fundos do supermercado, mas tinham teto, comida, roupas lavadas, segurança, trabalho. Alguém o denunciou. Um absurdo. Essa gente chega aqui com uma mão na frente e outra atrás, e se não é alguém que lhes dê um ganha-pão, por ruim que seja, vão fazer o quê? Pedir esmolas? Já não basta os nossos pedintes? Agora exportaremos mendigos?

Alberto não soubera argumentar, é a minha opinião. Todos criticavam, falava-se, na imprensa, em trabalho escravo. Uma repórter me perguntou se eu achava justo o pagamento dado aos haitianos. Eu devolvi a pergunta: por que o dono do seu jornal não contratou essas pessoas? Se não fosse o meu cliente, essa gente que vocês protegem com palavras estaria à mercê de esmolas, bicos e, o que é pior, pequenos furtos. Se o governo permite que venham para o nosso país, que, pelo menos, contribuam e trabalhem para o funcionamento da nossa sociedade. O que não dá é para criticar sem apontar qualquer alternativa. Estamos diante de um caso jurídico novo, criado pelo mundo globalizado. Teremos que criar jurisprudência para isso. Neste momento, eles estão em um abrigo recebendo uma bolsa do governo, dinheiro do contribuinte. Está melhor que antes, quando eles ganhavam seu próprio sustento e ainda tinham morada gratuita, bancada pelo meu cliente? Estão mais dignos?

Mesmo aquele jornalistazinho que passa as manhãs aqui, acho que é parisiense, mas quase não tem sotaque, podia estar envolvido nesse assalto. Apesar de correr a notícia de que ele recebeu uma bolada por danos morais lá na França. Aliás, mesmo essa mulher, que agora se arrasta pelo chão, consolando a um e a outro, enxugando as lágrimas das pessoas mais desesperadas e orando num quase dialeto do português, na sua simplicidade, podia ser cúmplice desses assaltantes. Inclusive podia ser parente de algum deles. Nunca ninguém saberia, porque a polícia brasileira, para investigar, não tem olhos. Fosse nos Estados Unidos e já se saberia quem são as pessoas presas aqui, assaltantes e reféns, mas aqui, certamente, lá fora, não se sabe nem quem está assaltando, nem quem está sendo assaltado.

Eu ganhei a ação do empregador dos haitianos, que voltaram a ser empregados no supermercado, com a condição de terem suas carteiras assinadas e os salários equiparados ao mínimo vigente. De qualquer forma, uma vitória, que Alberto não seria capaz de arquitetar. Mesmo o velho Moreira sabia disso. Por isso montou essa cafeteria para ele. Tomo meus cafés aqui, todas as manhãs, para ajudar o amigo. Aqui percebo um pouco de sua rotina. Ele aparece pouco, mas sempre por motivos interessantes, sempre envolvido em outras negociações, procurando sócios para diversificar os negócios. Nem sempre negócios às claras, que também é preciso proteger o patrimônio do paternalista Estado brasileiro. Pode não levar jeito de advogado, mas não é bobo. Aqueles dois homens que estão no chão, que tiveram sacola e mochila roubadas pelos assaltantes, negociavam uma sentença. Não por acaso aqui. Não por acaso Alberto não está aqui.

O fato é que esses três simplórios imbecis não teriam uma ideia tão ruim sozinhos. Assaltar uma cafeteria movimentada em plena luz do dia, no Leblon. É óbvio que daria nisso que está dando. Seria preciso um elemento que garantisse a eles alguma chance de sucesso e uma recompensa muito grande, para que o risco valesse a pena. Alguém que soubesse dessa negociação. Não à toa eles não largam a mochila e a sacola. No exercício da minha profissão, a gente aprende a pensar com a cabeça do bandido. Qualquer um desses, aqui jogados no chão, podia ser o arquiteto de toda essa cena. Não seria nenhuma novidade, aliás, seria até meio óbvio.

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).

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