O terceiro poema a figurar na Série Québec é, indiscutivelmente, um dos poemas políticos mais comentados e debatidos da província canadense. Escrito em 1968 por Michèle Lalonde, “Speak white” deve seu título à expressão racista que era usada para agredir aqueles que não falavam inglês, ou melhor, que pertenciam a um grupo marginalizado em relação aos “senhores” (canadenses de origem inglesa). Escravos e outros povos francófonos, assim, eram humilhados e forçados a não falar francês em público. Segundo uma pesquisa de Michele Sodré (UFRJ), essa injúria foi proferida até meados dos anos 1960, quando teve início a chamada Revolução Tranquila e a subsequente criação do Partido Quebequense, reivindicando independência à província.
O poema de Lalonde, considerado por alguns como separatista, tem como pano de fundo o abismo entre o estereótipo do canadense inglês (dominante) em contrapartida ao do canadense francês, considerado por aquele como sujo, inculto e, em todos os aspectos, inferior – incapaz de criar sua própria literatura. Nos versos irônicos de Lalonde, o inglês seria a língua da alta sociedade e da vida refinada, a língua do poder, das ordens e do lucro – a língua dos brancos. O francês, por sua vez, seria a língua bárbara que só pode ser pronunciada dentro de quatro paredes, a língua da realidade vivida pelos operários, um povo que não se esquece dos sofrimentos passados (e por isso “rancoroso”). É, por fim, com um pesar cheio de fraternidade que Lalonde termina seu poema: dizemos que tudo vai bem e, afinal, não estamos sós nessa condição – não somos o único povo oprimido dentro do nosso próprio território.

Speak white

Speak white
é tão bom ouvir vocês
falarem de Paradise Lost
ou do perfil gracioso e anônimo que estremece dos sonetos de Shakespeare

nós somos um povo gago e sem instrução
mas não somos surdos ao gênio da língua
falem com o sotaque de Milton e Byron e Shelley e Keats
speak white
e perdoem-nos por ter como resposta
somente os cantos roucos dos nossos ancestrais
e os lamentos de Nelligan

speak white
falem sobre isso ou aquilo
contem-nos da Magna Carta
ou do monumento a Lincoln
do charme cinza do Tâmisa
da água rosada do Potomac
contem-nos de suas tradições
como povo não somos brilhantes
mas temos competência para apreciar
toda a importância dos crumpets
ou do Boston Tea Party
mas quando vocês really speak white
quando vocês get down to brass tacks
para falarem de gracious living
e de padrão de vida
e da Grande Sociedade
speak white, então, um pouco mais alto
ergam suas vozes de capatazes
nós temos um pequeno problema de audição
nós vivemos muito perto das máquinas
e debaixo das ferramentas só conseguimos ouvir nossa respiração

speak white and loud
para que possamos ouvi-los
de Saint-Henri a Saint-Domingue
sim que língua formidável
para contratar
dar as ordens
fixar a hora de trabalhar até morrer
bem como da pausa que refresca
e revigora o dólar

speak white
tell us that God is a great big shot
and that we’re paid to trust him
speak white
falem conosco sobre produção, lucros e porcentagens
speak white
é uma língua rica
para comprar
mas para vender
mas para vender a alma
mas para se vender

ah!
speak white
big deal
mas para contar-lhes
da eternidade de um dia de greve
para contar a história
de como vive um povo de operários
mas para que nós voltemos para casa à noite
na hora em que o sol está morrendo acima das vielas
mas para vocês dizerem que o sol dorme sim
ao leste de seus impérios todos os dias de nossas vidas
nada supera um linguajar de baixo calão
nossa língua suja
manchada de graxa e óleo

speak white
peguem leve com suas maneiras de falar
somos um povo rancoroso
mas não vamos criticar ninguém
de ter o monopólio
da correção da linguagem

na doce língua de Shakespeare
com o sotaque de Longfellow
falem um francês puro e terrivelmente branco
como no Vietnã ou no Congo
falem um alemão impecável
uma estrela amarela entre os dentes
falem russo, dê ordens, falem repressão
speak white
é uma língua universal
nós nascemos para compreendê-la
com suas palavras lacrimogêneas
com suas palavras-cassetetes

speak white
tell us again about Freedom and Democracy
nós sabemos que liberdade é uma palavra preta
assim como a miséria é negra
e como o sangue se mistura com a poeira das ruas de Argel ou de Little Rock

speak white!
de Westminster a Washington, revezem-se
speak white como em Wall Street
white como em Watts
sejam civilizados
e compreendam quando falamos de circunstâncias
quando vocês nos perguntam educamente
how do you do?
e quando ouvimos vocês responderem
we’re doing all right
we’re doing fine
we
are not alone

nós sabemos
que não estamos sozinhos

 

Michèle Lalonde, 1968
Tradução original do francês por Lidia Rogatto

Escrito por Lidia Rogatto

Lidia Rogatto nasceu em Londrina, em 1989. É tradutora (FR, ENG), revisora e consultora linguística no Ateliê da Tradução.