Machihuahua
minha branda valentia
repousa em si medos
vísceras vícios misérias
bravas as dores bradam
[nos dissabores dos dias
nos dessaberes da vida
saberá o sábio destino
.
: há amor há sacrifício
leite lágrima intempérie
quase nada me derrama
quase tudo me transborda
.
de luzir poroso
de mirar rasante
meus olhos carregam cicatrizes acuradas
feridas consumadas pela consciência do não-ser
a dor que racha
a ferida que range
o sangrar que trinca
 .
minha branda valentia
repousa em si ermos
conflitos confrontos erros
bravas as dores bradam
[nos dissabores dos dias
nos dessaberes da vida
saberá o sábio destino
.
: há risco há riso
sombra sobra azedo
a quase nada me entrego
a quase tudo me enfrento
 .
de voz rouca
de ouvidos mudos
minhas lágrimas são raras
: águas santas que banham os olhos
não merecem ser gastas
pelos desgastes dos monstros e assombros
excessos de gestos ocos e sussurros acumulados
nas bocas sem idiomas
 .
minha branda valentia
repousa em si ânsias
torturas tormentas angústias
bravas as dores bradam
[nos dissabores dos dias
nos dessaberes da vida
saberá o sábio destino
.
: há caos há curas
ferrugens fuligens buracos
o nada caminha para o tudo
o tudo repousa a travessia
 .
de corpo de aço
de destino de pássaro
de coração de lata
mal nenhum me sofre
mal nenhum me sorve
me arrependo do não feito
me arremesso nos efeitos
feito vinho ou vinagre me bebo
consagro meus cálices sem sangrar meus cortes
sangro meus pecados sagrando minhas chagas
.
minha branda valentia
repousa em si audácia
providência procedência esperança
bravas as dores bradam
[nos dissabores dos dias
nos dessaberes da vida
saberá o sábio destino
.
: há luta há loa
vitória virtude fruto
por nada a vida nos confia a busca
por tudo o destino nos abençoa a sorte
 .
da negrura à temperança
da tempestade à bonança
do flagelo à fé
.
conversos rogaram por mim os amargos
conversos rogaram por mim as mediocridades
conversos rogaram por mim os pecados
anjos os sonhos despertaram realidades
anjos as realidades despertaram verdades
anjos as verdades me abriram as portas do céu
incrédulo de tamanho reflexo Deus derramou
sob mim suas lagrimas.
: os versos autorais inéditos compõem na íntegra o poema “Lágrimas”.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.