PEDRA MOLE, ÁGUA DURA

(André Nogueira)

“Em 2015 e 2016, Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, colecionou medalhas em competições estudantis na cidade do Rio de Janeiro. Mais habilidosa no basquete, ela sonhava em se tornar atleta profissional e se preparava para isso na escola. Na tarde de ontem (30), a adolescente foi morta com dois tiros na cabeça e um no tronco, dentro da escola municipal Daniel Piza, quando treinava com a equipe de educação física… Testemunhas relatam que policiais atiraram contra homens que estavam perto da escola, esses tiros teriam atingido a quadra e também a sala de direção. Professores relatam os mesmos fatos e contam que tentaram proteger as crianças nos corredores. A turma na quadra, no entanto, estava mais exposta. A família questiona que a morte tenha ocorrido por bala perdida: ‘bala perdida é um tiro, não três’”. (Recorte de notícia de jornal, 31 de março 2017)

* * *

Qualquer rua que eu pegue
é uma árvore cortada.
Cada página que eu vire,
uma troca de tiros
num colégio,
um corpo caído na quadra.

Via de regra,
uma operação de guerra
com a pior das estratégias:
do quartel da infantaria ao infantil um.
O caminho mais curto
para um alvo comum…

Escuto:
caiu uma colher no andar de cima.
Viro de lado na cama,
o outro ouvido se aguça:
o soluço
da criança
pelo leite
que derrama.

Casa própria, quem não sonha?
O beijo áspero da insônia
após muito mastigar o meu espírito
me cospe
da janela do cubículo
à próspera metrópole dos ricos
e dos pobres.

Como um copo caído
o corpo na cama estatela,
o coração cai no carpete.
Já me vou pela janela
como seta de alabarda…
Num arredor desconhecido
o pesadelo se repete:
a colher
que se converte
em fuzil
na mão do guarda.

O disparo à queima-roupa
em quem nem roupa tem
somente às vezes
dá manchete:
“Maria Eduarda,
13,
jogava basquete
na quadra”.
Os tribunais se abstêm.
A ninguém a tropa poupa
e quando acerta uma criança
quase ganha dos jornais os parabéns.

Num bairro de classe média,
o soluçar da ambulância,
o choro arrependido do caminhão de gás…
Espiam das janelas os vizinhos assustados
e por todo o prédio
suam frio os azulejos…
Em qual boca de fogão o bom rapaz
terá dado seu último beijo?

Qual terá sido
a bad trip do
corpo estendido
no paralelepípedo?

E este que dorme profundo
abraçado ao corote
no coreto da cidade?
Não abraça, acaso, a morte?
Quantos desiludidos por segundo
no mundo da pós-verdade!

As mansões se erguem aos eleitos entregues
em grinaldas elétricas que cospem faíscas…
Para os prósperos se abrem os caminhos.
Próximo cospem
os homens de quepe
e com ódio confiscam
de um pobre catador o seu carrinho.

Qualquer rua que eu pegue
é rota sem alternativa:
de um lado o carro-forte
repleto de cheque,
de outro o esquadrão da morte
em suas “rondas ostensivas”.
Nessa rua qualquer
que divide o Brasil,
o fuzil é colher
e colher o fuzil.
Estou fadado a ir por ela
declarando estas rimas quase estúpidas,
enquanto na tv alguém ao vivo
conjuga o verbo “estupra”
no modo imperativo.

Por esta rua um dia eu volte
e arregalem-se as janelas
quando içarem da revolta
e negra vela
para além do horizonte do valor do combustível.

O coração da boca,
que as lágrimas engole
mas não cala para a época cativa,
é dele a glória e o milagre
de mais forte bater que a louca dor
da pedra mole do petróleo
e a água dura da saliva.

Abril 2017

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com