A Fotógrafa Mercedes Lorenzo, “paulistana da gema”, como gosta de dizer, com seu olhar sempre carregado de muita poesia fala sobre sua arte, seus trabalhos e, em especial, sobre o projeto Barraginhas, que ganhou livro e está mudando a cara do Cerrado e Semiárido mineiro.

Qual a primeira memória que você tem de interesse pela fotografia? Houve alguma situação específica que te motivou a adentrar nessa arte?

R: Eu sempre estive envolvida com a imagem, de uma forma ou de outra… Minha vida profissional começou com desenho, na época trabalhando com desenho animado comercial quando ainda era tudo feito artesanalmente e informática era um lance obscuro reservado a nerds iniciados. Então essa relação com a imagem vem de muito tempo, eu penso as coisas visualmente, a estética das coisas tem uma significância para mim. Acho que a fotografia foi uma decorrência meio natural disso, mas eu não sei dizer assim um marco de memória específico que seja o ponto zero. Hoje em dia eu tendo a pensar que o conjunto de experiências na vida da gente é todo ele interligado e todas tem relação entre si e com algo de fundamental na nossa busca pessoal.

O que você mais gosta de fotografar?

R: Eu descobri que cada tipo de tema e cada tipo de trabalho ou autoral tem uma pegada própria e maravilhosa mesmo quando parece simples. Eu já tive muita emoção por exemplo fotografando cavalos, foi uma experiência incrível. Mas não tem dúvida que o desafio de fazer um retrato exige da gente mais do que simples técnica: exige aquela arte da empatia, da minha humanidade que se depara com a humanidade do outro. Então eu brinco dizendo que no fundo é tudo nudes, mesmo que estejamos todos vestidos. A gente está sempre mostrando mais do que conscientemente acredita.

 1 - descendo a ribanceira de dona Coca 1

 

Sua relação com a fotografia e a linguagem escrita é muito próxima, não é mesmo? Acredita que há semelhanças entre uma e outra arte? Onde, para você, elas se encontram e se separam?

R: Apesar de ter feito algumas incursões pela palavra, fosse com prosa ou poesia, eu acho que são duas linguagens bem diferentes, quando a gente fala sobre imagem e palavra. Faz um bom tempo que não escrevo, salvo um ou outro textinho em rede social, então hoje a minha expressão e produção está mesmo mais focada na imagem. Mas eu sempre fui uma leitora atenta, eu sinto que a fotografia é uma forma de síntese daquilo tudo que você vivencia, lê, escuta… Antropofagicamente.

Fale um pouco do que é o projeto Barraginhas, da experiência que foi fotografar o Cerrado e o Semiárido mineiro e, depois, ver esse trabalho em livro.

R: Eu vou tentar resumir, mas não é muito fácil pra mim. Se você quer me ouvir falar pelos cotovelos basta entrar nesse assunto do projeto barraginhas… Eu me empolgo. De uma maneira bem simplista, o projeto barraginhas trata da coleta de águas das chuvas e enxurradas, através de pequenas barragens ou bacias escavadas na propriedade rural. Dito isto, a transformação que elas representam nas regiões de seca em termos de aporte de água, produção de alimentos, preservação do solo, resgate da dignidade dos pequenos agricultores e populações que viviam em penúria dos mais básicos recursos – é de arrepiar até o mais insensível e alienado dos mortais. O entorno das barraginhas numa área rural passa a ser um verdadeiro oásis de abundância hídrica, a ponto de ter excedente para criação de peixes em lagos criatórios e a ponto de fazer brotar minadouros e perenizar rios e córregos que secavam durante a estiagem… Estamos falando de uma região do Brasil que tem estiagem prolongada, de dois terços do ano pelo menos. E estamos falando de uma tecnologia social de baixíssimo custo. Como não se empolgar com algo tão profundamente transformador?

Eu acompanho o trabalho do Luciano Cordoval desde 2006, primeiro pela internet, que foi a minha porta de entrada para o encantamento com esse projeto. Ele é o criador do sistema barraginhas e seu principal disseminador até hoje, é engenheiro agrônomo na Embrapa de Sete Lagoas em MG.

A partir de 2013 o livro começou a ser pensado como um registro necessário e merecido das transformações sociais e humanas decorrentes desse trabalho, além de garantir o relato histórico desde o comecinho, contextualizando uma jornada de décadas de capacitação de comunidades inteiras.

Além do resgate e restauração de fotos e documentos mais antigos, programamos as viagens para fotografar o Cerrado mineiro e o Vale do Jequitinhonha em momentos diferentes: durante a seca, no final do período de estiagem, e durante as chuvas. Esse contraste de imagens também é importante para quem está vendo o livro e o projeto pela primeira vez. Pra mim, pessoalmente, foi maravilhoso fazer parte de tudo isso. Eu sou paulistana, urbana até o talo, então foi um aprendizado profundo de Brasil, de roça, de humanidade, de acolhimento, de garra, de amor à terra (e sobretudo à água!)… Enfim, um privilégio sem tamanho.

Uma aventura não só profissional, porque nada nessa profissão é só profissional… Uma experiência para a vida. E depois de aproximadamente sete mil imagens registradas, pusemos mãos à obra na edição, diagramação, legendas, redação dos textos, enfim… Dois anos de dedicação desse time sonhador que nos tornamos: Luciano, Paulo Ribeiro (co-autor do livro e também engenheiro da Embrapa), e eu.

Em março deste ano de 2017 finalmente o parto se deu, e lançamos o livro com uma grande festa em Sete Lagoas, que foi muito especial porque contou com a presença dos produtores rurais que aparecem no livro… A emoção ali era palpável, à flor da pele.

Modéstia às favas, ficou lindo, um livro que consegue unir o conteúdo técnico de forma bem simples e com aquele toque poético e humano que quisemos imprimir desde o início.

2 - ensinar a pescar

Conte alguma experiência ou história que tenha vivido no contato com os moradores do Cerrado mineiro ou do Vale do Jequitinhonha.

R: Teve muitas histórias, muitos “causos” que ficaram guardados, mas um que ilustra bem o aspecto solidário daquele povo foi quando coincidentemente numa das nossas viagens ao Jequitinhonha estávamos em plena crise hídrica em São Paulo, sob racionamento diário de água e usando o tal do “volume morto” da represa. Contando nossas mazelas urbanas sem solução imediata ou sequer sustentável a longo prazo, a reação de nossos anfitriões, Seu Zé e Dona Côca, foi de absoluta consternação, sentindo a nossa privação como se fosse a deles em outros tempos. Eles sabem o que é conviver com a carência de água muito melhor do que nós. E hoje a pequena propriedade rural deles é um modelo de abundância e sustentabilidade em muitos sentidos, foram inclusive certificados como produtores orgânicos recentemente. E estão sendo pioneiros em outro aspecto importante: revertendo o fluxo migratório da seca, seus filhos e netos estão voltando da periferia de São Paulo, para onde haviam migrado anos atrás, para morar e trabalhar na terra que agora é rica em recursos hídricos e produz o suficiente para a família além de comercialização na feira do mercado local de Minas Novas. Há um capítulo do livro dedicado inteiro a essa família linda que eu tive a honra de conhecer.

Você participou da edição do livro sobre o projeto e também já teve a experiência de coeditar a extinta revista Rebosteio Digital, não é mesmo? Fale-nos dessa experiência de editar e se tem pretensões nessa área.

R: Sim, edição e diagramação do livro Barraginhas. Na realidade a experiência com a revista cultural Rebosteio me permitiu um aprendizado grande nessa área que não tem necessariamente a ver com o fazer fotográfico. E foi um aprendizado que aconteceu com naturalidade, enquanto era feita a revista, que tinha um caráter cultural de vanguarda e nenhum fim lucrativo, foi algo de cunho puramente idealista e que trouxe muitas boas pautas. O responsável principal por aquela aventura editorial foi o Rubens Guilherme Pesenti, que me ensinou um caminhão de coisas. Depois da terceira edição você, William, se juntou a nós como coeditor, até o encerramento. Foi algo de que todos temos orgulho em ter nos envolvido, apesar do trabalhão que dava e do stress que gerava. Eu pretendo, na medida do possível, continuar a me envolver com edição e diagramação, além da fotografia, porque me dá muito prazer em termos de resultado final e de integridade dos projetos. Tomara que as oportunidades apareçam.

Qual seria o seu conselho a quem quer se aventurar no universo da fotografia?

R: Não é bem um conselho, mas é uma constatação que também me foi passada pelos bons professores que tive… Fotografar muito, tudo o que puder. Depois de um tempo olhar com calma e algum distanciamento e se desapegar do que não ficou legal. Recomeçar tudo de novo, fotografar muito e ir repetindo esse processo de crescimento, de aprimoramento pessoal, enquanto vai se criando a sua forma única de ver as coisas, a sua marca individual no olhar fotográfico.

Obrigado pela generosidade da entrevista, pelas fotos disponibilizadas e, para finalizar, diga o que quiser ou achar relevante, o espaço é todo seu.

R: Eu que agradeço pela oportunidade, especialmente por poder divulgar um pouco mais o projeto Barraginhas, além de falar sobre o meu trabalho. Falar de si mesmo sem cair muito na armadilha do ego é difícil, mas se a gente parte do pressuposto de que algo da nossa experiência singular pode tocar a singularidade do outro e impulsionar novos modos de olhar, fica mais fácil. Cada um tem sua jornada, mas elas se entrecruzam para nos alimentar da diversidade que precisamos, na exata medida em que estamos prontos para o próximo passo, a próxima aventura.

 

Site: http://mercedeslorenzo-fotografia.com/

Blog: http://olhardelambe-lambe.blogspot.com

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Escrito por Willian Delarte

Escritor brasileiro. Autor dos livros "Sentimento do Fim do Mundo" (poesia), "Cravos da Noite" (contos) e "O Alien da Linha Azul" (poesia). Tem publicações em diversas mídias e antologias. Foi co-editor da revista REBOSTEIO Digital.