Madalena

De cá para lá e de lá para cá ela vai consolando os muito assustados. Agachada, engatinhando ou rastejando, conforta as pessoas. Ainda que tenha as mãos atadas, age. Algumas pessoas se consolam e param de chorar, outras não. Os assaltantes não a olham diretamente. Dimas tem a cabeça baixa, ela se parece muito com a sua mãe.

Dizem que ela foi dançarina de cabaré, quando muito jovem, mas há quem diga que foi apenas garçonete. Alguns, mais maledicentes, dizem que ela foi mesmo prostituta. Isso mesmo, diz seu Tonho, Meretriz, puta, vagabunda, entendeu?. Uma senhora já falecida, sua amiga de infância, conta que Madalena perdeu a mãe muito cedo, aos treze anos. O pai era caminhoneiro e ela tinha nove irmãos. Alguns o pai não considerava filhos seus e com esses era muito cruel. Ela era a primogênita, para sua graça e para sua desgraça. Para sua graça porque, por isso, não era molestada e marcada pelo pai, certo de que ela era sua filha; para sua desgraça porque, por isso, herdara o cuidado e a criação de todos irmãos, legítimos e ilegítimos, para o pai, todos saídos do ventre de sua mãe. Dizem que a tudo ela suportou com altivez e coragem. E nenhum deu para coisa ruim. Há quem discorde. Aquilo é gente muito ruim, diz Severa, uma vizinha.

Não se preocupe, minha filha, ela diz para uma jovem que soluça em um canto de parede, Vai dar tudo certo, eles levam as coisas e a gente fica em paz. Depois enxuga as lágrimas de um idoso que está sentado ao fundo do Café. Ele treme. Vamos orar, meu velho, ela propõe. Ele assente. Pai nosso, que estais no céu, ela começa. Santificado seja o vosso nome, ele prossegue. Uma mulher, próxima aos dois, segue-os: Venha a nós o vosso reino. Não agora, sussurra João, Por favor.

A polícia, até então imóvel do lado de fora, manda um negociador para falar com os sequestradores. Por cinco minutos conversam através de uma fresta da janela. Gérson, ao falar com o policial, esconde-se atrás de uma pilastra. Apenas Luca, que está muito próxima da porta, escuta o que eles falam.

Dizem que ela é catimbozeira, que faz despacho e que bate bombo. Basta encomendar alguém para ela, para o bem ou para o mal, e ela dá um jeito, dizem. Um policial, de nome Álvaro, que foi seu vizinho de muitos anos, quando ela morava em Madureira, reporta a quem quiser ouvir que ela teve um caso com um padre, quando ainda era uma mocinha, em seus treze ou quatorze anos. Caridoso, generoso, atencioso com os pobres que assomavam à sua Igreja para pedir conforto material ou espiritual, ele; ela, ardilosa, na ânsia de escapar de seu destino trágico, do ter que cuidar daquele monte de menino que sua mãe deixou para trás, ia à missa e se sentava nas primeiras fileiras, sempre. Sua sina também não era das melhores, diz-se. Mesmo estando acompanhada daquele mundaréu de irmãos e irmãs, trazia as pernas de fora, bem torneadas e lisinhas, roliças, relata o policial. Não há quem resista, não, completa para quantos quiserem ouvir. O padre, pelo menos, não resistiu e investiu contra a menina Madalena. Dizem que ela frequentou o seu quarto por dois anos e meio, até o trágico dia em que o padre apareceu enforcado em seu quarto, na casa paroquial. Não foi ela, diz o policial, Que menina daquele tamanho não sustenta um padre gordo daquele, mas tenho certeza que foi um trabalho que ela fez. O vizinho do outro lado, um pedreiro capixaba de nome Gustavo, diz que foi por essa época que o pai dela se casou de novo, botando outra mulher para criar os oito filhos. Sim, oito, porque Madalena já tinha dezesseis anos e a mulher ficou com ciúmes. Para morar com a família, exigiu que Madalena fosse para a rua, para não haver competição. Duas mulheres não dá certo pruma casa, dissera ela. O pai prontamente aceitou. Abriu a carteira, tirou mil cruzeiros e disse: Madalena, apronte suas coisas e suma, precisando de mim, sabe que pode me encontrar no posto de Caxias, todo sábado. Dizem que Madalena nunca mais viu o pai. Menininha orgulhosa e mal-agradecida, diz dela a madrasta.

É o seguinte, anuncia Gérson, A gente fez um acordo com a polícia e tudo vai acabar já, já. Ouve-se um buchicho percorrer o Café. Xiu!, diz Gérson, Cala a boca, porra!. Faz-se silêncio. A gente vai liberar cinco pessoas agora e cinco daqui a vinte minutos. Dimas, escolhe um, ordena Gérson. Dimas escolhe o idoso que ainda chora, mesmo após o pai-nosso. O mais baixo escolhe uma estudante que está em choque. Gérson escolhe uma das garçonetes, um adolescente com um boné enfiado na cabeça e um homem forte que está calado desde o início. A saída dos cinco primeiros eleva a ansiedade dos demais. Ninguém se acalma com a perspectiva do fim. Irrequietas, as pessoas se mexem muito, cochicham, deixando os três homens mais nervosos.

Você está bem, meu filho, pergunta Madalena a Marcos. Sim, estou. Você está agoniado, dá para sentir, ela diz, Ore, essa agonia vai passar. Queria ter a sua fé, mas não tenho fé alguma. Porque você procura a fé onde ela não pode estar, justifica Madalena. E onde ela está, aquela que move montanhas?, ironiza Marcos. Dentro de você, menino. Dentro de mim, agora, há um ódio grande e só. Uma vez me falou o senhor Jesus, ela diz, enquanto ele franze a testa. A senhora fala com Deus?, pergunta o cabo. Você não?, devolve ela a pergunta, Pois falo e vejo, e Jesus me disse: Bem-aventurada seja você, Madalena, que não fraquejou à minha voz e à minha presença; e eu perguntei: Mas como posso eu saber o que vejo? Se vejo a ti com o meu espírito ou com a minha alma?. E o que ele respondeu?, pergunta Marcos. Ele disse, continua Madalena, Nem com um, nem com outro, amiga, você vê com a consciência, que está entre um e outro, pois onde está a mente há um tesouro. Minha consciência pede uma bala na cabeça de cada um daqueles três marginais. Sua consciência é tola, então, diz Madalena, A bala não pode matar o que a bala cria.

Dizem que ela foi casada com um gringo e morou uns anos fora. Nega Rica, foi como passaram a chamá-la. Com apenas dezessete anos, dizem, ela mandava e desmandava em uma mansão em Frankfurt, onde era rainha. Pior que qualquer branca dona de engenho, mais terrível e mais cruel. Nega Rica era ruim como ferrão de bicho, dizem os moradores de Madureira que ainda se lembram do tempo que ela passou na Alemanha. Essa daí é ruim que o rabo amarga, diz Lourenço, um jornaleiro português. Eu soube que uma vez, conta Berlinda, dona de uma pequena loja de souvenires no centro da cidade, Ela deixou uma empregada sem comer por horas e horas só porque a menina tinha atrasado o jantar, e olhe que ironia, uma negra carioca tratando uma branca alemã que nem escrava. A moça não tinha mais que dezessete anos. A Nega Rica tinha uns dezenove, quase vinte. O alemão tinha sessenta e lá vai, mais para lá do que para cá, diz-se. Quando ficou viúva, já com uns trinta e tantos, decidiu voltar para o Brasil, mas aqui chegando endoideceu, começou a dar festas e pensou em abrir um puteiro. Arrumou um sócio que lhe roubou o dinheiro e agora está aí, morando debaixo de uma ponte na Avenida Brasil, e tudo isso é bem empregado, porque o que é do homem o bicho não come e quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem, diz Antônia, enfermeira do Hospital Universitário.

Tudo isso é ganância do ouro, meu filho, diz Madalena a João, que concorda balançando a cabeça. Por isso o mundo está doente e por isso tanta gente morre assim, eu mesma terei a vida eterna, porque nada disso me governa. A tudo isso Dimas também escuta, calado.

Por que devemos confiar nela?, cochicha Mateus para João. Como assim?, pergunta o outro. Sabe, isso de estar consolando todo mundo, isso de os sequestradores não terem ainda mandado ela parar de se mexer, é tudo muito suspeito, sustenta o advogado. Você acha que ela tem a ver com eles?, pergunta o fotógrafo. Tudo é possível, tudo é possível, ninguém é bom assim de graça, todo mundo tem a sua causa secreta. Será?, pergunta-se João, falando com o outro.

Como é o seu nome, pergunta Madalena. Arminda, responde a mãe do cabo Marcos. Você está bem?. Minhas pernas estão pesadas, o corpo dói, diz Arminda. Vai passar, você crê?. Creio. Ela pode estar entre os próximos a sair?, pergunta Madalena para Gérson. Pode, ele responde lacônico. Não quero, ela diz, Só saio com o meu filho, diz a mulher. Deixe de besteiras, mãe, retruca Marcos, A senhora é hipertensa, precisa sair logo daqui, eu vou ficar bem. Meu filho, você vingou porque estive sempre por perto, sussurra Arminda, Foi meu ventre que te carregou, quando queria te expulsar a violência da fome, foram meus braços que te esconderam, quando queriam te caçar os homens, foi minha imagem que te sustentou e te fez suportar o sofrimento longe daqui. Marcos se cala e fita a mãe. Eu não vou embora, ela diz. Madalena sorri e a afaga. Salve, Arminda, mãe de misericórdia, ela diz.

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).

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