“Meu primeiro namorado

foi a  Kalashnikov”

Leila Khaled

A Musa bate à porta
eu abro
A Musa pede colo
eu cedo
A Musa quer falar
eu ouço
todas aquelas histórias de sua luta diária
e me ensina sobre a batalha no campo
e me mostra todas as cicatrizes
e me pede para eu curar suas feridas
antes que a febre a alcance e a castigue

sou mestra em primeiros socorros
e a Musa sabe bem disso e aproveita
para me contar quantas vezes enganou a morte
e canta cantigas estrangeiras enquanto eu seco
o sangue que ainda escorre pelas costas
de quem não se conforma com a chibata no lombo alheio

eu respiro suas dores
e ela assegura que eu jamais
correria o risco de perdê-la
e me pede permanência
e um lado da cama
também peço para que ela
antes me carregue para o front diário
para eu ter certeza que a Morte
não atravessa tais geografias

ela segura minha mão
e me conduz a sua realidade
e me ensina a desviar de fuzis e cassetetes
e me apresenta às mulheres da revolução
e me faz pular muros, abrir cercas,
manipular químicas, mergulhar em águas insalubres

no início e no final do dia
a Musa diz que me ama
e me carrega para dentro
de uma sequoia de mil anos
para provar que nem tudo
está sujeito à oxidação
e me mostra como congelar o tempo
com dois dedos e um coração
e me mostra como hipnotizar serpentes
e não há nenhum vestígio de morte
em seu caminho

a Musa não mente
a Musa sabe onde pisa
a Musa sabe onde a Morte é produzida
a Musa lê Marx mas também sabe ler a vida
a Musa luta para uma opção que não seja
nem de opressora e muito menos de oprimida

A Musa não bate mais à porta
A Musa já tem a chave da minha poesia.

 

:::

 

La Musa golpea a la puerta

yo abro

La Musa pide colo

yo acepto

La Musa quiere hablar

yo escucho

todas esas historias de su lucha diaria

y me enseña sobre la batalla en el campo

y me muestra todas las cicatrices

y me pide que curar sus heridas

antes de que la fiebre alcance y la castigue

 

yo soy maestra en primeros auxilios

y Musa sabe bien de ello y aprovecha

para contarme cuantas veces engañó la muerte

y canta cantigas extranjeras mientras yo seco

la sangre que todavía escurre por la espalda

de quien no se conforma con la chibata en el lomo ajeno

 

yo respiro sus dolores

y ella asegura que yo jamás

corría el riesgo de perderla

y me pide permanencia

y un lado de la cama

también pido que ella

antes que me cargue al front diario

para que yo esté seguro de que la muerte

no atraviesa tales geografías

 

ella sostiene mi mano

y me conduce a su realidad

y me enseña a desviar de fusiles y cachiporras

y me presenta a las mujeres de la revolución

y me hace saltar muros, abrir cercas,

manipular químicos, sumergirse en aguas insalubres

 

al principio y al final del día

la Musa dice que me ama

y me lleva hacia adentro

de una secuoya de mil años

para probar que no todo

está sujeto a la oxidación

y me muestra cómo congelar el tiempo

con dos dedos y un corazón

y me muestra cómo hipnotizar las serpientes

y no hay vestigios de muerte

en su camino

 

la Musa no miente

la Musa sabe dónde pisa

la Musa sabe dónde se produce la muerte

la Musa lee a Marx pero también sabe leer la vida

la Musa lucha por una opción que no sea

ni de opresora y mucho menos de oprimida

 

La Musa no golpea más a la puerta

La Musa ya tiene la clave de mi poesía.

 

 

 

Lisa Alves | “Musa Kalashnikov” (Primavera, 2017)

Escrito por Lisa Alves

Lisa Alves (1981) é brasileira, radicada na capital federal do Brasil. É curadora da revista de poesia e arte contemporânea Mallarmargens. Tem textos publicados em diversas revistas, jornais e páginas literárias no Brasil, Portugal e Estados Unidos. Tem poemas publicados em nove antologias lançadas no Brasil, Argentina e País Basco. Participa da Antologia de contos "Novena para Pecar em Paz" (Penalux, 2017). Lançou em 2015 seu primeiro livro de poesia intitulado Arame Farpado (Lug Editora, RJ). site | lisaallves.wixsite.com/lisaalves email | lisaallves@gmail.com