Ouvir John Coltrane
Se quiseres ir ao centro da intensidade
Ouvir John Coltrane
Olhar na cara da morte
Ouvir John Coltrane
Rir, desconhecendo o tédio
Ouvir John Coltrane
Tocar a matéria da música
Ouvir John Coltrane
Suportar a solidão, suportar o amor
Ouvir John Coltrane
De um modo que supere a vida
Ouvir John Coltrane
Porque deita em todas as sarjetas
Ouvir John Coltrane
Estes instrumentos bebem contigo
Ouvir John Coltrane
O quarteto vira nação
Ouvir John Coltrane
A febre: sabes?
Ouvir John Coltrane
Blue train
Ouvir John Coltrane
Ir a galope de uma fúria à outra
Ouvir John Coltrane
Lentas barricadas cairão
Ouvir John Coltrane
In a sentimental mood
Ouvir John Coltrane
Supreme, supreme
Ouvir John Coltrane
Depois, o som te nina
Ouvir John Coltrane
No entanto, a alegria é nervosa
Ouvir John Coltrane
Quem não suporta sente sono
Ouvir John Coltrane
Reconhecer o desígnio
Ouvir John Coltrane
Quer dizer, não renunciar
Ouvir John Coltrane
Ouvir John Coltrane
Ouvir John Coltrane

*

Matéria

Na cela do tempo, o downtempo
excarcera a nascente dos ouvidos
da garota com o gosto narcótico dos dedos
invadidos de fumaça.
Todos libertamos um cheiro de náusea
todos liberamos um desejo de pausa.
Frui de seus olhos a mudança de natureza
carne plástica, desenho
nujazz, cabelos lo-fi.
No trip-hop, se oferece em imensidão
elástica.

*

Ostenta
a urdidura dos becos
expostos
os ossos do ofício
glebas
de cimento e carne
vielas
do descaso
vilezas
do desejo
bate
rangendo a própria lei
rege
nas narinas
a ordem inoperante
quer
de teus ouvidos
tua alma no ritmo
proibido.

*

Monges cantam na Praça da Sé
tragados por vinte mil meninos no metrô
em baldeações subterrâneas
essas vozes não chegam a se confundir.

A linha de fuga do compasso
beat box vira tropa do funk carioca
antes dos tiros nas favelas
esses sons não chegam a se confundir.

Serralheria no meio da mata
arapuca em grande escala
o fogo tem o nome dos pássaros mortos
duas sedes que não chegam a se confundir.

Dos que são levados ao matadouro
por rios de flechas represadas
lábios anacrônicos, cuspes de assassinos
há o grito dos que não esquecem

e vivem com eles, mais vivos e mais mortos
entoam verdadeira vertente
música do que há

tantos gritos, tantos meninos
poucas vozes
poderíamos ser um.

Imagem|Roberta Tostes Daniel

Escrito por Roberta Tostes Daniel

Roberta Tostes Daniel, carioca. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Zunái, Musa Rara, Diversos Afins, Estrago, Incomunidade, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: “Desvio para o Vermelho” (CCSP), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco) e “história íntima da leitura” (Ed. Vagamundo). Email: robertatostes@gmail.com “Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra” (António Ramos Rosa)