Quando o mar me viu pela primeira vez, eu estava de manga comprida. Sabia que algumas pessoas poderiam me julgar como o garoto excêntrico que usa roupa de frio no verão do Guarujá; talvez me condenassem com mais vontade se soubessem das cicatrizes nos braços.

Ocultadas pelo tecido fino da camiseta, as marcas permanentes contavam em braile dérmico a história do adolescente que foi diagnosticado com osteossarcoma aos 12 anos. Que aos 13 soube que a quimioterapia não surtia efeito. Que aos 14 descobriu que a radioterapia também já não lhe seria útil. Que aos 15 passou por tantas cirurgias fracassadas que se cogitava a amputação dos braços. E que aos 16 foi desenganado pelos médicos após constatarem uma metástase que havia atingido os órgãos vitais.

Enquanto minha mãe era socorrida após o desmaio que a notícia lhe havia causado, meu pai olhou penetrantemente para mim e perguntou qual era meu último desejo. As lágrimas pareciam ter se petrificado diante das pupilas: havia somente uma gota congelada no canto do olho, como uma pequena partícula de diamante que se segurava para não rolar face abaixo. Meu câncer e a certeza de sua fatalidade me impediam de chorar; seria melhor poupar os fluidos corporais para evitar desidratação. Mesmo assim, sentia a turbulência de emoções que meu sistema nervoso tentava controlar. Justamente o garoto que nunca respeitou prazos e chegava atrasado em todos os encontros era o que agora tinha um horário que seria obrigado a obedecer, que o organismo trataria de registrar no livro de ponto da morte. Eu disse que queria conhecer a praia. Foi a única ideia que passou pela minha mente, já entrando em invalidez, depois de tantos anos vendo o mar somente graças às ondas de televisão.

Minha situação era digna de um personagem de John Green, autor que tanto me incentivaram a ler na expectativa de que eu aceitasse com mais facilidade a ideia de uma doença mortal convivendo como um parasita dentro dos meus ossos. O fato é que morar no interior de São Paulo não me ajudava a acreditar na ideia de arrumar uma namorada norte-americana, nem de viajar à Holanda, antes de escrever meu epílogo. O máximo que consegui foi ganhar um beijo na boca da menina que cuidava da fazenda da tia Iolanda, quando ela soube, pela minha perda de cabelos, que eu precisava perder a pureza dos lábios.

Beijar na boca tem sabor de maresia. Foi a primeira constatação que fiz quando a brisa salgada abraçou meu rosto, que já sentia o hálito do sol guarujaense. Fiquei parado por uns três minutos, apenas observando a felicidade humana condensada num invólucro chamado litoral.

Cogitei ir até o carro e colocar uma sunga, mas decidi que seria melhor apenas molhar os pés. Apoiando com dificuldade os braços nos ombros de meu pai, caminhei até a água; os dedos dos pés, como minhocas, tentavam se esconder na areia úmida. Alguns garotos da minha idade jogavam futevôlei ali perto. Quem sabe um dia eu saiba a sensação? Pensei e ri – da aliteração mental e da ironia metida.

As águas tocaram meus pés, rápidas e frias como a vida. Minhas solas não tinham papilas gustativas, mas era como se pudessem saborear o mar. Adentrei até que a profundidade alcançasse os joelhos e não conseguia parar de sorrir. O sal parecia me temperar de baixo para cima, e a maré me transformava em pedra preciosa. Uma partícula de diamante! Encostei a cabeça no tórax do meu pai, em agradecimento, e o acompanhei enquanto ele atirava minhas cinzas no oceano.

Escrito por João Paulo Hergesel

Nascido em 25 de julho de 1992, João Paulo Hergesel é um escritor brasileiro residente em Alumínio (SP). É doutorando em Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi (UAM), mestre em Comunicação e Cultura e licenciado em Letras pela Universidade de Sorocaba (Uniso). Dedica-se à produção literária, com foco na literatura infantojuvenil, e à pesquisa na área da Narrativas Midiáticas com foco no estudo do estilo. Autor de livros com temáticas diversas e com participações em várias antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais – entre eles: Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), Cancioneiro Poético (Instituto Piaget Portugal), Concurso Monteiro Lobato de Contos Infantis (SESC-DF) e Prêmio Ganymedes José de Literatura Infantil e Juvenil (União Brasileira dos Escritores).

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