Se costuma dizer do poeta que é aquele sujeito que caminha pra cima e pra baixo observando o mundo, este mundo, tratando de traduzi-lo em palavras, em busca de alguém que também consiga ver. Tive uma conversa parecida com Eugênio, outro dia. Falávamos que o poeta traduz o mundo para seus leitores, mas  quem lê poesia, senão outros poetas? — e estes passam a enxergar e a fazer ver aos outros, à sua maneira. Assim, o mundo torna-se outro, possível de dizer, possível de ser escrito.

Um passeio (uma viagem?) pelas páginas de ‘Descalço nos trópicos sobre pedras portuguesas’ (Nós, 2017) de Thiago Camelo é conhecer do poeta o seu olhar, enxergar através dos olhos atentos de quem faz do mundo palavras e tocar (com cuidado, por favor) a gênese de sua poesia. ‘Descalço nos trópicos…’ não é um livro de poemas, mas um livro de processos: o poeta embarca em seu voo, o poeta caminha pelas ruas do cotidiano, o poeta passa muito tempo se entretendo com inutilidades virtuais e não permite que o acompanhemos sem escutar sua narrativa, seus insights, suas confissões corriqueiras e de sinceridade irreparável.

Não ocorre aqui de poema e poeta tornarem-se bíblicos, com personagens e mandamentos, ensinamentos e provérbios morais: Thiago abraça o leitor em frente a este livro-espelho e é possível nos vermos no reflexo. Também não há catecismo ou liturgia, porque as palavras correm rápidas como o pensamento, a memória flui pesada como à memória cabe fluir, e o poeta se atenta a tomar nota de maneira que seja possível acompanhar a velocidade das sinapses que lhe ocorrem. E é este o processo: não importam os nomes, o grau de parentesco entre estes nomes, se o leitor já caminhou por Copacabana ou por Botafogo, porque lhe serão apresentados Elisa, Marcelo, o pai e a mãe, numa velocidade e numa honestidade tal que nos restará pensar: sempre estiveram todos ali.

O poeta-narrador de ‘Descalço nos trópicos…’ evita assumir sua ancestralidade, porque ele também sempre esteve ali, desconcertado e atônito diante de um mundo grande demais e que insiste em ser descoberto, mas sobretudo descrito em sua estranheza, na estranheza que provoca em quem ousa mirá-lo de perto:

Os acidentes entre automóveis
os atropelamentos
os acidentes entre carros e bicicletas
os acidentes são tão iminentes
me pergunto como não há um a todo instante
em todas as esquinas
em todas as ruas de toda a Terra
ou, pensamento irmão
por que no Ano-Novo
com bebida e superlotação generalizadas
por que não há milhares
ou milhões ao redor do mundo
milhões de quedas de varanda
de tal modo que se produzam estatísticas
como as de acidentes de carro em feriados.

E na estranheza de quem repara na repetição do que é comum e se deixa espantar e comover com o comum do que se repete, do trivial amoroso, familiar, o que esteve sempre ali e é afinal descrito:

Mamãe age de modo mais abrupto
ela acente, e apaga, e pronto.
Papai é ritualístico
fica horas com o cigarro apagado na mão
gesticulando como se tivesse um sexto dedo
ou empunhasse uma batuta.

Há momentos em que nos tornamos este narrador-lírico, há momentos em que é possível querer ser este narrador de Thiago Camelo para enxergar mais de perto e melhor a realidade que ele compõe e descreve. E há momentos de menor duração em que somos narrados, em que somos a cidade e nos percebemos fotografados pela retina do poeta-caminhante em sua memória, em seu olho virtual que registra a realidade ampla em que vivemos. Seja em “o guindaste / martelo; paisagem” que deveria segurar a cidade, seja onde “confudem-se buracos / com abrigos / com trincheiras”, mesmo os lugares-comuns visitados e descritos por Camelo somente nos dão a certeza de que o poeta escreve — entre sussuros e conversas — com a voz muito própria de quem sabe a voz que tem.

Escrito por Marcelo Labes

Autor de "Falações", "Porque sim não é resposta", "O Filho da empregada", "Trapaça" e "Enclave" (Patuá, 2018). . Edita o blog O poema do poeta, onde publica manuscritos de autores vivos & mortos.