Acordou às onze e quarenta e cinco e foi só porque ela telefonou. Mal havia dormido após a briga da noite anterior e, além de tudo, seguia sendo oprimido por um desânimo para com a vida que já crescia para muito além da simples chateação.

“Não dá mais, Cícero. Eu tentei, mas não dá mais”, Maura desligou antes mesmo que ele pudesse terminar a própria defesa, certamente para não dar sorte ao azar ouvindo todos os seus argumentos. Desligou apressada porque aquilo era, afinal, um ponto final.

Cícero, o Cegonha, ficou frustrado. Jogou o celular com quase força em cima da cama, fazendo-o quicar, bater no chão e vomitar a bateria. Observou o aparelho desmontado por alguns segundos antes de apanhá-lo, encaixar-lhe novamente as peças e apertar o botão de ligar. Precisava ver as horas, tomar um banho, almoçar, trocar de roupa e ir para o trabalho. Pensava em qual (ou quais) desses passos ele deveria ignorar caso estivesse realmente muito atrasado, e olhava ansiosamente para a tela de carregamento.

Meio dia. Muitíssimo atrasado. O desânimo desceu feito marreta. A garganta de Cegonha era um nó. “Trabalhar o cacete”. Saiu de seu quarto e vagou pela casa porque precisava pensar. Foi com os ouvidos em pé. Nenhum sussurro atrás da porta de qualquer um dos outros dois dormitórios. Nada de música, TV ligada ou almoço em andamento. Ninguém em casa. Parou na cozinha e abriu a porta da geladeira. Atônito, vigiou o catchup, a mostarda, a margarina, a maionese, o frango que Grouxo preparou na semana anterior e um espaguete ainda mais ancião que os restos da ave. Arroz havia fresco e aos montes, o que era uma pena, já que Cegonha o detestava assim, puro. Largou a porta que se fechou por mérito próprio. Encostou-se com a bunda na mesa, impulsos construtivos tentavam ganhar terreno. Talvez fosse melhor correr para a loja e chegar apenas, quem sabe, com uma hora de atraso. Talvez devesse ser prudente e dar um tempo para que Maura pensasse até se sentir solitária, procurando-o novamente dentro de alguns dias. O desânimo, enquanto isso, se transmutava em irritação e constringia suas melhores intenções. Não havia muito o que caminhar adiante no tempo antes de concluir que, qualquer que fosse a decisão, o futuro não guardava nada de recompensador. Odiava o emprego. Já ia e voltava com Maura há mais tempo do que gostaria. Era tudo uma gorda, rançosa e pesada lástima.

Retornou para o quarto, ligou o computador e apanhou um livro. O Sofredor do Ver, de outra Maura. “Doida igual”, pontuou amargo. Cansado. “Cara, como eu sou babaca”. Largou o volume debaixo da cama. Deu duas voltas cegas no pequeno cômodo. A falta de perspectiva incomodava. Tomou, novamente, o celular. Meio dia e vinte. Calçou os chinelos e foi ao mercado.

 

Quando voltou, passava de quinze para a uma. A tarde estava quente e seca, o ar morto, e seus cabelos pendiam sob o peso do suor. Trazia um maço de cigarros, estrogonofe congelado, batata palha, vodca e uma caixa de suco de laranja. Tirou a camiseta, que arremessou sobre um dos sofás, e meteu a comida no micro-ondas. Acendeu um cigarro no fogão, apanhou uma caneca de plástico decorada com cachorrinhos lobotomizados, sempre sorridentes, e abriu caixa de suco e garrafa. Achou bonita a mesa decorada com os preparativos para sua tarde. Deixou escapar um risinho que soou desdenhoso. Deu umas tragadas quase satisfeitas e puxou, meio que intempestivamente, o celular do bolso. “E se?”. Ligou para Maura. Ouviu o toque de chamada se repetir por quatro vezes e, depois, o aviso da caixa postal. Desligou. Meditou mais um pouco antes de olhar outra vez para o aparelho. Quatro minutos para a uma. “Mais tarde eu tento outra vez, se quiser me sentir um otário”. Meiou a caneca com vodca, jogou uma talagada do suco goela adentro e outra porção teve o mesmo destino do destilado. Misturou com o dedo e foi terminar o cigarro no quintal forrado de folhas que choviam da árvore do vizinho. Forçava para dentro da própria cabeça a certeza de que não tinha qualquer pressa.

Voltou quando ouviu o apito alardeando o fim do preparo de seu almoço. Destacou toda a tampa da refeição pronta, sobre a qual despejou a batata palha. Colocou esse recipiente dentro de um prato limpo, para não queimar os dedos ou o colo, apanhou um garfo e foi para a sala. Voltou para resgatar e completar sua caneca. Sentado no sofá, ligou a televisão.

Comeu assistindo um noticiário popular, “seja lá o que isso for”. Um repórter, gordo e bigodudo, fazia graça para donas de casa e desempregados que vagavam pelo calçadão de Osasco. O quadro acabou antes que ele pudesse compreender o que se passava, sendo substituído pela reportagem lacrimosa acerca de uma mulher que perdeu a filha pequena nos arredores da Praça da Sé, havia quinze dias. Terminou a refeição enquanto parentes e conhecidos davam seus depoimentos sobre mãe, filha e ocorrência. Lá pelas tantas tomou a palavra uma tia, que se assemelhava muitíssimo (pelo menos na ocasião) a Maura. Levantou-se. De volta à cozinha, guardou o prato, lavou o garfo, jogou o recipiente no lixo e recarregou a caneca. Fez de tudo, no caminho de volta, para não mirar o televisor e seguiu adiante, implacável, até a janela. Observou o parco movimento com seu cigarro predileto – o digestivo – à mão. Pensou na (provavelmente ex) namorada que tinha um amigo no trabalho do qual muito falava ultimamente e com quem, ainda que na companhia de outros colegas, a própria já saiu para algumas várias confraternizações. A sensação de ser trocado diminuiu, ainda que bem pouco, o peso de suas várias más ações e atitudes deploráveis no desfecho do relacionamento. Se pesasse um pouco mais a mão nesse tipo de pensamentos, talvez pudesse transferir tudo para a conta de um recém-adquirido nêmeses. Poderia criar um adversário cruel e dissimulado para culpar pelo seu fracasso.

“Mas que canalha filho da puta…”, ganiu para um cão calorento que passava diante do portão. Não iria funcionar. Não nascera munido da possessividade necessária para tais manobras. Desanimado, virou o resto da bebida.

 

Há vezes em que o sujeito se embriaga praticamente sem querer: começa com uns golezinhos, depois da janta ou de passagem pelo bar, e termina bêbado e surpreso. Também há vezes em que a coisa é meticulosamente premeditada, mesmo que o indivíduo não o saiba: é uma busca inconsciente pela bebedeira. Desnecessário dizer qual das ocasiões era aquela, bastando apenas descrever o estado das coisas (e tendo em vista o histórico do dia) às duas da tarde, quando Cegonha, sentado no sofá, ligava pela terceira vez para Maura, esvaziando a quinta e última caneca antes de se decidir por beber direto da garrafa. Havia levado o notebook para a sala e uma seleção aleatória de música pesada e esquecida dos anos noventa ribombava por sobre o piso de taco e entre as paredes quase brancas. Nada da mulher atender, mas pelo menos, dessa vez, chamava até não poder mais. De qualquer modo, Cegonha claramente caçava sua bebedeira.

Os últimos goles desceram junto de Jesus Lizard e lembranças carnais de Maura, especificamente aquelas de um domingo, há quase três meses, quando os dois fizeram sexo praticamente das dez às dez. Desde a hora em que acordaram até bem depois do fim do churrasco organizado por Grouxo, no qual ambos surgiram em três ou quatro aparições relâmpago para recuperar um pouco das forças antes de retornar ao embate apaixonado. Naquele dia treparam em dois dos três quartos e nos dois banheiros da casa, terminando com bolinação exaurida na rede da garagem, entre os destroços da boca-livre. Já estavam, na ocasião, juntos há dois anos, e ainda fodiam como se fossem dois coelhos adolescentes. Não era sempre assim, claro, a vida é cheia de altos e baixos, inclusive no que se refere à libido, mas Cegonha não deixava de se maravilhar com o quão perfeitos eles eram quando não estavam se digladiando em brigas que ninguém saberia dizer quando ou porque nasciam. Tal certeza o deixava sentimental.

Depois, quando já decidido a beber da fonte, voltou ainda mais no tempo e narrou para si, em silêncio, as primeiras palavras significativas que trocaram, os primeiros beijos, a primeira briga (que ainda guardava alguma beleza) e a primeira vez que foderam, no banheiro do apartamento que Maura dividia, na época, com a avó. Cegonha estava triste, muito triste, e suado por sob toda a atmosfera opressiva da tarde que era quente feito a virilha do diabo. Bebia um longo gole, cheio de significado, quando o celular tocou. Engasgando e tossindo, apanhou o aparelho e o atendeu.

“Alô.”

“Alô, Cícero?”, a voz de Reinaldo, seu gerente, soou do outro lado da linha.

“Ah”, Cegonha se castigou, com um tapinha na cabeça, por não ter se precavido, “oi, Reinaldo. Tudo bem?”

“Oi, Cícero. Eu…”, o gerente parecia confuso, “eu estou ligando para saber o que houve.”

“Como?”

“Para saber que houve. É que… Bom, você não veio trabalhar hoje.”

“Ah, estou com uns problemas pessoais. Coisa muito complicada. Sinto muito, muito mesmo”, só então ficou patente para Cegonha que a música alta vazava, com toda a certeza, para os ouvidos de seu chefe. Precisava dar um fim àquilo.

“Olha, Cícero…”

“O quê?”

“Olha, Cícero, eu…”

“Ahn? O quê?”

“Cícero, você…

“Mas O QUÊ?”

“Escuta aqui, Cícero!”

“MAS COMO É QUE É? Eu não estou ouvindo nada!”

Desligou. Começava a tocar Cop Shoot Cop. Cegonha sorriu absolutamente satisfeito pela primeira vez naquele dia.

 

Quase três da tarde, a garrafa pela metade. Reinaldo tentou telefonar mais algumas vezes, mas não conseguiria pegá-lo desprevenido novamente. Cegonha só ignorava o aparelho, balançando a cabeça de leve, como se ouvisse nada além da música. Era uma espécie bem mirrada, mas ainda assim libertadora, de vingança. Com vinte e sete anos, duas faculdades incompletas, um subemprego desgastante em loja falida, Cegonha já se via há um bom tempo preso em tal agora infinito sem qualquer possibilidade de mudança. Há meses seu desânimo brotava dessa situação, espalhando-se pelo que lhe restava de vida, crescendo com cada meta não batida no trabalho, com cada derrota que era transformada alegremente em salário de fome pelos seres invisíveis que tocavam a empresa. A coisa dava só para sua parte do aluguel e um pouco de comida, o resto se ajeitava aos trancos e barrancos com a ajuda que Maura lhe oferecia, ela sim, já formada e, apesar de dois anos mais nova, trainee no setor de RH de uma organização muito mais respeitável.

E agora precisava aturar esse ponto final, coisa que começava a deixá-lo indeciso entre uma tristeza honesta de amante descartado e o despeito cínico de quem precisa se virar para viver.

Cegonha virou um gole monstruoso, levantou-se cuspido do sofá, e carregou a garrafa até o quintal. “Mas que caralho!”, vociferou, arremessando-a por sobre o muro. Uma eternidade se passou até o estilhaçar, durante a qual Cegonha pensou na desgraça que seria se um dos filhos do vizinho estivesse brincando lá fora. Outra a seguiu, enquanto ele aguardava uma reação do mesmo vizinho ou de sua esposa. Pelo silêncio que emanava da outra casa, no fim, não havia ninguém. “Isso não é bom”, ponderou em raro acesso de bom-senso, e com toda a razão: já fazia muito tempo que não dava uma de doido com a justificativa do álcool. “Mas que se foda”, disse para botar uma pedra sobre a questão porque, do nada, tinha pressa. Voltou para dentro.

Ficou parado no meio da cozinha, tentando descobrir o que faria para continuar bebendo. A resposta veio mansa e sorridente, e Cegonha se dirigiu ao seu quarto, de onde subtraiu parte do dinheiro que guardava para as contas e o aluguel do mês. Apanhou a camiseta, botou os chinelos e partiu novamente para o mercado, dessa vez em leve ziguezague.

 

Voltou com outra vodca, amendoim, três cervejas pilsen e uma cerveja preta. Batia três e vinte da tarde. Deixou a sacola sobre a mesa da cozinha e levou duas latas para a sala. Só então notou que não havia desligado o som e que o celular tocava outra vez. Era um recorde. Apanhou o aparelho, crente que flagraria o nome do chefe estampado na tela. O que leu era mais curto, tinha só duas sílabas. Maura. Bateu a esmo no touchpad do computador até acertar o botão de pause. Atendeu.

“Alô”, esforçou-se em soar neutro, apesar de não ter ideia de como fazê-lo.

“Alô, Cícero? Onde você está?”

“Em casa.”

“Passei na loja no almoço, lá pelas duas. Você não estava e ninguém sabia do seu paradeiro.”

“É porque estou em casa”, deixou a birra escapar.

“Ah…”, Maura mergulhou numa de suas pausas cheias de decepção, “Olha, tudo bem. Só liguei pra dizer que eu… Bom, acho que fui dura demais com você. É isso. Eu queria me desculpar.”

“Hum… É mesmo?”, Cegonha sabia que o cinismo, naquela situação, seria apenas contraproducente, mas não pôde evitar.

“É”, por sorte Maura já o tinha previsto e se resignava, “eu quero conversar direito com você, tudo bem? Hoje?”

“Onde?”

“Aí mesmo. Passo depois do trabalho, certo?”

“Ok. Até mais.”

“Cícero?”

“Ahn?”

“Se cuida”, e Maura desligou.

Cegonha ainda ficou um tempo congelado, com o telefone colado na orelha e a mente vazia de qualquer vida. Era isso, não seriam necessários aqueles dias para a garota ponderar. Ainda não se tratava de um reatamento, mas já era algo.

Olhou para as latas diante de seus pés. Precisava decidir sobre como proceder dali por diante. A primeira que abriu, como sempre fazia, foi a de cerveja preta. Apertou o play. Tocava Helmet.

 

Camila chegou do estágio pouco depois das quatro. “E aí, Cegonha?”, soltou para o vizinho do quarto ao lado enquanto passava. “Oi”, ele respondeu, concentrado que estava em abrir a garrafa. Já havia conseguido quando ela voltou, sem as roupas suadas que usava no laboratório e mais adaptada ao calor, coberta por shorts velhos de algodão e camiseta sem mangas. Observou-o, do corredor, empinar a garrafa.

“Tudo bem aí?”

“É, tudo. Tudo bem”, Cegonha já arrastava as palavras.

“Sério mesmo? De folga?”

“Não”, riu como criança pega no flagra.

“Sei…”, aproximou-se devagar e parou diante do amigo, “vai, me conta. O que aconteceu?”

Cegonha já esperava isso de Camila. Ele a conhecia e ela era uma boa pessoa. Mesmo assim, seus olhos se encheram de água.

“A Maura”, disse com voz embargada, olhando para o chão, “a gente terminou. Por telefone.”

Lágrimas escorriam dos olhos de Cegonha. Camila sentou-se ao seu lado e pediu por calma. Afagou suas costas. Solicitou a narrativa completa. Ele a contou. Começou com acontecimentos de várias semanas atrás – tudo o que, de alguma forma, tivesse qualquer envolvimento com a última briga. Ganhou um abraço quando já não podia segurar o choro. Não sabia sob qual proporção entre tristeza e álcool aquilo vinha à tona. “Tudo bem, tudo bem. Calma…”, Camila dizia, dando tapinhas em seu ombro.

A história terminou antes do último telefonema. Algo dentro de Cegonha o alertava de que aquilo deveria ficar em segredo, sob pena de esmorecer tal sofrimento aos olhos de sua benfeitora. Esta, por sua vez, já tinha o veredito e um plano de ação.

“É o seguinte, Cegonha”, falou depois de um belo gole de vodca, que ela já bebia desde o início da cantilena, “você vai lavar o rosto e se acalmar. Eu tenho um negócio que vai te ajudar a ficar melhor.”

Cegonha obedeceu e, ao voltar do banheiro, encontrou Camila apertando um baseado de generosas proporções. Gargalhou alto, porque ouvia Monster Magnet.

 

Fumaram e seguiram bebendo por bem mais de uma hora. Não que isso fosse relevante, porque Cegonha já havia – há muito – perdido a noção do tempo. Camila emborcava a garrafa com mais frequência e gana que o companheiro, na urgência de alcançá-lo no que tangia à intoxicação alcoólica. Não gostava muito das músicas que ouviam, aquelas que Cegonha comentava sem parar, mas a sensibilidade ao sofrimento alheio a impedia de impor, mesmo que por uma única faixa, seu gosto musical. Além do mais, sua solução se mostrava acertada, visto que Maura já não era mais assunto na conversa. Sentia-se satisfeita.

O que Cegonha sentia era basicamente o mesmo, com a diferença de não ser exprimido em pensamentos organizados. Após uma tarde quase inteira regada a álcool, já não havia a menor possibilidade de que seu cérebro afogado criasse qualquer sequência de pensamentos logicamente encadeados. Ou pelo menos não uma sequência com a extensão necessária para se ponderar acerca de sentimentos ou qualquer outro tema do mesmo calibre. A ele, no momento, bastavam as curiosidades sobre livros, escritores, músicas e bandas, algumas piadas curtas e comentários quase incoerentes que abrangiam os outros vários pedacinhos de pensamentos que flutuavam em sua consciência debilitada.

Após muito esforço Camila chegou a um estado mental bem parecido com o de seu amigo, o que ajudou muito na dinâmica do colóquio.

 

Nenhum dos dois saberia dizer como a coisa começou. Quando notaram, faziam sexo.

Para Cegonha era como um quebra-cabeças de flashes sendo montado aos poucos, em cenas de duração cada vez maior que se sucediam em meio à bagunça de imagens borradas. A sensação era estranha, mais como se ele espremesse a amiga contra o sofá do que aquela coisa que costumava chamar propriamente de sexo. Amassava-a. Fugia do tempo e do espaço, penetrando-a como se não houvesse qualquer corpo, mas, ainda assim, sentia-se prisioneiro da coisa de carne que estocava, às cegas, a outra coisa de carne, talvez fantasma, talvez ideia inacabada do que viria a ser sua colega de casa, pessoa mais ou menos conhecida, provavelmente amiga, possivelmente chamada Camila. Estava, com toda a certeza, tremendamente bêbado. Estavam ambos, aliás. Tudo o que havia para ser feito naquele momento era queimar energia e continuar com os movimentos automáticos, sem qualquer propósito, até que algo pusesse fim ao ciclo. Eram, de certa forma, dois bichos capturados.

O grande dilema jazia no fato de Cegonha não ser dado a problemas de ereção quando alcoolizado. Ele, muito pelo contrário, perdia bastante da sensibilidade peniana, fazendo com que o ato sexual, uma vez iniciado, se estendesse por um período absolutamente indeterminado. “Ad infinitum” ecoou, entre uma arremetida e outra, em algum lugar da mente quase tão entorpecida quanto o pau.

Resfolegavam e gemiam porque não havia alternativa.

 

A trégua veio depois das seis e quarenta e cinco, quando a ânsia de vômito já não podia ser ignorada. Cegonha pediu arrego, disse que precisava vomitar, beijou Camila e se dirigiu ao banheiro, tropeçando a cada dois passos e se escorando nas paredes feito um cego zonzo. O tempo esfriava com o fim da tarde, gelando sua pele encharcada de suor.

Antes de fechar a porta e se olhar no espelho, escutou a música ser trocada. Dor e Dor. Camila gostava de Tom Zé. Ele quase sorriu, mesmo sabendo que o espírito daquela tarde, fosse qual fosse, estava perdido para sempre. Depois, já encarando os próprios olhos, respirou fundo e pausadamente, acumulando saliva e se concentrando para botar todo seu recheio para fora, sobre a privada ao lado. Foi no meio dessa espécie de transe que ouviu o estrondo da porta seguido pelo mais absoluto silêncio. Esqueceu-se de vomitar. Perdeu de vista o próprio rosto bem em frente. Esperava. Aguardou por muito tempo até ouvir os passos. Soaram lentos até o corredor. Então, depois, mais silêncio. Seu coração deu pancadas esquecidas de ritmo quando trovejaram as duas batidas na porta às suas costas. Ele se virou e prendeu a respiração. Ouvia o próprio sangue correr. Mais duas batidas e ele abriu.

Maura o fuzilou de cima a baixo – e, depois, de baixo a cima – com os próprios olhos muito secos. Parecia mais miúda do que ele se recordava, mais delicada, pequena feito um pardal muito branco de cabelos todos pretos e óculos enormes. Cegonha abriu a boca, na esperança de que qualquer coisa surgisse em sua defesa. Permaneceu boquiaberto até que Maura disse as primeiras palavras.

“Você trepou com ela?”, uma sílaba seguida da outra, espaços de tempo idênticos, fria e objetivamente.

Algo estalou no cérebro de Cegonha, que desistiu. Era isso. O fim. Ponto sem volta. Mais sóbrio que nunca, sem fechar a boca, ele só assentiu com a cabeça. Esperou a porrada. Viu Maura se virar e afastar-se lentamente. “Maura, olha…”, ainda disse Camila, na sala, mas a porta se fechou – dessa vez com bem menos ruído – antes que ela pudesse terminar. Cegonha vomitou, de pé onde estava, pouco depois. Do quintal vizinho, ecoava o xingamento gritado por um cidadão obviamente emputecido

Escrito por Marcelo Pierotti

Autor do livro Domingo no Matadouro (Editora Patuá, 2013), costuma escrever. Publica às vezes . Vive em Sorocaba, SP. Pode ser encontrado através do e-mail marcelopierotti@gmail.com