IrinaJoanne
No exausto de nós somos uma espécie de exercício do não dizer. Contornado de destinos inversos a sentidos e subordinações. Imprevisível como a contrariedade melancólica dos domingos que desabem descansos, pés descalços e alma leve. Porém, comungam o nascer do dia prenhe dos sustos que apavoram o quotidiano. Cumprimentando a cantoria dos pássaros, que lentamente espreguiçam os raios do sol. Em cada não dizer somos feitos escolhas inconscientes – um outro eu à beira de si. Oriundo de um coração sem raiz, fruto ou fundura. Fundado nas mudanças e rupturas das razões sem identidade. Violentas e implacáveis, embora donas da lucidez mais acessível a demência leviana. Uma simbiose de verdades impróprias, alegrias ímpias e essências postiças. Em cada não dizer ora somos a memória acostumada, ora somos o ímpeto do delírio. Contrafeitos nas intenções das chegadas nunca sentimos a sutileza dos caminhos, tampouco a ressonância das pisadas.
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Traídos pela farsa do próprio impulso, vivemos de urgências indissolúveis e alimentamo-nos das antecipações mortiças. Nas ânsias das indecisões vomitamos desgostos : o gosto corrosivo das alusões imaginárias. Enquanto no breu do inconsciente, berra um eu que nunca mostra a cara – um homem roubado de si nunca se engana. Engana a tudo, engana a todos. Menos o consciente da própria alma oca de vida e cheia de ossos. Entre choros e gemidos somos o resultado do caos. Metade de nós é grito, a outra metade é silêncio tempestuoso.
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Já gastamos todas as palavras, lábias e disfarces. No entanto, o que nos resta não chega para afastar a invernia nos países de dentro. Gastamos tudo menos o silêncio. O desejo e a liberdade. Já gastamos tudo menos o que nos faz humanos. Nada do nosso jeito, corpo ou pensamento. No exausto de nós somos uma espécie de exercício do não dizer. Porém, como trovara o poeta: “que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que mereço. Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão”. Por sorte não temos saída. Por sorte não quebramos.
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Sem testemunhas nem desesperos, pude sentir na ponta da língua o gosto trêmulo de amalgamados excessos me acendendo os olhos [rompendo as fronteiras dos inabitados delírios: crespos encantos de uma vida contrária. Onde o tempo não tem pressa, a pressa não tem passo breve, a vida é etc. Uma náusea vomitando o tédio, o nojo e o ódio. Uma flor nascendo das lágrimas do pranto do avesso dissoluto a dor e a tristeza. Derramado apenas para umedecer os olhos das coisas sem ênfase [pobres de alma e beleza. Nesta alusão antevejo tudo antes de ser – sou antes de viver : vivo antes de nascer. No entanto, corrompida pelas sedes antecipadas desviei meus olhos nocivamente dos detalhes. Esqueci que viver é um descuido prosseguido de sorrisos, é dançar o que o tempo quiser comigo, é comungar o desexcomungável dos dias.
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Talvez meu maior pecado tenha sido querer controlar o descontrolado da vida. Perplexa diante desta órbita insólita a imaginação ocupou o espaço da memória, a memória pereceu a razão e a razão personificou a fantasia. Nesta voluptuosidade de desejos ocultos, não atentei para a obviedade do poeta: – “nenhuma obra de engenharia é mais complexa do que uma relação entre duas pessoas que se amam”. Nenhuma obra de engenharia é mais complexa quanto a relação entre a verdade e a vontade humana. Diante do abismamento dos sentidos, ninguém nunca deitou na varanda dos dias para assistir as cenas explícitas de amor e ódio, ternura e revolta, angústia e alegria do ser humano perante o vicio de ser vida : da vida perante o vício de ser humano. Diante do abismamento dos sentidos, ninguém nunca deitou na varanda dos dias para assistir a religiosidade desta entrega absoluta – até a última gota, o último fôlego, o último músculo contraindo as artéria dos ossos. Expondo as fraturas da alma e os buracos deste coração ingênuo. Onde o desalinho dos dias e planos, destinos e sonhos, calos e pedras dedilha um mistério. Uma mística entre o tempo e a existência. Uma mistura atemporal entre a poesia e o verbo.
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Albergada numa vida sonhada pelo invento, mas nunca parida pelo intento. Fui sabendo de mim por aquilo que perdia. Fui sabendo de mim pelas estações do outono que inteira me despia. Fui sabendo de mim pelas frações de horas inutilmente descasadas sem outra oportunidade. Na desordem destas inesperadas existências, misturei meus vários corpos na remissão de ser um nó multiplicado de vida. Encurvada nas dobraduras mais lascivas dos sonhos, todos os dias descubro a espantosa realidade das coisas.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.