João

Há quem diga que herói é todo aquele que não teve tempo de correr. Quando estes sequestradores entraram pela porta, ninguém pôde correr e, no entanto, ninguém ainda se dispôs a herói. Estão agora no tempo do quase. O danado é esse tempo se estender. Dimas e Gérson conversam já há uns bons minutos e, por três vezes, já lançaram olhares para Luca, a garçonete que está à porta.

À mesa de jantar se discutiam os assuntos vistos no telejornal. O cargo diplomático do pai de João dava àquela família o privilégio de saber do que não era televisionado, mas desses assuntos não se falava. Havia um acordo tácito sobre isso. Há trinta e quatro anos, as coisas ainda não estavam fáceis e o menino, então com dezessete, inclinava-se para uma rebeldia própria da idade do corpo e da idade do tempo. A mãe temia e o pai, secretamente, vigiava-lhe os passos. Essa medida não passa, afirmou João. O Dante é bem articulado, disse-lhe o pai, É possível que consiga algum apoio, inclusive por causa dessas manifestações todas. Não creio, o pessoal está dizendo que tendo eleição agora ganha o Brizola ou o Lula, eles não iam deixar isso acontecer. Esse perigo ninguém corre, riu-se o pai, Nem os brasileiros, nem eles; antes haverá um governo civil de direita, para só então a esquerda ter um discurso agregador, porque por agora é todo mundo contra os militares, e os militares não vão disputar a eleição. Daqui a uns anos estarão todos juntos, disse a mãe, E esse assunto é muito pesado para o consommé que Maria fez hoje.

Vamos liberar mais cinco daqui a pouco, anuncia Gérson, Vocês aí, disse apontando para uma família que está a um canto, Podem se preparar para sair. Quando a gente sair daqui, será como ter nascido de novo, diz o loiro que ajudara-o a acender o cigarro na entrada. João, apresenta-se. Mateus, diz-lhe o outro. Na verdade, Mateus, eu já muito nasci de novo, e é verdade que quem não nasce de novo não vive nunca. Eu nunca tinha passado por algo assim, não sei se sei, então, se já vivi de fato, ri-se Mateus.

Madalena se levanta e caminha em direção aos sequestradores, que a olham curiosos. Eu queria fazer um apelo, ela diz. Hum, fala Dimas, A gente está escutando. Será que vocês não podem liberar aquela moça ali também, coitada, ela está a ponto de dar um troço. Fala de Luca, que está muito pálida e bambeia na cadeira em que a puseram. Antes a minha mãe, diz Marcos. Já disse que não sairei daqui, retruca Arminda. Luca está calada e apenas se concentra em não vomitar em cima de Madalena, que a acode. Posso pelo menos pegar um copo d’água, pede, olhando diretamente para Dimas. A tudo aquilo observa Mateus e acha estranho a insistência dos olhares e o passar mal da garçonete a essa altura, quando o momento de tensão já é menor. Tudo bem, responde Dimas, Pode pegar uma água aqui atrás, mas fique onde eu possa te ver.

Margueritte ria dele. Todos aqueles anos longe de Paris, do outro lado do mundo, a exigência de seu pai do falar em português entre eles, enquanto estivessem no Brasil, no intuito de melhor dominar o idioma, tinham afetado sobretudo o seu vocabulário francês. As palavras fugiam-lhe, o repertório limitado de verbos fazia com que fosse repetitivo. Margueritte ria, deitada no sofá do minúsculo apartamento que seus pais tinham alugado para ele, no centro de Paris. Vestida em uma calça jeans escura, a brancura de seu torso nu impactava o olhar cobiçoso de João. Aqueles seios balançadores. Teus pais te estragaram muito, ela dizia, Ao te levar àquele fim de mundo. Lá não é tão ruim, retrucava João. Aquela merda daquelas ditaduras sulamericanas, aquela gente careta. Mag ria, enquanto andava requebrando, em uma caricatura performática da gente do Sul do mundo. Você voltou muito machista de lá!, reclamava. Depois transavam e acendiam um cigarro. Eles se gostavam, mas não muito. Conheciam-se desde crianças, pois os pais de Mag, diplomatas também, eram amigos dos de João.

Enquanto a família sai, as armas dos sequestradores estão apontadas para cabeças dentro do Café. É possível mensurar o peso do ar. Posso fumar?, pergunta um idoso. Sim, responde o mais baixo dos sequestradores. O ar agora tem fumaça também. Equilibrando um cigarro nas mãos amarradas, João o estica para acendê-lo no cigarro do idoso. Dá um trago e o passa para Mateus. A gente vai dar risada disso quando tudo passar, diz-lhe ele. É, diz João sorrindo amarelo, Quem pode narrar a vida dá risada, né?. É cuidar para não morrer, senão outros é que contam a história, responde o Mateus. Nem todos os que vivem contam a própria vida. Ah, sim, claro, diz o advogado, Alguns sairão daqui e ficarão tão traumatizados que jamais conseguirão reproduzir o que se passou. De uma forma ou de outra, todos reproduzem o que vivem, retruca João, A questão não é essa, a questão é que nem toda narrativa encontra quem lhe dê ouvidos, e morre antes de nascer.

Aborta, porra. Quê?, berrou Margueritte, Que merda é essa que você está dizendo?. Olha só, Mag, disse João, respirando fundo e recobrando-se do baque, Você está na metade da faculdade, eu acabei de ganhar o emprego dos sonhos, viajar pelo mundo fotografando, e isso vai atrapalhar a nossa vida. Nossa vida?, diz Margueritte, Nossa coisa nenhuma, eu não tenho vida com você, seu moleque!, eu tenho uma vida que está fodida por causa desse vacilo. Nosso, disse João, Nosso vacilo, não se esqueça. É nosso sim, mas se você quiser dar o pé, pode, quem não pode dar o pé sou eu. Você pode sim, aborte e tudo continuará como antes. Para você; como é que eu fico tendo abortado?. Agora é você quem está sendo careta, Margueritte, retrucou João, Provinciana e careta. Provinciana e careta é a tua mãe!

A foto dos três sequestradores roda o mundo e é replicada em todas as redes sociais. Quatro, aliás. Marcos é posto ao lado dos três. O vídeo da garçonete está em todos as tomadas televisivas e o seu rosto afobado também. A narrativa do âncora do telejornal cuida das inferências. Agora, neste momento em que observo, sua cabeça é a única sob a mira de um atirador de elite. Um colega seu de ocupação do Haiti dá, neste instante, uma entrevista exclusiva em que afirma: Marcos voltou muito traumatizado do Haiti, lá se envolveu com coisas muito ruins, negócios estranhos.

Um segundo, foi o suficiente. Luca volta para o seu lugar e passa em frente a Gérson, cobrindo-lhe a visão. Dimas distrai-se ante sua passagem. Marcos agarra o mais baixo dos sequestradores por trás e aponta o cano da pistola para sua têmpora. Larga as armas, porra, berra ele para Dimas e Gérson, que apontam as suas para o Cabo.

Escrito por Yuri Pires

Autor de A Pedra (Lote 42).