os braços estavam encharcados de família, e há muito já não podiam ver o itinerário de suas palavras, pois o fogo as consumia constantemente. um rastro de cansaço manchava suas nucas.

seus corpos são da condição do irrealizável, os ossos dementes de imobilidade. suas bocas jamais fechariam devido ao lodo da cólera.

todo gesto era seco e ressoava como um punho fechado, um tiro certeiro.

(os filhos eram anfíbios, desses escorregadios e temorosos, tinham pouca condição pra claridade)

desenhavam repetidamente com os pés os mapas de sua extinção, perfuravam cada vez mais o próprio espaço em que estavam enjaulados.

os caminhos eram devastados, desgastados,  uma rota que não se alterava há muitas gerações. tinham habilidade em habitar a palavra precário.

havia um escuro em suas línguas, desses que não se transmuta, não se perfura, um calabouço inaudível, o lodo cada vez mais espesso. o próprio idioma como um local de incompreensão.

eram cegos para qualquer revoada de pássaros, nem mesmo a asa mais ferida lhe entravam os olhos, era uma genealogia da apatia, um escurecimento das pálpebras que, aos poucos, viravam ninhos dos pássaros mais domesticáveis.

não tinham precisão para medir nem nomear o próprio fosso, não sabiam o que era fosso, muito menos nomear, porque o nome, um novo nome é sempre uma espécie de claridade.

imagem: “a duração da queda”

autorretrato, Raquel Gaio.

Escrito por raquelgaio

Raquel Gaio nasceu e reside na cidade do Rio de Janeiro. Licenciada em Letras - Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRJ, atua nas áreas da poesia e artes visuais.Foi publicada em algumas revistas e portais como Alagunas, Enfermaria 6, Poesia Primata, Garupa, Literatura BR, Revista Saúva, entre outras. Leva uma vida anfíbia, embora escreva sobre pássaros.