“A poesia não é mental, ela é visceral, ela é experiência”.

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Como é bom continuar semeando histórias! Nessa minha segunda postagem no Liberoamérica, trago outra das maiores poetas brasileiras do século XX. Com saludos, memórias e mucha poesia! Continuarei nosso diálogo, hoje sobre um dos livros mais comentados e conceituados na poesia brasileira da segunda metade do século XX: “Bagagem” (1976). Eis por essas tessituras, a prece poética de Adélia Prado.

Já dizia Carlos Drummond de Andrade: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”. Por outro lado, o crítico Augusto Massi mede esse tamanho. Situando a obra da poeta como “um último desdobramento do modernismo, cujas linhas de força convergem para a retomada do cotidiano, da oralidade, da cultura popular e para o desejo de encurtar o caminho até o leitor, trazendo a linguagem poética para o centro da vida”.

Começo essa nova postagem confessando minha insistente travessia. Nunca fui uma exímia admiradora da poesia de Prado, como fui da poesia de Drummond. Mas a mantive ali, numa película translúcida que procurei colorir com novas nuances sólidas. Assim, comecei o ano de 2015 decifrando o oculto de uma Adélia ainda anônima para mim, e realizei a travessia de toda sua obra. Pensava no início: O que realmente teria Adélia a me emocionar? Quais as lições de suas poesia para a minha própria poesia? Pois bem. Foi interessante saber, primeiramente, de sua história pessoal.

De uma vida simples e construída na Minas Gerais de Divinópolis, na convivência dos pouco mais de 12 mil habitantes, cresceu Adélia. Lá foi menina, foi jovem, fez magistério e professora primária, também cursou Filosofia, se casou, teve filhos – só publicando seu primeiro livro de poesia aos 41 anos de idade. E de que maneira! Ela decidiu enviar uma carta com originais de seus poemas ao poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, que os enviou em seguida para Carlos Drummond de Andrade, que sugeriu ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publicasse Adélia, advertindo-lhe do conteúdo fenomenal de sua conterrânea. Daí por diante, rapidamente seu espaço na literatura brasileira só foi ampliado e consagrado – sendo premiada com o renomado prêmio Jabuti no segundo livro, “O Coração Disparado” (Editora Nova Fronteira, 1978).

Início minhas percepções dizendo que a poeta traz em seu trabalho influências de importantes nomes da literatura brasileira: além de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Murilo Mendes, Jorge de Lima. Mas, sobretudo, como ao longo da carreira comenta, é bastante influenciada pela leitura da Bíblia.

No geral, sua essência poética é baseada numa simplicidade cotidiana, que não a distância de elementos estéticos diferenciados, unidos a um prosaísmo místico, que fala da vivência humana e da vivência religiosa. Seus poemas são relacionadas em igualdade na sua obra: não há uma rua, uma sala, uma pedra que não tenha na poesia de Adélia um grande significado, que ela, carinhosamente, nos convida para adorar.

Assim, li Bagagem (Editora Imagino, em 1976). Uma reunião de 30 poemas de Adélia, seleta de peso, que contou em seu lançamento com figuras como Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Clarice Lispector, Juscelino Kubitschek, Affonso Romano de Sant’Anna, Nélida Piñon e Carlos Drummond de Andrade – que a encheu de elogios no “Jornal do Brasil”.

Nesse primeiro livro a poeta já demonstra uma maturidade magnânima, e, ao contrário de nomes como Vinicius de Moraes* e Cecília Meireles** (que viriam a transformar a própria estilística conforme novos títulos, ambos publicaram o primeiro livro muito jovens – 20 e 18 anos, respectivamente), definiu a sua imagem e essência poética já a partir de Bagagem: uma confluência mineira-espiritual-dos-detalhes, tão elogiada por admiradores e críticos nas últimas décadas.

Adélia nos trouxe então uma bagagem, mas que bagagem seria essa? Logo no prefácio a poeta utiliza os salmos bíblicos para definir o próprio fazer, O modo poético: “Chorando, chorando, sairão espalhando as sementes. Cantando, cantando, voltarão trazendo os seus feixes.” E anuncia: “Mulher é desdobrável. Eu sou”, no poema que abre o livro, Com Licença Poética; anuncia a carapuça de mulher-poeta, mulher-mineira, mulher-madura: ‘‘Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina./ Inauguro linhagens, fundo reinos / – dor não é amargura.” no que reafirma em Grande Desejo, “sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia./ Faço comida e como./ Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro e atiro os restos.”

Nos poemas Orfandade, Azul sobre Amarelo, Maravilha e Roxo; Páscoa; Atávica; Um Homem Doente Faz a Oração da Manhã; Bendito; Sítio e Tabaréu, traz sua bagagem religiosa e católica: um misto de orações e agradecimentos. No poema Orfandade, pede a Deus o ressurgimento de sua falecida mãe, misturando elementos fantásticos de sua infância com a sua atual orfandade: “Meu Deus, / me dá cinco anos (…) Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,/ me dá uma noite  pra eu dormir com minha mãe (…) ó meu Deus, meu pai, / meu pai.”  e deseja no Azul sobre Amarelo, o querer de um mundo generoso e autêntico como o do menino Jesus: ”Desejo, como quem sente fome ou sede,/ um caminho de areia margeado de boninas,/ onde só cabem  a bicicleta e seu dono.”  Em Páscoa, discute a sua própria velhice, que adentrará o seu espírito profundamente

“Divido o dia em três partes:

a primeira pra olhar retratos,

a segunda pra olhar espelhos,

a última e maior delas, pra chorar.

Eu, que fui loura e lírica,

não estou pictural (…)

Peço a Deus,

em socorro da minha fraqueza,

abrevie esses dias e me conceda um rosto

de velha mãe cansada, de avó boa, 

não me importo. Aspiro mesmo

com impaciência e dor.”

No poema Um Homem Doente Faz Oração da Manhã, pede piedade à Deus na figura de um homem sensibilizado pela doença de seu corpo, em relação com o poder de sua alma, de oração: “Tem piedade de mim, / tem piedade de mim/ pelo sinal da Vossa Cruz, / que faço na testa, na boca, no coração. / Da ponta dos pés à cabeça,/ de palma à palma da mão.”

Em Atávica há uma confissão amorosa-poética: ao lado de sua mãe,  respira o ritual religioso, o destino ante a roça que deixara para ir à cidade “Mas eu vim pra cidade fazer versos tão tristes/ que dão gosto, meu Jesus misericórdia./ Por prazer da tristeza eu vivo alegre.” ao que em Bendito, confessa também sua rendição à Deus como o Senhor salvador: ”Louvado sejas Deus meu Senhor, porque o meu coração está cortado a lâmina,/ mas sorrio no espelho ao que,/ à revelia de tudo, se promete”, que fortalece em Sítio, cultuando a Igreja como fortaleza onde “Lá o gado de Deus para pra beber água,/ tela um no outro os chifres/ e espevita seus cheiros/ que eu reconheço e gosto. (…) Lugar sagrado, eletricidade / que eu passeio sem medo.” 

Em Tabaréu, discute os nexos e travessias de cursar Filosofia “Fiz curso de filosofia para escovar o pensamento,/ não valeu. O mais universal a que chego/ é a recepção de Nossa Senhora de Fátima / em Santo Antônio do Monte” e o seu encontro, da verdadeira profissão, com a Poesia “Porque, mercê de Deus, o poder que eu tenho/ é de fazer poesia, quando ela insiste feito/ água no fundo da mina, levantando morrinho de areia.”

Traz também a bagagem naturalista de seu cotidiano com os pais, os filhos, as irmãs e a Divinópolis, em imagens e figuras pitorescas, nos poemas Resumo, Círculo, Poema Esquisito, Pistas, Exausto,Clareira, Impressionista, A Despropósito, Bucólica Nostálgica, Para Comer Depois, Endecha, Endecha das Três Irmãs e Refrão, Assunto de Cavaleiro e Seu Cavalo Medroso, Anímico, Descritivo e Cabeça. 

Adélia Prado, de sua experiência, expressa a cadência de seus versos singulares na poesia brasileira. O que podemos dizer de uma suposta figura conhecida como “drummoniana de saias”? Muito mais do que isso, Adélia Prado é rio que se transforma e cresce além de rasos esterótipos e se mantém como uma poeta da divindade, da transformação do simples em magistral, costurando nas vias da roça e da pequena Divinópolis um mantra equinócio a Deus – senhor de suas palavras.

 

* O Caminho Para a Distância, Rio de Janeiro, Schmidt Editora, 1933.

** Espectros, São Paulo, financiada pela própria autora e publicada em tiragem ínfima, foi prefaciada por Alfredo Gomes, 1919.

 

Escrito por Mariana Basílio

Mariana Basílio (Bauru - SP, 1989) é uma escritora, poeta, e tradutora brasileira. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Dedica-se à área literária desde 2014. Traduzindo diversos autores americanos e latino-americanos, entre eles, Alejandra Pizarnik, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Emily Dickinson, May Swenson, Silvina OCampo e Williams Carlos Williams. É colaboradora de portais nacionais e internacionais, escrevendo também ensaios. Tem poemas, entrevistas e traduções em diversas revistas nacionais e internacionais. É vencedora do prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo pelo seu terceiro livro de poesia, Tríptico Vital (Patuá, prelo, 2018), dedicado à escritora e poeta, Hilda Hilst. Site para contato: www.marianabasilio.com.br