Observo por muito tempo as axilas dos homens

e se o planeta é uma reviravolta de feridas.

Eu quero respeitar os meus tumores,

as folhas que eu li pela metade durante crises

de impaciência, meu corpo em duas dobras

quando eu deveria ser todo, osso, pulso, mandíbula,

queixo caído, mão sobre ombro, língua, axila dos homens.

Quando eu deveria ser tudo.

Preciso de dois beijos rápidos e encantados

para que eu me torne princesa e não morra no final da história.

Os teus beijos me largam e me punem e não sou

o que os homens pensam e dizem e mentem

– sob o hemisfério azul do mesmo mar que afundamos e bebemos.

Você mentiu enquanto dançávamos,

eu menti enquanto comíamos.

Não era de refrigerante a nossa sede,

apenas água farta e abundante.

Cachoeira, solidão, coração hostil.

 

*Antônio LaCarne é brasileiro, nasceu em 1983. É autor de “Salão Chinês” (Patuá, 2014), “Todos os poemas são loucos” (Gueto Editorial, 2017). Participou das coletâneas “A Polêmica Vida do Amor” (Oito e Meio, 2011) e “A Nossos Pés” (7Letras, 2017) e “GOLPE: antologia-manifesto” (Nosotros Editorial, 2017). Seus textos estão presentes em revistas e suplementos literários.