A VIÚVA DO JORNAL

(André Nogueira)

Com o envelopinho pelo viaduto.

No envelopinho
uma passagem para Santa Rita do Sapucaí,

um trocado para um lanche e uma coca
e o santinho, com a prece pro anjo da guarda,
que comprei numa loja católica.
  
No viaduto
ela me disse: “Minha história
deu notícia no jornal.
Foi quase ontem:
cinco tiros por cem conto.
Meu marido nem chegou no hospital,
já me chutaram para a rua sem um puto”.
  
Com o envelopinho
pelo viaduto.
  
Deus te livre e guarde!
Amanhã pode ser tarde…
Hoje mesmo vou trazer essa passagem.
Tua mãezinha em Santa Rita
ainda chora de saudade
e minha Mãe, que é mãe tua,
é quem te guia na viagem.
Tu acredita? Eu te prometo
que tu vai sair da rua”.
  
Mas na loja católica
não achei um só livreto
em que Jesus não fosse branco
e Judas preto.
E na cidade o tempo voa,
é fila no banco,
guichê da Cometa
e com o aperto da garoa
fui direto para casa.
  
No outro dia eu rápido saí
para cuidar da minha causa.
Alcancei o viaduto…
A passagem pra Santa Rita do Sapucaí,
a prece e o trocado para o lanche,
no envelope estava tudo.
  
O velhinho do sinal
segurou na minha blusa
oferecendo-me um chiclete.
“Viúva do jornal?
Não sei, jornal só uso
pra cobrir minhas canelas.
Mas na ponte do outro lado,
vai saber tu acha ela,
tem um povo, uns colchonete…”.
  
Quando olhei, e vi piscando a viatura,
os dois guardas com revólver na cintura,
a pobre gente recolhendo suas tralhas,
eu à toda e sem pensar atravessei,
o busão não me pegou e foi por pouco,
“Que é isso!?”, protestei
com o coração na boca.
  
“Como assim, o que é isso?
É meu trabalho!”, falou o polícia.
“E tu, não trabalha?
A propósito, teu nome, tua idade
e documento”, e também disse
apontando o chão de pedra:
“Este lugar é um cartão postal da cidade,
aqui não cabe essa imundice.
Agora arreda!”
 
Assim tomei o meu caminho,
debaixo da chuva,
amassando em minha mão o envelopinho
e engolindo a seco minha prece.
Nunca mais vi a viúva…
Mas escuto a sua voz no viaduto
como a mim ela dissesse:
“Mamãezinha em Santa Rita me espera”.
E se me lembro da mãe minha,
que é mãe dela e mãe de toda gente pobre,
já no peito o coração me acelera,
mas a blusa ainda o cobre
e macia é sobre o leito minha queda.
  
Roga a Deus por tuas filhas
que se enrolam no jornal,
pois ninguém delas se apieda.
Como o pão que se partilha,
rasgo em dois o cartão postal.
Raios partam estas pontes
e aos montes caiam pedras
sobre os edredons dos maus.
  
Abril de 2017

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com