Iolanda já tinha quase 60 anos quando se sentiu taquicárdica à espera de sua primeira neta. Estava ao lado de Fernanda, avó de cinco, mas mal-enxaquecosa com a chegada da filha de seu menino caçula. Esse garotinho de 25 anos tentava controlar a gastrite nervosa e sorria uma pseudotranquilidade para mãe e sogra. Quando Falanda nasceu, fundindo o nome das avós, o pai soube que ela seria várias.

Seu primeiro namorado começou a perceber isso quando, nas indecisões adolescentes, a jovem parecia querer abraço sem aperto, beijo sem saliva, sexo sem toque. Eram diferentes estilos do TOC, que, se micromanifestado, fazia o coração se contorcer, a cabeça explodir e o estômago autopulverizar. Quando Falanda cresceu, despertando essa indesejável herança orgânica, o psiquiatra cismou que tinha o antídoto.

A escola, entretanto, adoecia o tratamento médico: eram demais as emoções derivadas de sua turma, com mais de 40 atitudes espontâneas concomitantes. Tentava se concentrar nos professores, jura que tentava!, mas a overdose de frases infinitas transpassava os processos labirínticos dos ouvidos e produzia um eco craniano espiralado. Quando Falanda enlouqueceu, levou ao banheiro um segredo em forma de estilete.

Quando Falanda abriu os olhos, sentiu os dedos do pai arrumando sua franja suada e notou estar em um quarto de hospital. Lembrava por que tinha os pulsos enfaixados e se julgou culpada pelas lágrimas que embaçavam as íris paternas.

– Desculpa.

Quem disse foi o homem que, recém-completadas quatro décadas de vida, atribuía para si as responsabilidades. A pelo corte dérmico da menina. A pelo abandono materno. A pelo carinho costumeiramente negado. Apelos de amor-próprio que o chicoteavam mentalmente por tê-la proibido de ir ao show do cantor sertanejo, de não lhe oferecer uma festa de debutante luxuosa, de não a matricular em outra escola enquanto havia tempo.

– Desculpa eu.

Os lábios da garota se tornaram beiços após pronunciarem a frase, e a água que salgava seu rosto sensabor mesclava o amargor de desespero por si, a doçura de compaixão pelo pai e o azedume de arrependimento pelo ato. Quando Falanda deu razão à vida, não reclamou por precisar ficar as 72 horas em observação.

Um livro de poemas simbolistas lhe fez companhia. O quarto foi tomado pelo sonho imergindo-se na realidade, pelo misticismo embalando os sentimentos, pela sonoridade bem ritmada dos versos. E enquanto se envolvia numa trajetória sem retorno pelo mundo do intimismo e das intuições, tropeçou no corpo frio e úmido de Ismália.

Ismália, a garota que sonhava debruçada na torre. Ismália, a que queria alcançar a lua que a admirava. Ismália, que se perdeu nos próprios devaneios. Ismália, de Alphonsus de Guimaraens.

Quando Falanda viu que Ismália era exatamente como ela, pensou que talvez pudesse ser uma reencarnação dessa personagem fictícia. Mas não entendeu que motivo teria levado Ismália a se matar: um amor não correspondido? Uma traição desvelada? Uma enfermidade hereditária? Ou apenas o desejo de estar perto de Deus? As indagações não se responderam sozinhas, e a visita entrou sem indagar.

Os doutores da alegria adentraram o quarto com os narizes de palhaço e as perucas coloridas. Quiseram saber o que aquela menina bonita-com-cara-de-cabrita fazia na cama de um hospital, e Falanda exterminou a graça ao dizer que tentou se matar após fazerem piada com ela. O homem dos balões decidiu ir embora, mas a moça de rosto pintado tirou um cartão de visita dos meiões e disse que as artes poderiam ajudar.

Quando Falanda se apresentou no grupo de teatro, não duvidou de sua escolha espontânea ao apontar a oficina de clown. Talvez pudesse ser uma palhaça triste, do nariz preto e da peruca penteada. Talvez conseguisse encenar uma versão circense de Ismália, mesclando tragédia e comédia numa linguagem estritamente visual. Mas percebeu que precisava cumprir etapas, e o desafio inicial era adaptar uma personagem shakesperiana.

Cogitou aproveitar a Julieta – ela morre no final! –, mas precisava fugir de seus lugares-comuns e reinventar seus onzes de março. Queria injetar anilina no cotidiano, colorir-se com o ziguezague narrativo de uma personagem complexa, e Désirée sugeriu:

– Faz a Ofélia.

Désirée tinha anos de experiência nas artes cênicas e parecia uma boa ideia ouvir seu conselho. Passou a noite lendo Wikipédia e blogs literários, porque o Hamlet original era muito profundo para sua mente perturbada. Mas essa sua busca rasa foi suficiente para descobrir que Ofélia, registrada naturalmente Ophelia, era muito mais Ismália e muito mais Falanda, muito mais a Ofélia que o rio levou.

E os questionamentos de ter sido homicídio ou suicídio?, acidente ou incidente?, causa ou consequência?, desvaneciam na correnteza antipíscea do século XVI. Ofélia poderia ser a primeira encarnação de Ismália, que se reencarnou em Falanda. Mas Ofélia já não era a primogênita, se considerassem Katherine Hamlet, a criatura verídica que pode ter sido a inspiração das demais.

Falanda imergiu-se na possibilidade de ter morrido no Rio Avon, há 50 décadas submarinas, em uma das camadas de vidas espirituais que lhe pertenciam e nas quais nem acreditava. Os registros de que fora desequilíbrio e os rumores de que fora desilusão mesclavam-se configurando o talvez maior mistério literário que a Literatura não tivera tempo de criar – e por isso recria e recreia os leitores ávidos de melodrama.

A garota dramatizou a Ofélia e, depois dos aplausos de uma apresentação silenciosa, decidiu tatuar poemas sobre as cicatrizes dos pulsos. Quando Falanda entregou-se a um mundo que não era somente dela, soube, em si mesma, que não se permitiria ao desligamento precipitado de sua história.

Escrito por João Paulo Hergesel

Nascido em 25 de julho de 1992, João Paulo Hergesel é um escritor brasileiro residente em Alumínio (SP). É doutorando em Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi (UAM), mestre em Comunicação e Cultura e licenciado em Letras pela Universidade de Sorocaba (Uniso). Dedica-se à produção literária, com foco na literatura infantojuvenil, e à pesquisa na área da Narrativas Midiáticas com foco no estudo do estilo. Autor de livros com temáticas diversas e com participações em várias antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais – entre eles: Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), Cancioneiro Poético (Instituto Piaget Portugal), Concurso Monteiro Lobato de Contos Infantis (SESC-DF) e Prêmio Ganymedes José de Literatura Infantil e Juvenil (União Brasileira dos Escritores).

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