Abro a porta.
Repreendida por todos que insistem que não se abre a porta em
tempos de guerra.
Bem-aventurado o que segue seus dias ignorando os abcessos,
lavando as toalhas depois de usá-las uma só vez,
ocupando os ocos com creme de avelã, corrida vitae.
Mas eu abro.
Para a morte dou lugar à mesa.
Acolho e limpo seu rosto do respingado da água de sarjeta.
Acaricio as marcas roxas de chutes e pancadas,
torço as vestes molhadas de choro, ensopadas.
Costuro os buracos em suas vestes negras com fios de meu cabelo,
negro também para que não se desconfie do remendo.
Agradando-a e aguardando, para que me leve.
— Não precisa ir embora, nobre senhora, sente-se à mesa e coma
comigo.
Tem suco de romã.
Tem bolo de milho.

Ela engole.
Eu sei porque vejo sua boca funda.
Estende-me os braços e suas mãos tocam as minhas.
Mãos de velha.
Veias grossas como cipó.
Fecho os olhos porque isso me acalma,
abro por causa de comichão na alma,
um incômodo nas pálpebras,
saltam,
uns espasmos feito gatos
brincando debaixo do cobertor de verão, quentinho.
Laranja tem frases de amor escritas em francês que decoro e sugo.
Engano meu corpo que há calor além do dele próprio.
J’ai parfumé mon âme àu fleurs pour toute la vie entiére.

Tenho úlceras no peito,
minhas articulações não fazem um círculo perfeito,
mas desfruto de invisibilidade tão aprazível.
Não há luz própria, é luxo;
puxo de uma única extensão mil conexões para obter energia.
Orgulho-me por encontrar sobrevir em ambientes precários com
primazia.
Mergulho na água fervente.
Há chá quente, o suficiente, para o que a garganta doída forçou
engolir.
Xícara fica vazia.
Já perfumei minha alma com flores para a vida toda.

As mãos se levantam à revelia, se voltam contra mim com
covardia.
Atacam, a dilacerar as maçãs.
Durmo, todos os costumes refeitos.
Acordo com o dilúvio.
O teto, o abajur e os sapatos, os livros: vertem água.
O espelho deságua violentamente.
Ao olhar meu reflexo verto água dos olhos.
Ouço o sussurrar d’ água e ela desce dos ouvidos.
Borbulha os órgãos.
Águas-vivas pressionam a bexiga.
Coágulos de água escorrem por minhas pernas,
como sangue nenhum jamais ousou.
Vou à janela
temendo presenciar a tempestade do século que
repetirá a varredura de todos nós do mundo.
Mas o sol brilha, beija-flores bêbados
cantam piano, jantam felizes no jardim.
Fodeu.
Chove é dentro.
Das quatro paredes, uma está seca, onde se lê em carvão:
Como paga pela gentileza por ti prezada:
Cria necessita terra preta e arada.

Tudo que deve morrer,
deve morrer sob o sol e só,
sem dó.
Nota: dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Abre a cova, abre o luto!
Esvazia sem pressa para pôr nada em substituto.
Atina: caso o que deva morrer for ignorado,
será arrastado
pelos próximos nove anos.
Ciclo se cumpre,
verás a ti mesma esvair-te em fruta podre!
Varre todo canto, cômodo.
Canta que o canto posto para fora dirá:
“Venha novo!”
E dirás:
“Meu reino!”
Está feito.
Meu cérebro aguado não responde ao raciocínio.
Graça aos meus genes sirenídeos, nado.
Busco socorro.
Tomam meu pulso: nada.

Checam meu coração: nada.
Pulmão: nada.
Rins: nadam.
A família recebe o diagnóstico:
— Foi dilúvio mudo.
Encharcada.
Interna.
Generalizada.
Não há o que fazer.
Finalmente, jogam meu corpo ao mar.
Desfeita a carne,
meu esqueleto sacode
emaranhado em redes de pesca
inúteis no fundo.
Chacoalho com a correnteza.
Do corpo morto ficou o cabelo
que a morte não leva.
Passatempo meu é enrolar os nós,
quando eu menina minha avó trançava e cantava:
A cavalo dado não se olham os dentes…
As mãos que trançam corriqueiramente dilaceram as maçãs,
mas não havia maçãs no fundo do rio para dilacerar.

Não havia nada.
(Sorri por nada.)
Mas havia ainda os cabelos,
repuxados com a correnteza.
Os mesmos fios negros.
Cedo-os à morte para que faça um casaco.
Para este frio…
Anos e anos imersa, imensa.
Rio frio que eu mesma chorei
com os meus olhos
que a terra comeu e deu de volta,
mastigado com folhas,
misturado às minhocas,
ficaram cor de lama esverdeada.
Vejo melhor.
Sabem verter água.
Lágrima invade sem ser chamada.
De repente por toda a Terra, parcerias eternas desfeitas.
Casas em branco.
Cabeças raspadas.
Antenas do universo.
Heliporto para o que há de vir.

Anos e anos imersa, imensa.
Sei verter água e torno-me agora rio.
Invado sem ser chamada.

(Foto de Érica Castilho)

Escrito por Natalia Amoreira

Autora//Atriz// Soprano de Rio de Janeiro, Brasil.