Janine Mizéra
Um cadafalso rosnado de vozes avulsas tecendo enredos [tramas entrelaçadas de verdades poucas, mentiras roucas e olhares nulos. Cegos o bastante a não inaugurarem paisagens, tampouco arquiteturas lúcidas : memórias harmônicas de escolhas e consequências paridas pelo ventre da consciência [náufraga da inconsequente poética.
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Falar é sangrar entre os dedos, sonhos e medos o útero seco do ego : é sagrar entre os dentes, bençãos e misérias o estômago ácido da vanglória : é sarcastizar entre os destinos, sortes e marcas o torso fértil da glória. Falar é suicidar a palavra. Quando como quem semeia ásperos cardos nos jardins de pedras desapercebemos o abstrato das vozes. O dizer-mudo dançando sob os ossos da língua. O gesto-surdo cantando sob os ocos da laringe. Como quem semeia ásperos cardos nos jardins de pedras desapercebemos o delírio do óbvio. O tato da mística. O átomo homeopático dos sentidos. Falar é suicidar a verdade. Quando como quem semeia ásperos cardos nos jardins de pedras desaprendemos a agasalhar o silêncio. Aconchegar o sossego e a respirar a solidão reflexiva – descolando as pupilas que equilibram as cores nas retinas.
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De repente, não mais que de repente viver não é nada além [senão vestígio do inabitado. Regendo o imperfeito e o estragado. De repente, não mais que de repente viver não é nada além [senão vértice de tudo que se despe. Regando tudo que se despede e despedaça [pelo sentimento : pelo envolvimento : pelo coração. Seu acontecer disperso é o próprio discurso vasto e cálido. Sem rosto, corpo ou identidade. Confuso embora confesso não desvia o olhar. Nos olhos afunda – e fundo não promete mundos nem fundos. Promete sorrisos e dádivas. Todas múltiplas. Promete beijos que pedem mudez. Pedem carinho e delicadeza, atenção e destreza, simplicidade e falta de memória. Viver é a própria linguagem. Não dispondo de boca brada pelo próprio corpo.
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Falar é uma escolha, não uma exigência [eflúvio interesse do tempo lavrado nas entranhas do vento. Não contrata verbo nem adjetivo – predicado invariável não sujeita vontade nem intima vaidade, tampouco coage deveres. Sobrevive dos destroços dos equívocos sorrindo das promessas incumpridas, lúdicas e utópicas. Embriagados pela lasciva lábia das vozes saímos na contramão das inteirezas da entrega. Numa coleção de segundos onde a palavra nasce, cresce e intoxica como veneno. Choramos as cicatrizes remoídas pelas mortes prematuras do silêncio.
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Entre barulhos e ruídos e vozes irreconhecíveis. Há um silêncio eterno a margem das palavras. Há um silêncio eterno a margem das pausas. Há um silêncio cavo, áspero embora úmido. No meio do parágrafo, atravessando as ruas, saltando as vírgulas, atropelando as aspas, menosprezando os parênteses. Um silêncio suspenso, despido e permeável como a melancolia dos domingos invariavelmente alaranjados. Oscilados entre as sedes de manhãs solares e as saudades dos entardeceres poéticos – ocupando o ar de caminhos e de espaços, onde tontos os ecos atravessam os desertos das línguas sem idiomas.
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Quando não se tem o que dizer, cala-se [a voz passou na janela do momento :  a vez voou nas asas do vento. Fugindo do tempo das falas, negando os próprios personagens – fantasmas incrédulos sobre nossas máscaras plásticas. Liquidamente desossada e inútil [exaspera a bela língua abortada do mistério. Nesta hora o sentir, até então calado, enche o peito de coragem emudecendo os argumentos vãos das falas – desnecessários alardes. Mansa suavidade urge a querença comodada : puto pulsa o sentimento [nos impulsos das vontades encubadas o amor grita desesperadamente. O oco do vazio zune : o eco do silêncio trinca : a alma ecoa sussurros que brilham os olhos. Desfalecendo os braços – fechando-se no abraço. Vivendo no encontro de dois corações que se beijam. Derramando-se na entrega que não mais sabe recusa. Recusando-se não morar no outro.
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Quando não se tem o que dizer – não insista, cale-se. Descubra o peito, perfume dentro : floresça, refloreste-se. Deixe o amor ser semente sendo somente amado. Amando os poros ouriçados, amando a doçura acariciando a alma. Amando em prece o ser amado. Silêncio também é amor fazendo amor com a alma. Quente, intenso ardente com “A” maiúsculo. Imerso no corpo aquém do humano. Imenso o amor mora no colo do silêncio manso, e sorrateiramente vive a declamar o que o barulho das palavras não declara.
: os versos autorais de falar e cale-se contextualizam a narrativa “Nos vãos das falas”.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.