Porque nem vou tentar

dizer todos os frames fantásticos

que eu registrei na sua presença

embora eu não tenha passado

sete dias no egito com você

embora eu não saiba se você

prefere cueca ou samba-canção

embora haja a ausência de um

corpo finalmente nu

há uma certeza tão viscosa

tão iluminada tão arrogante

tão espessa tão dourada e tão

irritantemente presente que

inunda as minhas manhãs

com o seu cheiro que entendo

que o olfato é o sentido primitivo

e porque sou puro refino

eu produzo mais meios

eu invento suas texturas

eu mascaro qualquer possível

fracasso da nossa caravela eu

acordo purpurinada e firme

em direção ao instinto

na permanência forjada

na faca da poesia no acordo

de um olhar automático que

foi me levando ladeira acima

talvez não por um olho ou outro

e sim pelo cruzamento dos quatro

de onde brotou um novo hieroglifo

relembrando que minhas células

e as suas já se encontraram em

alguma parte planetária e meu deus

o que isso tem de romântico o que

isso tem de extraordinário o que isso

tem de impossível o que isso tem

que me faz levantar como

uma flecha americana pintando

a aurora artesanalmente

desejando o verniz para que

o encaixe seja indolor e grudento

nesse mar onde se serve o mundo

para ter mais tempo para conversar

nesse set onde a arte e a vida

se esqueceram como se separar e

um pulso inconsciente cura

o câncer do passado, o véu de antes

no qual os amantes eram uma bateria

prestes a acabar para sempre no qual

as casas eram de cimento morto e se

comia bicho morto e se deitava

anestesiado de sanidade e de

sonhos onde a púrpura era só lilás e

os bem-te-vi não surpreendiam tanto

como agora quando posso te recriar

com a precisão de um computador

sabendo que as leis físicas corretas

– relatividade e imprevisibilidade –

são tão sinceras que são bonitas

são sinais de fogo despertando

almas que estarão finalmente

nuas em algum set em algum país

onde a vida não tema a arte e

um coração possa ser ofertado sem

o mesquinho medo da morte

no amor de um olhar manual no qual

eu decido conscientemente que

o que eu quero é te investigar como

um míssil americano misterioso que

tenha invadido minha atmosfera

com a precisão de um raio laser

e o que isso tem de delicado e

o que isso tem de desarmônico

e o que isso tem de inocente se

eu invento outras armaduras e

você cria novos ângulos se

seremos sempre sorrateiros e

declaradamente desconhecidos

embora algo na naturalidade

com que eu te navego me faça

reinventar a reencarnação

com a precisão de uma cientista

desejando estar certa como

uma astróloga me aponta

a quantidade de água que

borbulha na minha lua e

de que adianta à poesia

tanto estranhamento se não há

uma pessoa na qual se possa vomitar

a pulsão subconsciente de morte que

me levou a te abordar como uma

mendiga mascarando miséria e

devorar a cidade que desejou

estar tão viva como nós para fazer

a música que encantaria as armas

do fogo que nos paralisa diante de

um samba sem o desespero da dor e

não sabemos o que fazer da alegria

ninguém nos disse que se podia ser

só uma esquina onde o sorriso governa

só um bobo olhando para o céu da terra

só um sinal de luz na boca do silêncio

 

eu te confesso que te respirei sem querer

e te levei por acidente aos meus pulmões

e nada estava tão selvagem nem o olfato

estava ligado estava tudo no raso como

devem ser os escapes urbanos só que

seus olhos me viram te respirando

e me respiraram junto e fizemos

metástase no corpo um do outro

células anormais passaram a irromper

poesia e os médicos não disseram nada

quando reprogramamos a máquina e

tiramos a teia desse tambor teimoso e

foste um difícil recomeço afastando o que

reconheço e quem vem de tanta saudade

esquece depressa o gosto da felicidade

e prefere chamar as coisas pelo avesso e

conversar com os pombos parvos das praças

Entende agora que eu ainda poderia desviar

o meu pulmão de mim ou morrer de alegria

ou continuar viciada em qualquer coisa doce

só que de repente respirei gente e senti

o presente passear no corpo redescoberto e

desarmei a linha vermelha de frente e

descobri um novo jeito de dançar e dóia

que não doesse mais onde era dolorido

até a boca se escancarar de esperança e

pedir que tivesse outro nome esse rio

que pela primeira vez eu navegava

como sempre tudo tão inédito ainda

bem eu finalmente yogue sabendo

que as leis da física são firmes

e que eu poderia não te ver mais

que esse cristal ritmado bordado

de unidade eterna me inundaria

oceanicamente e o que isso tem

de tão diferente na história de

um planeta azul-oceânico

Mas não são oceanos que preenchem

os dias urbanos sombrios e secos  

onde nos encontramos de casco mole

do mesmo modo que há cheia e estio

tivemos de ser tango um do outro

para distrair o sistema límbico que

jura que fará negócio quântico quando

o seu cheiro penetrar meus pulmões

de novo e se abrir com a lentidão

de portas de pedra no sol parado

para saber o que eu realmente tinha

até que ponto eu tinha inventado

um destino subterrâneo aguardando

um dia incalculavelmente longe

assim como uma barata na cisterna

já não me chegava a água mas haveria

o dia de ter a garganta livre para gozar

a aurora alquímica de onde te livro

de ser só carbono comestível para

ser matéria-maravilha tão iluminada

tão serena tão imensa tão atômica

que possa ter a força de partir ou

a sede insaciável de ficar e descobrir

qual gene diário modificar para ser

aquilo de divino as lágrimas

os hormônios aquilo poderoso

a graça a alma a infinita meia-noite

aquilo que bombeia o pássaro que

atravessa o corvo do corpo e

vibra natural e quente aquilo

que se aprende na infância e

depois se esquece dentro da

abóboda da igreja isso que

podia ser chamado de lei

mas precisa ser transmutado

o tempo todo para não perecer

em bocas que já morreram isso

que os humanos morrem de medo

mas que deixa um bicho sem beleza

quando o calor é a redenção do corpo

e nem mesmo a morte se mete na

vida e o que isso tem de tão enluarado

e o que tem também se for inventado

se no começo era o verbo e

alguém não teve medo de dizer

aquilo que se diz quando se quer

criar e conhecer através daquilo

quem sabe isso acaba sendo muito

mais só por estar na boca de um

poema de chumbo que será de ouro

assim que o sêmen penetrar

no útero de um eu te amo

Escrito por carolinaturboli

Carioca, 26. Alquimista da palavra escrita, falada, cantada. Multiartista - poeta, compositora, romancista, cantora e atriz -, professora e terapeuta, sou palhaça de três pernas: ciência, arte e espiritualidade. Tântrica, amante da astrologia e do tarot, busco compartilhar minha Mulher Selvagem com o Outro através da minha música, da minha literatura e do meu trabalho terapêutico com escrita e Tantra.