Pudesse a mulher com os pardais

No que me antecede ser
mulher, a presença de Naná
mãe pura do acalanto da
Amazônia, eu cegamente
sombria caminhando sobre
o pavimento dos céus
escolhendo meus algozes
concebendo, enfim
a justiça dos pardais.

*

Pudesse a mulher com os pardais
encontrar a rota inalterada
se também é feita de equívoco
parte de tudo que alumia
desencontro de espécies.
Um ajuntamento a outro
sobre muros, bancos, cabeças
vazias, registrando o insólito.
Ela feita para o amor cavo
não sabe distinguir humanidades
consignou seus poemas a voar
Avôhai – talvez, na década de setenta.

*

Meu gemido gesto
meu sentido enfático da solidão
não tenho cordas com que amparar
os acenos da mulher enovelada.
Olhar para o nada
mulher, olhar para o nada
digo a língua das brenhas
sorrio vermelha, menstruada.
A boca onde fui alcançada
tornei mecânicos
os dervixes, os deveres.
Outono incide nos ares, cafés
caminhos pro cinema
interpelo mãos, olhar baixio
de bestas fêmeas –
cada vez mais fêmeas
cada vez mais feras.

*

Decisão

Valha-me ser mulher
ser mulher e navalha
no rasgo das coxas fremidas
no tampo, no acinte da mesa
chamar ao passado mesa
o que quer que se acumule
nesse pedaço de nome
de vidro e madeira
nesse deslugar de falo
torvelinho de girar, quebrar
papeis e carinhos
incumbir à puérpera
sua espécie ebó
nascendo nas encruzilhadas
podendo ser tudo
costumeiramente nada
valha-me que ser mulher
ser mulher é navalha.

Imagem|Roberta Tostes Daniel

Escrito por Roberta Tostes Daniel

Roberta Tostes Daniel, carioca. Autora de "Uma casa perto de um vulcão" (Patuá, 2018) e "Ainda ancora o infinito" (Moinhos, 2019). Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Gueto, Caliban, Poesia Primata, Agulha, Polichinello, Incomunidade, Liberoamérica, Musa Rara, Mallarmargens, Zunái, Literatura & Fechadura, Estrago, Diversos Afins, Germina, Minotauro, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: "Um girassol nos teus cabelos - poemas para Marielle Franco" (Quintal e Mulherio das Letras), "Sob a pele da língua - breviário poético brasileiro" (Arc Edições), “Desvio para o Vermelho” (CCSP), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco), "Crônicas de um amor crônico" (Penalux) e “história íntima da leitura” (Ed. Vagamundo). Email: robertatostes@gmail.com Instagram: @robertatostesdaniel e @danielrobertatostes Blog: http://robertatostes.wordpress.com “Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra” (António Ramos Rosa)

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