Poema de regresso

 

i

para as primaveras
coleciono águas
em um fiar lento
enquanto sigo
lembro mesmo
sem nunca
ter vivido

 

ii

ando lendo: como
éramos felizes, não
sabíamos – por que
não rir disso também?
do paradoxo a espreitar

 

iii

carrego um álbum desbotado.
a cada imagem que o toque descobre
reencontro a razão das amálgamas
diluindo nas ondas as amarras,
além da própria razão desconhecida.
revelo os pixels ao vento lento,
tardo pensando na face do android
processando-o diante do véu,
que em céu, nem por aquele breviário
é tocado como este cavalo
quando recebe o ar do mar
e fica a mastigar a grama.
tardo e não me tomo
por outras fotografias.
ela, por desleixo do dedo,
sob o desejo de reentabular a vida,
é que me faz, no balançar da crina,
do barco, neste mar reinaugurado

 

iv

 olho para a página
e a vida chama,
longe:
a cada passo
inverso,
o regresso
é em verso,
na eternidade
da folha
em branco.

Escrito por Tiago D. Oliveira

Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados no Brasil, Portugal e Espanha. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído” (Editora Pinauna), e em 2017 lançou o “Debaixo do vazio” (Editora Córrego).